O QUE SERÁ e DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

A MÚSICA


O QUE SERÁ, composta por Chico Buarque em 1976,  é a mais extensa pergunta da canção brasileira e, talvez, da universal. Maior ainda por ter duas versões (além da vinheta ABERTURA), com letras diferentes, uma perguntando sobre o que há no fundo das coisas (À FLOR DA TERRA), e outra, no fundo dos seres (À FLOR DA PELE). Não é por outro motivo que a primeira diz “O que será que será”, e a segunda, “O que será que me dá”. A estrutura melódica se mantém em ambas, caminhando da região grave à aguda e depois retornando ao ponto de partida. O que cresce durante esse percurso, mais que o número de perguntas, é o sentimento de falta de respostas que se prolonga até o verso derradeiro. Claro que elas estão subentendidas, mas sua ocultação comove.
(Luiz Tatit, Folha de S. Paulo, 27.08.2017)
 

O FILME


DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS Florípedes, quituteira baiana, fica viúva. Casa-se de novo, mas só reencontra o prazer – na cama e na vida – quando o falecido volta para vadiar e ela fica com dois maridos. Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça, o elenco perfeito contribui, e muito, para o clima de encantamento, mas não dá para não mencionar a trilha de Chico Buarque e Francis Hime, incluindo “O Que Será”, imortalizada por Simone. É um daqueles raros filmes que deixam o espectador em estado de graça. Uma bela história, muito bem contada. Uma atriz, Sônia, que consegue ser, ao mesmo tempo, encarnação de talento, beleza e comportamento libertário.
(Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo, 15.08.2017)
 


O QUE SERÁ – Abertura
(Chico Buarque)

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O que será que lhe dá
O que será meu nego, será que lhe dá
Que não lhe dá sossego, será que lhe dá
Será que o meu chamego quer me judiar
Será que isso são horas dele vadiar
Será que passa fora o resto do dia
Será que foi-se embora em má companhia
Será que essa criança quer me agoniar
Será que não se cansa de desafiar
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo

 

O QUE SERÁ – À flor da pele
(Chico Buarque)

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O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

 

O QUE SERÁ – À flor da terra
(Chico Buarque)

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O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo

 

LETRAS EXTRAÍDAS DO SITE OFICIAL DE CHICO BUARQUE


O QUE SERÁ

SITE OFICIAL CHICO BUARQUE

Inspirado em fotos da ilha (Cuba) que lhe mostrara o escritor e jornalista Fernando Morais, Chico compôs ‘O que será’, buscando algo entre o baião e os ritmos do Caribe – “um cubaião”, batiza.


O QUE SERÁ

POR BRUNO BARRETO

A pedido do diretor Bruno Barreto, Chico Buarque compôs uma música, com três letras diferentes, uma para cada momento do filme ‘Dona Flor e seus dois maridos’.
“Esse filme é muito tesudo! Vou ter de fazer um ‘tesamba’, tesão com samba, para essa história”, comentou Chico Buarque durante o coquetel de relançamento de ‘Dona Flor e seus Dois Maridos’ em 2001.
O filme é a maior bilheteria do cinema nacional (em 2001).
“Eu refiz o som. Pra época, o filme tecnicamente era muito bom. Mas pra hoje não. Não tinha o som estéro em 1975. Então, eu remixei o filme todo em dolby digital, seis canais, aquela música sensacional que aliás, ninguém sabe que “O Que Será que Será” foi feita de encomenda pro filme, tanto que ela tem três letras, uma pro início, outra quando ela está viúva, e outra pro final. Então, aquela música, em seis canais, dolby digital… Eu descobri que o filme é muito sensorial, pelas comidas, pelo erotismo. Então, eu acho que ele está muito melhor agora, com o som estereofônico e umas cores, uma fotografia muito mais bonita do que na época porque hoje se tem positivos para copiar o filme que são muito melhores. Ontem, o Murilo Salles, o fotógrafo, me ligou do laboratório dizendo que está melhor do que quando a gente fez da primeira vez.”
(Diário do Nordeste, 26.11.2001)


