JURA SECRETA


Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime
De que por não saber, ainda não quis

 
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri
 
 
 
“Eu acho que todo mundo tem um xodó no disco, eu acho que todo cantor, todo intérprete tem uma música que lhe toca mais no coração. Logicamente que tenho a minha. Do FACE A FACE é o JURA SECRETA. É uma música da Sueli Costa e do Abel Silva.
A Sueli chegou na minha casa um dia e levou a letra p’reu ler, e tocou, e quando ela tocou, me tocou, mas tocou tão fundo que eu tenho a impressão de que se o Abel Silva me conhecesse realmente como a palma da mão dele, ele não faria uma coisa tão certa”

(Declaração de Simone durante temporada de estréia do show FACE A FACE, MAM – Rio de Janeiro, 27.07.1977)
 
JURA SECRETA (1977)
Música: Sueli Costa – Letra: Abel Silva
Gravada por Simone no álbum FACE A FACE (1977)

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.


 



 
JURA SECRETA
“Só uma palavra em devora…”

Mesmo tendo ocupado quartos de frente do legendário Solar da Fossa e, anos depois, sido vizinhos em Ipanema, Sueli Costa e Abel Silva jamais haviam feito uma música juntos antes de “Jura Secreta”. Foi Abel quem procurou Sueli, por meio de uma carta com uma letra da qual nascera esta canção.
Como grande parte do que se escrevia na ocasião, a letra expunha de forma metafórica reflexões sobre o amordaçamento geral imposto pela ditadura. Eram versos estranhos, aparentemente contraditórios, que afirmavam negações e negavam afirmações:
 
“Só uma coisa me entristece/o beijo de amor que eu não roubei/(…)/nada do que eu quero me suprime/ do que por não saber inda não quis/(…)/só o que me cega, o que me faz infeliz/é o brilho do olhar que não sofri/(…)/só o que me cega, o que me faz infeliz/é o brilho do olhar que não sofri/(…)/só uma palavra me devora/aquela que o coração não diz…”.
 

SUELI COSTA
 
sueli_costa
 

Nestes dois últimos versos, o âmago do poema, Abel não se referia a uma palavra específica, mas ao (não) uso da palavra, ou seja, ao silêncio involuntário.
Lida a carta, Sueli sentiu no primeiro momento como deveria ser a melodia, compondo de estalo a terna canção, que seria levada com outras inéditas para Maria Bethânia, na época preparando o show “Pássaro da Manhã”, no Teatro da Praia.
Todavia, como Bethânia optou por “Coração Ateu”, gravado por ela em 75, Sueli pode então atender Simone, que selecionava repertório para um novo disco e acabou escolhendo “Face a Face” e “Jura Secreta”. A gravação de “Jura Secreta” foi atribulada, tendo acontecido duas tentativas, uma com um grupo de músicos, a outra com dois violões, ambas frustrantes, o que deixou Simone tão perturbada que chegou a menosprezar a letra de Abel.
Daí os ânimos só viriam a serenar com uma intervenção de Gonzaguinha, seguida da sugestão de Sueli, para que a cantora gravasse apenas com o teclado de Gilson Peranzzetta, que criaria para a composição um acompanhamento “bluesy” ao piano Fender.
Logo na primeira tentativa Simone chegou a se engasgar de emoção, prevalecendo a segunda, que acabou sendo o grande sucesso do Álbum “Face a Face”. Isso foi uma surpresa para os incrédulos compositores que sabiam ser “Jura Secreta” uma dessas canções classificadas como difíceis na gíria musical.
Sua leitura seria até recomendada por psiquiatras para ajudar seus pacientes no processo de auto conhecimento. Tempos depois do lançamento, Simone diria em recado a Sueli que se tivesse composto “Jura Secreta” trocaria o título para “Auto Retrato”.

Entre as gravações desta canção destacam-se as da autora, no elepê “Louça Fina” e a de Fagner, em “Quem viver chorará”, além da de Simone, naturalmente”.
Dentre as gravações representativas do ano de 1977, os autores referem SIMONE, Odeon, SMOFB 3931 (lp), “Jura Secreta” 
(“A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras”, Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Volume.2: 1958-1985, Editora 34, Coleção Ouvido Musical, 1998)
 

 

Então, de repente, não mais que de repente começaram a aparecer novas pessoas na minha vida. No Solar da Fossa, conheci Sueli Costa.
Ela já fazia uma música maravilhosa, com parceiros extraordiñários: Tite de Lemos, Cacaso, Aldir Blanc e Paulinho Pinheiro. Ficou minha amiga, mas não parceira ainda. Demorou muito para isso acontecer (…).
Aí, comecei meio distraidamente a realizar aquele sonho quase perdido, meu brinquedo de criança. Fui distribuindo poemas para Sueli Costa, Raimundo Fagner, Moraes Moreira.
Sueli telefonou um dia: “Abel, a letra que você mandou para mim, eu fiz a música e uma cantora nova vai gravar. Você conhece Simone? ” Perguntei: “A jogadora de basquete?” Porque pensei: não era para a Maria Bethânia? Pois foi absolutamente fundamental que fosse Simone. Se Bethânia gravasse, seria mais uma música de Sueli Costa gravada por ela. Ao passo que, com Simone, pintou a parceria a três: eu, Sueli e a baiana.
A música, Jura Secreta, passou a ser um clássico da Música Popular Moderna Brasileira, e mudou minha vida. Foi o bonde certo, o meu barco. Nunca mais desembarquei dessa viagem (…).
Sinto em Jura Secreta uma carga literária muito grande. É, na verdade, um soneto “camoniano”. Está lá, como bem notou Zuenir Ventura, numa crônica em O Globo, á técnica de usar não significando sim (…).
Jura Secreta é o meu verdadeiro início, quando perdi o temor exagerado de participar profissionalmente da canção brasileira. Era um respeito excessivo. Aquela história de D. Ivone Lara: “Alguém me avisou para pisar nesse chão devagarinho” (…)
No meu caso, trabalho com a opinião de seguimentos críticos autamente qualificados e muito importantes. Os parceiros com quem trabalho são pessoas sofisticadas. Não se pode dar qualquer letra para Sueli Costa, João Bosco, João Donato, Roberto Menescal, porque vão dizer: “que palavra é essa? que verso é esse?” Depois que passa do parceiro, que já é, como diriam os professores universitários, um “estabento crítico” fortíssimo, vem outro, que é o intérprete. Não se pode dar qualquer coisa para Nana Caymmi, Bethânia ou Simone cantarem. Por que elas não vão cantar qualquer coisa. Depois, há a crítica do próprio mercado. O mercado tem também as suas cartas. Mas é preciso não jogar com as cartas marcadas.
 

ABEL SILVA
 
Abel Silva
 

VÍDEOS

Simone JURA SECRETA (Sueli Costa/ Abel Silva)
Videoclipe exibido no Fantástico, Rede Globo, 1977

 
Simone JURA SECRETA (Sueli Costa/ Abel Silva)
Show ’35 anos de carreira de Abel Silva’ – Teatro Rival, Rio de Janeiro (RJ), 27.05.2009

Por sharkmar2008