SOU EU (1993)

   Letras | Encartes | MúsicosFicha Técnica | Apresentação | Show | Fotos | Imprensa    


SOU EU

Simone
(P) 1993 SONY/COLUMBIA (25o álbum)



1. CANÇÕES E MOMENTOS
 
Canções e momentos
(Milton Nascimento/ Fernando Brant)
 
Há canções e há momentos
eu não sei como explicar
Em que a voz é um instrumento
que eu não posso controlar
 
Ela vai ao infinito
ela amarra todos nós
E é um só sentimento
na platéia e na voz
 
2. SOU EU
 
Sou eu
(Isolda/Eduardo Dusek)
 
Pedi pro sol me responder o que é o amor
ele me falou é um grande fogo
procurei nos búzios e tornei a perguntar
eles me disseram o amor é um jogo
Lembrei que a lua tinha muito pra contar
ela se abriu pra mim
disse que o amor usa tantas fases
é uma luz que não tem fim
 
Eu pedi pro vento que soprasse o que é o amor
ele garantiu é tempestade
bandos de estrelas me contaram sem piscar
o amor é pura eternidade
Sem saber direito perguntei pro coração
que sem medo respondeu
o amor é fogo água céu e terra
sente o amor sou eu
 
Sou eu quem gera essa energia que conduz
seu coração a essa estrada essa luz
o amor é fogo água céu e terra
sente o amor sou eu
 
Sou eu quem salva o teu caminho da ilusão
eu que te consagro repetiu meu coração
o amor é fogo água céu e terra
sente o amor sou eu
 
3. SANGRANDO
 
Sangrando
(Gonzaga Jr.)
 
Quando eu soltar a minha voz
por favor entenda
Que palavra por palavra
eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca peito aberto,
vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
que eu estou cantando
 
Quando eu abrir a minha garganta,
essa força tanta
Tudo que você ouvir esteja certa
que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
e o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
transbordando toda raça e emoção
 
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante cante que o teu canto
é a minha força pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar
 
4. AMOR DE ÍNDIO
 
Amor de índio
(Beto Guedes/ Ronaldo Bastos)
 
Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas com todo cuidado, meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa do azul pintado pra durar
Abelha fazendo mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor
e ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for
e ser tudo
 
Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho é mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes o tempo acordado de viver
No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar
e andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir teu calor
e ser tudo
 
Sim todo amor é sagrado
Sim todo amor é sagrado meu amor
 
5. ELA E EU *
 
Ela e eu 
(Caetano Veloso)
 
Há flores de cores concentradas
Ondas queimam rochas com o seu sal
Vibrações do sol no pó da estrada
Tanta coisa quase nada
Cataclisma Carnaval
 
Há muitos planetas habitados
E um vazio na imensidão do céu
Bem e mal e boca e mel
E essa voz que Deus me deu
Mas nada é igual a ele e eu
 
Lágrimas encharcam minha cara
Vivo a força rara dessa dor
Clara como o sol que tudo anima
Como a própria perfeição
Da rima para amor
 
Outro homem poderá banhar-se
na luz que com essa mulher cresceu
Muito momento que nasce
Muito tempo que morreu
Mas nada é igual a ela e eu
 
6. OUTRA VEZ *
 
Outra vez 
(Isolda)
 
Citação Musical ‘Detalhes’ (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
 
Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços
O que nunca esqueci
Você foi dos amores que eu tive
O mais complicado
e o mais simples pra mim
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história
que alguém já escreveu
E é por essas e outras
que a minha saudade faz lembrar
de tudo outra vez
 
Você foi a mentira sincera
brincadeira mais séria
que me aconteceu
Você foi o caso mais antigo
O amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim
Outra vez
 
Esqueci de tentar te esquecer
Resolvi te querer por querer
Decidi te lembrar quantas vezes
eu tenha vontade sem nada a perder
 
Você foi toda felicidade
Você foi a maldade que só me fez bem
Você foi o melhor dos meus planos
E o maior dos enganos que eu pude fazer
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim
Outra vez
 
7. IOLANDA *
 
Iolanda 
(Pablo Milanês – versão: Chico Buarque)
 
Esta canção
Não é mais que mais uma canção
Quem dera fosse uma declaração de amor
Romântica
Sem procurar a justa forma
Do que me vem de forma assim tão caudalosa
Te amo, te amo
Eternamente te amo
 
Se me faltares
Nem por isso eu morro
Se é pra morrer
Quero morrer contigo
Minha solidão
Se sente acompanhada
Por isso às vezes sei que necessito
Teu colo, teu colo
Eternamente teu colo
 