O QUE SERÁ

POR JAIRO SEVERIANO E ZUZA HOMEM DE MELO

Feita para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, a canção “O Que Será” tem três versões, que marcam passagens diferentes da trama: “Abertura”, “À Flor da Pele” e “À Flor da Terra”. Cantada no filme por Simone, a versão “À Flor da Terra” (três estrofes de doze versos) alcançaria grande sucesso na gravação de Chico Buarque e Milton Nascimento, que abre o elepê Meus caros amigos, um dueto, aliás, que aconteceu por mero acaso. Chico estava na gravadora ensaiando a canção com Francis Hime, quando Milton, de passagem pelo estúdio, ouviu e gostou. Daí surgiu o convite para a gravação, depois retribuído com a participação de Chico num disco de Milton, cantando com ele “À Flor da Pele”. Mas “O Que Será”, em qualquer das versões, é uma obra-prima, no nível das melhores criações de Chico Buarque, com sua melodia forte e sua letra libertária, um tanto ambígua em certos aspectos: “O que será que será / que todos os avisos não vão evitar / porque todos os risos vão desafiar / porque todos os sinos irão repicar / porque todos os hinos irão consagrar…” Em 15.9.92, ao tomar conhecimento do conteúdo de sua ficha no Dops-DPPS, em que há uma análise de “O Que Será”, Chico Buarque declarou ao Jornal do Brasil: “acho que eu mesmo não sei o que existe por trás dessa letra e, se soubesse, não teria cabimento explicar…”
(’85 anos de Música Brasileira’,  Vol. 2, Editora 34, 1997)


O QUE SERÁ

POR TOQUINHO

E com a Simone foi assim. Ela estava no comecinho da carreira, eu a vi cantar na TV e gostei daquela voz bonita e sua postura física. Eu nem a conhecia, ela fazia um show na Igrejinha, uma boate aqui em São Paulo. Fui lá num dia de ensaio e a convidei para fazer uma temporada comigo (Circuito Universitário). Ela topou e começamos a trabalhar num grande giro pela Argentina, Uruguai, Chile, e no México, no finzinho, Vinicius fez uma parte com a gente. Depois continuamos, eu e ela, percorrendo todo o interior de São Paulo e o sul do Brasil. Quase no fim da temporada, um dia o Chico me telefonou perguntando como é que era a Simone, se ela cantava bem, se ela era legal. Ele estava procurando uma cantora para cantar o tema de “Dona Flor…” e o Milton Nascimento lhe havia falado a respeito dela. Claro que eu só podia falar bem da Simone, de suas qualidades, pois já a conhecia o suficiente. E tirei a última dúvida que o Chico devia ter para aquela escolha. Ela gravou o tema de “Dona Flor …” e passou a despontar mais porque talvez tenha sido seu primeiro sucesso interessante, para um público maior. E o Milton passou a colocá-la nos shows dele para cantar duas ou três músicas. Então ela embalou e seguiu sozinha pois sempre foi uma grande cantora. O curioso é que um dia ela me contou que quando eu a convidei para a temporada, ela tinha um “grilo” de trabalhar comigo porque achava que eu ia querer namorar com ela. Aí, perguntou ao Hermínio Bello de Carvalho o que é que eu achava, e ele respondeu: “Vai lá minha filha, trabalha pra ver. Se ele te cantar, cantou”.
(‘Toquinho: 40 anos de música’ | João Carlos Pecci | RCS Editora | 2005)


O QUE SERÁ

POR SIMONE (1)

“Uma noite tocou o telefone. Atendi e disseram: ‘É o Bruno’. Eu disse: Como vai? – mas não sabia nem quem era. O convite, na realidade uma imposição, foi rápido. Ele disse: ‘Venha para o Rio amanhã. Temos gravação. A Odeon não avisou?’. Eu nem sabia do que se tratava e, além disso, eu fazia um atemporada em São Paulo.
Telefonei para a Odeon e desvendei o mistério. Bruno era Bruno Barreto, diretor do filme ‘Dona Flor e seus dois maridos’, e Chico Buarque, autor da música ‘O que será’, queriam a trilha sonora do filme gravada por mim. Quando vi o nome do Chico, logo vi que era coisa boa. Fui ao Rio. O Francis Hime me mostrou a letra e a música e eu desbundei. Fiquei emocionadíssima. Era uma das coisas mais lindas que já tinha visto.Voltei para São Paulo, estudei a música, fiz o show de domingo e embarquei na segunda cedo, quase sem dormir.
À tarde me deparei com o Chico Buarque no estúdio (…) Quando eu cantei alcóvas, ao invés de alcovas, ele disse: ‘Simone, não é alcóvas é alcovas’. Eu falei: ‘Mas Chico, é que eu sou baiana’. ‘Mas nem por isto, tá errado!’, disse ele.
Entramos no estúdio (…) eles me mostraram trechos do copião, para que eu tivesse idéia das cenas, das reações de Dona Flor (…) O clima foi de muita tranquilidade, mas o mais importante foi conhecer o Chico Buarque.”
(Imprensa – sem referências)


