OUTRAS CANÇÕES


HISTÓRIAS DE OUTRAS CANÇÕES GRAVADAS POR SIMONE

 
 

AI QUE SAUDADES DA AMÉLIA (Ataulfo Alves/ Mário Lago)
 
‘Ai que Saudades da Amélia’ tem três personagens: o protagonista, sua mulher e Amélia, a mulher que ele perdeu. O tema é um confronto dos defeitos da mulher atual com as qualidades da mulher anterior. A atual, a quem o protagonista se dirige, é exigente, egoísta, ‘Só pensa em luxo e riqueza’, enquanto a anterior é um exemplo de virtude e resignação – ‘Amélia não tinha a menor vaidade, (…) achava bonito não ter o que comer…’. Em suma, a primeira é o presente, a realidade incontestável: a segunda é o passado, uma saudade idealizada na figura da mulher perfeita, pelos padrões da época. Este primoroso poema popular, coloquial espontâneo, escrito por Mário Lago, recebeu de Ataulfo Alves uma de suas melhores melodias, que expressa musicalmente o espírito da letra. E o paradoxal é que não sendo carnavalesco, este samba fez estrondoso sucesso no carnaval. Segundo Mário Lago, ‘Amélia nasceu de uma brincadeira de Almeidinha, irmão de Araci de Almeida, que sempre que se falava em mulher costumava brincar – ‘Qual nada, Amélia é que era mulher de verdade. Lavava, passava, cozinhava…’. Então, Mário achou que aquilo dava samba e fez a letra inicial de ‘Ai que Saudades da Amélia’. Brincadeiras à parte, a verdade é que a Amélia do Almeidinha existiu e, possivelmente, ainda vivia à época da canção. Era uma antiga lavadeira que serviu a sua família. Morava no subúrbio do Encantado (Zona Norte do Rio) e trabalhava para sustentar uma prole de nove ou dez crianças. Com a letra pronta, Mário, pediu a Ataulfo Alves para musicá-la. O compositor executou a tarefa, mas alterou algumas palavras e aumentou o número de versos de doze para quatorze. ‘ Isso é natural’- comentava Ataulfo, em depoimento para o MIS do Rio de Janeiro, em 17.11.65, ‘as composições dos parceiros que são letristas sofrem influência minha, que sou autor de letra e música. Mas o Mário não gostou. E não adiantou dizer que a música me obrigara a fazer as modificações’. De qualquer maneira, como o samba estava bom, ficaram valendo as alterações. Começou então a batalha da gravação. Ataulfo ofereceu ‘Amélia’ em vão a vários cantores, inclusive a Orlando Silva. Como ninguém queria gravá-la, gravou-a ele mesmo na Odeon, no dia 27.11.41, acompanhado por um improvisado conjunto batizado de Academia de Samba. Convidado na hora, Jacó do Bandolim participou dessa gravação tocando cavaquinho, sendo sua a introdução. Lançado no suplemento de janeiro de 1942, ‘Ai que Saudades da Amélia’ foi conquistando aos poucos a preferência do público, graças, principalmente, a uma intensa atuação de Ataulfo junto às rádios. Relembra Mário Lago que o locutor Júlio Louzada chegou a dedicar, na Rádio Educadora, uma tarde inteira de domingo a ‘Amélia’, com entrevistas e disco tocando dezenas de vezes. O resultado é que às vésperas do carnaval, quando houve o concurso para escolher o melhor samba, ‘Ai que Saudades da Amélia’ dividia o favoritismo com ‘Praça Onze’ , de Herivelto Martins e Grande Otelo. Realizado no estádio do Fluminense, este concurso reuniu uma enorme platéia que, de acordo com o regulamento, elegeria por aplauso os vencedores. Precedendo ‘Amélia’, apresentou-se ‘Praça Onze’, valorizada por um verdadeiro show, preparado por Herivelto. Primeiro foram mostrados os instrumentos, explicando as funções de cada um; em seguida, vieram as passistas, um grupo sensacional de multadas rebolando; e, finalmente, cantou-se o samba, que levou a plateia ao delírio, dando a impressão de que o certame já estava decidido. Acontece, porém, que ‘Amélia’ também tinha seus trunfos. Tim e Carreiro, amigos de Mário e craques do time do Fluminense, que acabara de ganhar o bi-campeonato carioca de futebol, haviam feito um excelente trabalho junto à torcida tricolor. Para completar, no momento da apresentação, Mário Lago, subiu ao palco e, num rasgo de eloquência e demagogia, fez um discurso emocionante, proclamando ‘Amélia’ símbolo da mulher brasileira. Assim, quando Ataulfo e suas pastoras começaram a cantar o estádio veio abaixo, praticamente exigindo a vitória dos dois sambas. Sem a possibilidade de empatar, o presidente do Fluminense, Marcos Carneiro de Mendonça – por coincidência, casado com uma ‘Amélia’, a poeta Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça – autorizou o pagamento em dobro do prêmio de campeão a ‘Ai que Saudades da Amélia’ e ‘Praça Onze’, cada um recebendo como se tivesse ganho sozinho.
 