Quando te vi
Eu bem que estava certo
De que me sentiria descoberto
A minha pele
Vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas
De amores de amores
Eternamente de amores
 
Se alguma vez
Me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo
Que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania
Iolanda, Iolanda
Eternamente Iolanda
Iolanda
Eternamente Iolanda
Eternamente Iolanda
 
8. MAR E LUA
 
Mar e lua
Chico Buarque)
 
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
 
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar
 
9. MEU BEM QUERER
 
Meu bem querer
(Djavan)
 
Meu bem querer
é segredo, é sagrado
está sacramentado
em meu coração
 
Meu bem querer
tem um quê de pecado
acariciado
pela emoção
 
Meu bem querer, meu encanto,
tô sofrendo tanto amor
e o que é o sofrer
para mim que estou
jurado pra morrer de amor
 
10. ALMA
 
Alma
(Sueli Costa/ Abel Silva)
 
Há almas que têm
as dores secretas
as portas abertas
sempre pra dor
 
Há almas que têm
juízo e vontades
alguma bondade
e algum amor
 
Há almas que têm
espaços vazios
amores vadios,
restos de emoção
 
Há almas que têm
a mais louca alegria
que é quase agonia,
quase profissão
A minha alma tem
um corpo moreno
nem sempre sereno,
nem sempre explosão
 
Feliz esta alma
que vive comigo
que vai onde eu sigo
o meu coração
 
11. RAIOS DE LUZ
 
Raios de luz
(Cristovão Bastos/ Abel Silva)
 
Você chegou
e iluminou
o meu olhar
Teus olhos nus
Raios de Luz
no azul do mar
Meu coração
Que sempre quis acreditar
Bateu feliz
foi só você chegar
Sei que a paixão
apaga o chão
rareia o ar
Ser e não ser
negar querer
fugir ficar
Mas não fui eu quem quis assim
aconteceu você pra mim
e eu não vou negar o que
o acaso quis pra nós
A chama desse amor me faz
sorrir cantar te quero mais
Te chamo só
pra repetir
te amo
 
12. CARINHOSO
 
Carinhoso
(João de Barro/ Pixinguinha)
 
Meu coração
não sei porque,
Bate feliz
quando te vê…
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
foges de mim
 
Ah… se tu soubesses como eu sou tão carinhoso
E o muito e muito que eu te quero!…
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim!
Vem, vem, vem, vem, vem sentir o calor
Dos lábios meus
à procura dos teus,
vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então
Serei feliz
Bem feliz
 
13. ONDE ANDA VOCÊ
 
Onde anda você
(Ermano Silva/ Vinicius de Moraes)
 
E por falar em saudade
onde anda você
Onde andam os seus olhos que a gente não vê
Onde anda esse corpo
que me deixou morto
de tanto prazer
 
E por falar em beleza
onde anda a canção
Que se ouvia na noite
dos bares de então
Onde a gente ficava,
onde a gente se amava
em total solidão
 
Hoje eu saio na noite vazia,
numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares,
que apesar dos pesares
Me trazem você
 
E por falar em paixão,
em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares,
onde anda você
 
14. JURA SECRETA *
 
Jura secreta 
(Sueli Costa/ Abel Silva)
 
Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime
De que por não saber, ainda não quis
 
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri
 
15. QUASE UM SEGUNDO
 
Quase um segundo
(Herbert Vianna)
 
Eu queria ver no escuro do mundo
Aonde está o que você quer
Pra me transformar no que te agrada
No que me faça ver
Quais são as cores e as coisas
pra te prender
Eu tive um sonho ruim
e acordei chorando
Por isso te liguei
Será que você ainda
pensa em mim
Será que você ainda pensa
Às vezes te odeio por quase um segundo
Depois te amo mais
Teus pêlos, teu gosto, teu rosto,
tudo que não me deixa em paz
Quais são as cores e as coisas
pra te prender
Eu tive um sonho ruim
e acordei chorando
Por isso eu te liguei
será que você ainda pensa em mim
será que você ainda pensa
 
16. A DISTÂNCIA
 
A distância
(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
 
Nunca mais você ouviu falar de mim
Mas eu continuei a ter você
Em toda esta saudade que ficou
Tanto tempo já passou
e eu não te esqueci
 
Quantas vezes eu pensei em voltar
E dizer que o meu amor nada mudou
Mas o meu silêncio foi maior
E na distância morro todo dia
sem você saber
 