O QUE SERÁ

POR SIMONE (2)

“Fui para o estúdio encontrar o Francis que estava fazendo as bases. Aprendi a música no local, fiquei ouvindo, porque não era muito difícil, não havia muitas nuanças e comecei a passar. Lembro sempre essa história, quando comecei a cantar veio aquela campainha e uma luz vermelha com aquela voz “Simone não é alcóvas, é alcovas” era o Chico. Esse foi meu “olá como vai, tudo bem”. Uma lição em português logo de cara.
Eu estava aqui em São Paulo no cinema (Center 3) junto com os meus pais (para ver o filme). Eu briguei muito para o meu nome sair, para dizer quem estava cantando, porque ninguém sabia, já que era uma pessoa desconhecida. Como dizia um grande amigo meu, o Miltinho, eu era internacionalmente desconhecida. Lembro que briguei com a Luci Barreto, porque meu nome tinha que estar ali, alguém tem que saber quem está cantando, foi uma zona para colocar meu nome. Felizmente consegui que fosse colocado nos créditos.
Sabe aquele bolo todo quando saí do cinema, eu queria levantar e dizer assim: sou eu! Quem está cantando aí sou eu… Eu que estou cantando. É uma maravilha. A música emociona, é emoção. Toma uma forma de repente, ela fica concreta, apesar de não ser uma coisa que você pegue. É como o amor você sente, e não vê o amor, é que nem a música, felicidade… A música é essa coisa que mexe com você. É uma loucura. São essas coisas que mexem com a gente, a emoção em geral como jogo de futebol, balé, mas a música é arte que reúne todas as artes.”
(Site MÚSICA BRASILEIRA, Ma. Helena Paiva, 2002)
 


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SIMONE
POR BRAD MEHLDAU
Brad Mehldau – Divulgação

“Descobri Simone no ano passado e foi como conhecer Sarah Vaughan ou Dinah Washington. Ela tem uma identidade forte, canta com muita paixão e graça” … [MAIS]
(Folha de S.Paulo, 09.06.2006)

 
O FILME
DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS
 

Mauro Mendonça, Sônia Braga e José Wilker – Divulgação

 

 
FICHA TÉCNICA

Filme: Dona Flor e Seus Dois Maridos (D. Flor)
Baseado na obra homônima de Jorge Amado
Direção: Bruno Barreto
Produção: Luiz Carlos Barreto, Newton Rique e Cia Serrador
Trilha sonora: Chico Buarque e Francis Hime
Músicas cantadas por: Simone
Elenco: Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça
Ano: 1976
Locações: Salvador – Bahia
Duração: 118 minutos
Lançado também em DVD pela Paramount Pictures (2004)


TRILHA SONORA
DONA FLOR AND HER TWO HUSBANDS
Original Soundtrack Recording | Peters International 1977
Simone disco canta:
O Que Será – Abertura (Chico Buarque)
O Que Será – À Flor da Terra (Chico Buarque)
 

Gravações inéditas para a trilha sonora do filme. A música ‘O Que Será – À Flor da Pele’ (Chico Buarque), embora faça parte da trilha sonora do filme, não foi incluída neste álbum lançado pela Peters International.

DETALHES DE CAPA E ENCARTE:

 
OUÇA A TRILHA SONORA COMPLETA
 


VÍDEOS

TRECHOS DO FILME
Com trilha sonora cantada por Simone


 
FILME COMPLETO