Simone gravou ‘Ai que Saudades da Amélia’ no seu álbum ‘Brasil – O Show’, Polygram, 1997.
(Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997)
 
AQUARELA DO BRASIL (Ari Barroso)
 
Ari Barroso compôs ‘Aquarela do Brasil’ no início de 1939, numa noite de chuva torrencial, que o obrigou a ficar em casa, contrariando seus hábitos. Antes que a chuva terminasse, ainda teve inspiração para compor uma outra obra prima, a valsa ‘Três Lágrimas’. Quase vinte anos depois, ele mesmo descreveria – de forma bombástica – a criação de ‘Aquarela do Brasil’, em entrevista à jornalista Marisa Lira, do Diário de Notícias: ‘Senti iluminar-me uma idéia: a de libertar o samba das tragédias da vida, (…) do cenário sensual já tão explorado. Fui sentindo toda a grandeza, o valor e a opulência de nossa terra (…) Revivi, com orgulho, a tradição dos painéis nacionais e lancei os primeiros acordes, vibrantes, aliás. Foi um clangor de emoções. O ritmo original (…) cantava na minha imaginação, destacando-se do ruído da chuva, em batidas sincopadas de tamborins fantásticos. O resto veio naturalmente, música e letra de uma só vez. Grafei logo (…) o samba que produzi, batizando-o de ‘Aquarela do Brasil’. Senti-me outro. De dentro de minh´alma extravasara um samba que eu há muito desejara. (…) Este samba divinizava, numa apoteose sonora, esse Brasil glorioso’. Exageros à parte, ‘Aquarela do Brasil’ é mais ou menos isso que Ari Barroso pretendeu fazer: uma declaração de amor ao Brasil, através de uma bela composição. É também a obra mais representativa da grande fase de sua carreira (1938-1943), em que ele completa um processo de refinamento de seu repertório, incorporando-lhe requintes até então inusitados em nossa música popular. E como foi preferencialmente um compositor de samba, é neste gênero que melhor empregará esses requintes, de forma especial nos chamados sambas – exaltação, um novo tipo de música do qual é inventor e ‘Aquarela do Brasil’, o paradigma. Já mostrando o que o gênero ofereceria em qualidades e defeitos, esta composição sintetiza suas características fundamentais: os versos enaltecedores de nosso povo, nossas paisagens, tradições e riquezas naturais, a melodia forte, sincopada, de sonoridades brilhantes, tudo isso mostrado num crescendo, do prólogo ao final apoteótico, que procura transmitir uma visão romântica e ufanista da realidade brasileira. É possível que não fosse essa a intenção do compositor, mas a verdade é que, com tais características, o samba-exaltação vinha exatamente ao encontro dos interesses da ditadura getulista, que logo passou a incentivar a proliferação do gênero. O resultado foi o surgimento de composições como ‘Onde o céu azul é mais azul’, ‘Canta Brasil’, ‘Brasil moreno’ e outras mais, que se tornaram clássicos de nossa música popular. ‘Aquarela do Brasil’ foi lançada por Araci Cortes em 10.06.39, na revista Entra na Faixa, de Ari e Luis Iglesias. Inadequada à voz da cantora, não fez sucesso. Um mês e meios depois, voltou a ser apresentada, desta vez de forma destacada, pelo barítono Cândido Botelho no espetáculo ‘Joujoux e Balagandãs’. Sua primeira gravação aconteceria em seguida (18.08) por Francisco Alves, acompanhado por orquestra que executava um arranjo de Radamés Gnatalli, grandiloquente como exigia a composição. Com esta gravação iniciava-se sua monumental discografia que incluiria figuras como Silvio Caldas, Antonio Carlos Jobim, Radamés Gnatalli, Elis Regina, Gal Costa, João Gilberto, Caetano Veloso, o próprio Ari Barroso, as orquestras de Xavier Cugat, Morton Gould, Ray Conniff, Tommy e Jimmy Dorsey e os superastros Bing Crosby e Frank Sinatra. A carreira internacional de ‘Aquarela do Brasil’ começou por Hollywood em 1943, quando Walt Disney a incluiu no filme ‘Alô Amigos’ (‘Saludo Amigos’), com o título de ‘Brazil’ e versos em inglês de A.K.Russell. No mesmo ano, gravada por Xavier Cugat, fêz grande sucesso nos Estados Unidos, onde chegou a ultrapassar a marca de um milhão de execuções. A partir de então, popular no Brasil e no exterior, se consagraria como uma espécie de segundo hino da nossa nacionalidade. Longe de prever todas essas glórias, Ari Barroso inscreveu ‘Aquarela do Brasil’ no concurso de sambas para o carnaval de 1940, vencido por ‘Ó Seu Oscar’ (1º), ‘Despedida de Mangueira’ (2º) e ‘Cai, Cai’ (3º). Considerando-se injustiçado Ari rompeu com Villa-Lobos, presidente da comissão julgadora, com quem só se reconciliaria em 1955. Nesse mesmo evento, disputando na categoria de marchas, recebeu a menção honrosa uma marcha-rancho de Donga e David Nasser, intitulada ‘Meu jardim’. Anos depois, surpreendentemente, Nasser inventou uma história inverossímil sobre uma marcha-rancho (não cita o nome), sua e de Donga, que teria vencido ‘Aquarela do Brasil’ num concurso julgado por Villa Lobos, provocando o fato um rompimento entre Villa e Ari. Esta fantasia está publicada no livro póstumo de Nasser ‘Parceiro da Glória’.
 