O que restou do nosso amor ficou
No tempo esquecido por você
Vivendo do que fomos ainda estou
Tanta coisa já mudou
Só eu não te esqueci
Quantas vezes eu pensei em voltar
E dizer que o meu amor nada mudou
Mas o meu silêncio foi maior
E na distância morro todo dia
sem você saber
 
Eu só queria lhe dizer que eu
Tentei deixar de amar, não consegui
Se alguma vez você pensar em mim
Não se esqueça de lembrar
Que eu nunca te esqueci.
Quantas vezes eu tentei voltar
E dizer que o meu amor nada mudou
Mas o meu silêncio foi maior
E na distância morro todo dia
sem você saber
 
17. CAÇADOR DE MIM
 
Caçador de mim
(Sérgio Magrão/ Carlos Sá)
 
Por tanto amor
por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz,
manso ou feroz
Eu, caçador de mim
 
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
 
Nada a temer senão
o correr da luta
Nada a fazer senão
esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas
da mata escura
 
Longe se vai
sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
o que me faz sentir
Eu, caçador de mim
 
18. O VENDEDOR DE SONHOS
 
O Vendedor de sonhos
(Milton Nascimento/ Fernando Brant)
 
Vendedor de sonhos
Tenho a profissão viajante
De caixeiro que traz na bagagem
Repertório de vida e canções
 
E de esperança
Mais teimoso que uma criança
Eu invado os quartos, as salas
As janelas e os corações
 
Frases eu invento
Elas voam sem rumo no vento
Procurando lugar e momento
Onde alguém também queira cantá-las
 
Vendo os meus sonhos
E em troca da fé ambulante
Quero ter no final da viagem
Um caminho de pedra feliz
 
Tantos anos contando a história
De amor ao lugar que nasci
Tantos anos cantando meu tempo
Minha gente de fé me sorri
Tantos anos de voz nas estradas
Tantos sonhos que eu já vivi


 
 
* Músicas incluídas apenas no CD

 
ENCARTES
 
LP
 
 
K7
 
 
CD
 
 
FICHA TÉCNICA
 
Produzido por Mazzola para MZA PRODUCTIONS
Técnicos de Gravação: Marcelo Saboia e Marcos Saboia
Assistentes de Gravação: Geraldo e Marcelo ‘Loud’
Engenheiro de Mixagem: Marcos Saboia
Assistente de Produção: Antonio ‘Foguete’
Arregimentação: Ronaldo Monteiro
Roadie: Novelle
 
Gravado e Mixado no Estúdio Impressão Digital – RJ
 
Direção de Arte: Carlos Nunes
Foto Contra-Capa: Beti Niemeyer
 
(P) 1993 Sony Columbia
 
FORMATOS
 
1993 – SONY/COLUMBIA – CD (850.197/2 – 464387)
1993 – SONY/COLUMBIA – LP (177.317/1 – 464387)
1993 – SONY/COLUMBIA – K7 (77317/4 – 464387)
 
 
MÚSICOS que participaram deste LP:
 
Ricardo Leão – Arranjos, Teclados e Piano
Victor Chicri – Teclados
Luiz Chaffin – Guitarra e Violão
Jorjão – Baixo e Violão na faixa ‘Quase um Segundo’
Paulinho Braga – Bateria e Percussão
Zé Canuto – Sax e Flauta
 
Músicos Convidados:
Robertinho Silva – Percussão nas faixas:
‘Alma’, ‘O Vendedor de Sonhos’, ‘Onde anda Você’ e ‘Caçador de Mim’
José Carlos – Violão nas faixas: ‘ Vendedor de Sonhos’ e ‘Onde Anda Você’
 

APRESENTAÇÃO
 

20 ANOS DEPOIS …
“Não, não saberia
viver longe de um palco,
sem cantar. Porque
cantar é a razão
da minha vida.”

A frase é de uma Simone mais introspectiva, preocupada em fazer o balanço de uma carreira que está completando vinte anos agora. Pretexto, aliás, para entrar em estúdio e gravar um disco comemorativo (“Sou Eu”), onde recontempla sua trajetória, desde o tempo em que fazia o velho circuito dos clubes e bares, tão familiares aos iniciadores de uma carreira de cantor.

Ela e o violão de sua amiga Elô. Mais econômico e minimalista impossível. Os cachês eram ridículos, os lugares quase sempre deficientes, a luz precária e o som geralmente de má qualidade. Mas já havia a crepitação do fogo queimando o coração e a garganta doida para soltar a voz. E essa doidice levava Simone Bittencourt de Oliveira a cantar de tudo: do “Bambolêo” ao “Matriz e Filial”, dos repertórios de Carmem Miranda e Jamelão, respectivamente. Mais eclética, impossível. Também, não faltavam Tom Jobim, Ivan Lins, Tayguara. Tudo isso arrematado com um hino de Dalva de Oliveira, o celebrado “Bandeira Branca”.

Grande e desajeitada, já querendo ser bonita, a jogadora de basquete começava ali uma trajetória que culmina agora com este afirmativo “Sou Eu”, uma compilação do recente e magnífico show que fez sob a direção perfeita de seu amigo Ney Matogrosso.

“Gostaria que se dissesse da dificuldade que foi chegar aqui, como tudo é tão difícil, como fazer sucesso é difícil, como permanecer é difícil!”. Fala agora não como uma lutadora que sempre foi, mas como a mega estrela que se tornou e não consegue dormir sob os louros conquistados. É preciso ir mixar o seu disco em Los Angeles? Ela vai. Como tranqüilamente pega um avião para a Espanha e o Japão, entra num estúdio com Plácido Domingo e com ele reparte uma faixa num disco que irá percorrer o mundo. “Difícil mesmo foi conter a emoção de conhecer o Milton (Nascimento) entrar com ele num estúdio para gravar “Gota d’água” do Chico”, confessa agora. “Meu coração disparava, parecia um relógio com disritmia. Era meu ídolo, cantando ao meu lado”. Lembro desse dia, e de muitos outros: Simone havia gravado em 1973 em LP produzido um tanto às ocultas (o diretor artístico efetivo da Odeon, Milton Miranda, estava de férias) pelo gerente de marketing daquela gravadora, Moacyr Machado, desaparecido recentemente. Ele foi o primeiro homem da indústria do disco a apostar no talento de Simone. Era uma produção de baixo custo: a capa em branco-e-preto, poucos músicos arregimentados pelo orquestrador José Briamonte, disco realizado às pressas em 2 ou 3 sessões diretas (“praticamente não havia verba”, me explicou Moacyr Machado à época).

Sucesso? Nada muito além dos aplausos familiares e de algumas companheiras da equipe de basquete e de corajosos e atentos programadores que ousaram colocar aquela iniciante audaciosa, que arriscava trocar as quadras de esporte pelo competitivo mercado da música.
“Foi muito difícil. Mas valeu a pena”. Foi Moacyr quem me levou até sua chácara em São Bernardo do Campo para conhecer aquela quase menina. Tímida, um tanto arredia, ali mesmo arrisquei uma releitura do “Voltei pro morro”, sucesso da Carmem. Levava jeito. Mas ou menos nessa época eu havia revelado a Clementina (de Jesus), o Paulinho da Viola e o Roberto Ribeiro em produções que alcançaram um razoável sucesso de crítica e público. Moacyr intuía e apostava que eu repetiria a dose com Simone. Eu havia sido contratado pela “Aulus”, do corajoso Walter Santos, para levar um show para a Bélgica passando antes pela França e Alemanha. À última hora Elza Soares preferiu continuar sua carreira de sucesso no Brasil e em seu lugar entrou, adivinhem quem? claro, Simone.

A estréia foi no mítico “Olympia” de Paris. Todos nós trememos na base. A novata, acompanhada pelo violão de João de Aquino e o Tamba Trio de Luizinho Eça, mereceu do “France Soir” uma crítica honrosa: “Grande cantora com sorriso de madona, felina até as unhas, com uma frágil sensualidade em cada uma de suas interpretações”. Léo Brouweir, o mais proeminente compositor da vanguarda cubana, endossou depois esse elogio. O show foi assistido pelo empresário Mel Howard da Madison Square Garden Productions e contratado para uma temporada de 3 meses nos EUA e Canadá. Serviu de pretexto para gravarmos 2 LPS (“A Bruxelles”, para o mercado Europeu e “Festa Brasil” para o norte americano).

Em 1974 produzi o “Quatro Paredes” e convidei Milton Nascimento para repartir comigo a produção, em 75/76, do “Gotas d´água”: a música de Chico (referenciada pluralmente no título do LP), cantada em dueto com Milton, leva a emocionada voz de Simone para todo o Brasil. No rastro, “Matriz e Filial” – o tal sucesso de Jamelão que ela cantava nos bares da vida, Elis Regina, num rasgo de generosidade, me apresenta ao repertório de João Bosco/Aldir Blanc, e o “De frente pro crime” é gravado por um coro formado pelo MPB-4 e um jovem recém chegado de Brasília chamado Oswaldo Montenegro. O “Jura Secreta” e “Face a face” (música que dá título ao seu LP de 1978) revelam a dupla talismã de Simone: Sueli Costa e Abel Silva.