Simone gravou ‘Aquarela do Brasil’ nos seus álbuns ‘Ao vivo no Canecão’, EMI-Odeon, 1980 e ‘Brasil – O Show’, Polygram, 1997
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
 
Em seu elepê de 1969, Roberto Carlos lançou várias músicas do filme ‘ Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa’, o segundo que realizou com a direção de Roberto Farias. Um dos sucessos do disco foi a canção ‘ As Curvas da Estrada de Santos’, sobre as proezas de um automobilista que procura esquecer seus desenganos desafiando, com o pé no acelerador, as curvas da estrada de Santos. É, mais ou menos, uma reedição do rebelde ‘ Quero que Vá Tudo pro Inferno’, com um carro mais veloz. Mas o disco oferece também emoções menos arriscadas com canções como ‘ Oh, Meu Imenso Amor’ e ‘ As Flores do Jardim de Nossa Casa’, todas elas candidatas certas aos primeiros lugares das paradas radiofônicas.
 
Simone gravou ‘As curvas da estrada de Santos’ no seu álbum ‘Cigarra’, EMI-Odeon, 1978
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
BANDEIRA BRANCA (Max Nunes/ Laércio Alves)
 
A era da canção carnavalesca começa em 1917, com o samba ‘Pelo Telefone’, e termina em 1970 com a marcha rancho ‘Bandeira branca’. Depois desse ano, somente o samba enredo faria sucesso, limitando-se o repertório tradicional a algumas marchinhas que são revividas pelas orquestras em meio aos bailes de carnaval. Assim, ‘Bandeira branca’, uma composição romântica, de melodia e versos tristes, tornou-se paradoxalmente o último clássico do repertório carnavalesco: ‘Bandeira branca, amor/ mão posso mais/ pela saudade que me invade/ eu peço paz…’ Foi também o último sucesso de Dalva de Oliveira.
 
Simone gravou ‘Bandeira branca’ no seu álbum ‘Simone’, Odeon, 1973
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
BOAS FESTAS (Assis Valente)
 
‘Boas Festas’ foi composta no Natal de 1932 por um Assis Valente solitário e saudoso da família, no quarto onde então morava na Praia de Icaraí (Niterói). Lançada por Carlos Galhardo com grande sucesso um ano depois, logo se tornaria nossa canção natalina mais conhecida, uma das poucas no gênero que conseguiram sobreviver. Seu sucesso foi muito importante para Valente e Galhardo (que a regravou várias vezes), ambos em início de carreira à época do lançamento.
 
Simone gravou ‘Boas Festas’ com a participação do Timbalada no álbum ‘25 de Dezembro’, Polygram, 1995 e ‘25 de Diciembre’, Polygram, 1996
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
BRIGAS (Evaldo Gouveia/ Jair Amorim)
 
Ao final de um programa da TV Globo, numa época em que sua carreira, já entrara em declínio, Altemar Dutra declarou: ‘A música com a qual eu gostaria de ser lembrado nos próximos trinta, sessenta, cem anos é ‘Brigas’ ’. Então, cantou para os telespectadores este bolero, que abria seu elepê ‘Sinto que te amo’, em 1966: ‘Veja só/ que tolice nós dois/ brigarmos tanto assim/ se depois/ vamos nós a sorrir/ trocar de bem no fim…’ Com um público cativo, fiel comprador de seus discos, Altemar sustentou por vários anos a posição de trovador romântico da Odeon, sempre interpretando um repertório que incluía em cada elepê um mínimo de duas ou três canções da dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Todas elas dolentes, chorosas e sentimentais como ‘Brigas’.
 
Simone gravou ‘Brigas’ com a participação de Julio Iglesias no seu álbum ‘Raio de Luz’, Sony, 1991
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
CANTA BRASIL (Alcir Pires Vermelho/ David Nasser)
 
Dois anos após o lançamento de ‘Aquarela do Brasil’, surgia um novo samba-exaltação, intitulado ‘Canta Brasil’, que faria grande sucesso, consolidando o prestígio do gênero. Para isso, adotava como modelo o samba de Ari Barroso e até o citava nos versos: ‘Na Aquarela do Brasil/ eu cantei de Norte a Sul’. ‘Canta Brasil’ tem música de Alcir Pires Vermelho e letra de David Nasser. Mineiro, pianista e compositor, como Ari, Alcir seguiu-lhe os passos para se tornar, também, um pródigo criador de sambas-exaltação. São de sua autoria, por exemplo, ‘Onde o céu é mais azul’ ( com João de Barro e Alberto Ribeiro), ‘Brasil, usina do mundo’ (com João de Barro), ‘Vale do Rio Doce’ e ‘Onde florescem os cafezais’ (com David Nasser). Isso, sem deixar de atuar com sucesso em outros gêneros. Sobre ‘Canta Brasil’, Alcir costumava dizer que fez sua melodia numa viagem de bonde, do Centro à Tijuca, depois de receber a letra de Nasser num encontro casual na Avenida Rio Branco. Cantor ideal para esses ‘sambas de bravura’, Francisco Alves gravou ‘Canta Brasil’ na Odeon, acompanhado pela orquestra da Radio Nacional.
 
Simone gravou ‘Canta Brasil’ no álbum ‘Brasil – O Show’, Polygram, 1997
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
CARINHOSO (Pixinguinha/ João de Barro - Braguinha)
 