 

Voltei a dirigí-la (“Face a faca”) em teatro, o Clara Nunes, com as sobras financeiras que o Marcos Lázaro catou de uma produção do Roberto Carlos. Ney Matogrosso ficou perplexo quando listei o repertório daquele show: do “Rei” Roberto a Chico Buarque, passando por Milton, Herivelto, Manzanero, Gonzaguinha, Dolores Duran, Wilson Baptista, Simone cantava até o “Cabecinha no ombro”, que o Fagner e Sula Miranda ressuscitaram à pouco. Ensaiávamos 10, 12 horas por dia. O “Face a faca” provou que os teatros começavam a ficar pequenos para Simone. A excursão para o Projeto Pixinguinha, em 1978, acabou provando que nascia a mais nova sensação da música popular brasileira. A revista VEJA abriu espaço para Simone em 2 edições seguidas. A óbvia opção, a partir dali, seria os estádios, os teatros com mais de 1000 lugares. Os discos de ouro o platina começaram a se suceder, as excursões ao exterior se intensificaram. Simone: sinônimo de sucesso, casas super lotadas, megas shows super produzidos, a mídia devassando sua intimidade, ela provocativamente aceitando o jogo. Suas convicções místico-religiosas as expõe no palco: as rosas brancas levadas pelo fiel guru Mário Troncoso.

Garantiu espaço nos comícios pelas “Diretas Já”, achando-se madura para as opções políticas que se apresentavam. “Foram muitos erros e acertos”, contabiliza hoje um tanto amargamente. Não subirá mais em palanques para cantar o “Pra não dizer que não falei de flores”, de Vandré? E as 100 mil vozes que a acompanharam no Morumbi em 82? Elas se multiplicaram formando a legião que continuou seguindo a cantora apesar dos tais erros e acertos que ela expõe com a franqueza habitual. Prova de acerto: a presença de Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento e Gal em alguns de seus discos, reverenciando seu talento. Erros? Alguns deslizes no repertório que a fizeram faturar criticas carrancudas. A qualidade do repertório volta por inteiro neste “Sou eu”.

“É, baixei todos os tons” – concorda com minha observação. Sua voz ficou mais densa, incorporou um sentido jazzístico na exposição dos temas de algumas músicas como o “Jura Secreta”: a melodia é re-exporta com mais liberdade. O registro da voz é de contralto mas com tessitura ampla: desde a direção do grande Flávio Rangel se apaixonou pela sustentação de algumas notas mais agudas: parece receber Callas ou Judy Garland nessas horas. “Quero que você, aqui, nessa hora, pareça uma cantora de ópera!” – imagino escutar Flávio Rangel dirigindo-a naquele memorável show do Canecão (“Quando fui apresentada a ele com aqueles cabelos brancos, disse para mim: PQP, mais um pra infernizar minha vida! Lembrei logo do nosso show!”, relembra com carinho).

“Sou eu” (a música título do CD / K7 / LP é de Eduardo Dusek) guarda o mesmo título do esplendido show que devolveu à Simone o público que sempre a prestigiou enquanto prevalecia a qualidade do seu repertório. Ney Matogrosso foi o responsável por essa reviravolta: elegantíssima num longo branco, sapato altíssimo que a faz ganhar uma dimensão inusitada no palco e uma emoção que ela optou pro levar ao estúdio, na impossibilidade de gravar ao vivo o “Sou eu” – mas como se estivesse no palco (“estou até semitonando, brinca ao telefone”) – opção que o seu produtor Mazzola apoiou.

“Raios de luz”, que enobreceu a recente novela “De corpo e alma”, convive com o “carinhoso” de Pixinguinha / João de Barro e um repertório variado que mistura Caetano Veloso, Isolda, Gonzaguinha, Vinícius de Moraes e outros compositores.

Fosse gravar uma retrospectiva de seus 20 anos de carreira, talvez tivesse que optar por um CD triplo. Porque os sucessos foram muitos e nada desmente que a trajetória qualitativa de Simone retomada com “Sou eu”, vá ser interrompida a partir de agora. A boa música brasileira volta a brilhar através de sua voz poderosa, que em breve pousará num trabalho conceitual de grande importância.
Certa vez escrevi que “Simone é um animal selvagem, de crina prateada, que ao subir num palco se exerce como sacerdotisa de um culto ecumênico, onde, através da música, exorciza todos os demônios”. É o que sigo pensando.

Pergunto, enfim, : começaria tudo outra vez? “Sem dúvida”, responde “apesar de todas as dificuldades”.
(Hermínio Bello de Carvalho, 1992)