O ‘Carinhoso’ tem uma história que começa de forma inusitada, com o autor mantendo-o inédito por mais de dez anos. Esse ineditismo é justificado por Pixinguinha, no depoimento que concedeu ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro em 1968: ‘Eu fiz o ‘Carinhoso’ em 1917. Naquele tempo o pessoal nosso da música não admitia choro assim de duas partes (choro tinha que ter três partes). Então, eu fiz o ‘Carinhoso’ e encostei. Tocar o ‘Carinhoso’ naquele meio! Eu não tocava… ninguém ia aceitar’. Portanto, o ‘Carinhoso’ foi ‘encostado’ porque só tinha (e tem) duas partes. O jovem Pixinguinha, então com 20 anos, não se atrevia a contrariar o esquema adotado nos choros da época, a forma rondó (A-B-A-C-A), herdada da polca. Ele mesmo esclarece, no depoimento que ‘o ‘Carinhoso’ era uma polca, polca lenta. O andamento era o mesmo de hoje e eu classifiquei de polca leta ou polca vagarosa. Mais tarde mudei para chorinho’. Assim, composto na mesma época de ‘Sofres porque queres’ (um choro em três partes) e a valsa ‘Rosa’- gravados na Casa Edison em 1017 -, ‘Carinhoso’ só chegaria ao disco em dezembro de 1928, interpretado pela orquestra Típica Pixinguinha – Donga, na Parlophon. Sobre essa gravação, um crítico pouco versado em jazz publicou o seguinte comentário na revista Phonoarte (nº 11, de 15.01.29): ‘Parece que o nosso popular compositor anda sendo influenciado pelos ritmos e melodias do jazz. É o que temos notado, desde algum tempo e mais uma vez neste seu choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot e que, no seu decorrer, apresenta combinações de música popular yankee. Não nos agradou’. Ainda sem letra, ‘Carinhoso’ teria mais duas gravações, a primeira (em 1929) pela Orquestra Victor-Brasileira, dirigida por Pixinguinha, e a segunda (em 1934) pelo bandolinista Luperce Miranda, figurando em ambos os discos, por erro de grafia, com o titulo de ‘Carinhos’. Apesar das três gravações e das execuções em programas de rádio e rodas de choro, ‘Carinhoso’ continuava em meados dos anos trinta ignorado pelo grande púbico. Em outubro de 1936, porém, um acontecimento iria contribuir de forma acidental para uma completa mudança no curso de sua história. Encenava-se naquele mês no teatro Municipal do Rio de Janeiro o espetáculo ‘Parada das Maravilhas’, promovido pela primeira dama, D. Darcy Vargas, em benefício da obra assistencial Pequena Cruzada. Convidada a participar do evento, a atriz e cantora Heloísa Helena pediu a Braguinha uma canção nova que marcasse a sua presença no palco. Não possuindo nenhuma na ocasião, o compositor aceitou então a sugestão da amiga para que pusesse versos no choro ‘Carinhoso’. ‘Procurei imediatamente o Pixinguinha’, relembra Braguinha,’ que me mostrou a melodia num dancing (o Eldorado) onde estava atuando. No dia seguinte entreguei a letra a Heloísa que, muito satisfeita, me presentou com uma bela gravata italiana. ‘Surgia assim, escrita às pressas e sem maior pretensões a letra de ‘Carinhoso’, uma letra simples (não chega a alcançar o melhor nível de João de Barro/ Braguinha), mas que constituiu um fator primordial para a popularização da composição. Pode-se mesmo dizer que o ‘Carinhoso’ só se tornaria um dos maiores clássicos da MPB a partir do momento em que pode ser cantado. Como prova a afirmação o número de gravações – mais de 200 – que recebeu desde o dia (28.05.37) em que Orlando Silva o registrou em disco. É ainda Pixinguinha, em depoimento ao MIS, quem conta a história dessa gravação: ‘A maioria não estava interessada em gravar ‘Carinhoso’. Todos queriam gravar a valsa ‘Rosa’. Primeiro foi chamado Francisco Alves, que não se interessou. O Galhardo também falhou (deixando de comparecer na data marcada). Então Mr. Evans (diretor da Vitor) disse: ‘ Ah, não! Não grava mais. Não veio no dia, não grava mais’. Aí chamou o Orlando, que gravou o ‘Carinhoso’ e a valsa ‘Rosa’. Parece entretanto que, antes de gravá-los, o cantor não fazia fé nos versos de Braguinha. Pelo menos, isso foi o que deu a entender seu irmão Edmundo, encomendando ao compositor Pedro Caetano outra letra para o choro. Comentando essa letra inédita (‘Na mansidão do teu olhar/ meu coração viu passear/ uma feliz e meiga bonança’, etc..) em seu livro de memórias, publicado em 1984, Pedro a considerou ‘piegas, sem graça e com várias palavras caída em desuso’. Editados no mesmo disco (Victor n° 34181), ‘Carinhoso’ e ‘Rosa’ tiveram sucesso imediato, que somado ao de ‘Lábios que beijei’ iria acelerar mais ainda o ritmo da carreira do futuro ‘Cantor das Multidões’, já na época em franca ascensão. ‘Carinhoso’, inclusive seria adotado por Orlando como prefixo musical de suas audições. Ostentando o mérito de ser uma das composições mais gravadas de nossa música popular, ‘Carinhoso’ detém ainda o recorde de gravações nos repertórios de Pixinguinha e João de Barro (Braguinha) . Além, naturalmente, dos autores e de Orlando Silva, incluem-se em sua relação de intérpretes em discos figuras como Silvio Caldas, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Dalva de Oliveira, Maria Bethânia, Radamés Gnatalli, Antonio Carlos Jobim, Arthur Moreira Lima, Garoto, Baden Powell, Jacó do Bandolim, Hermeto Pascoal e muitos outros. ‘Carinhoso’ foi também vencedor de enquete promovida pela Cigarra-Magazine, em 1949, intitulada ‘Os Dez Maiores Sambas Brasileiros’. Quatro décadas depois, seria a música mais indicada pelos participantes da série de programas ‘As Dez Mais de Sua Vida’, produzida e apresentada por Luis Carlos Saroldi nas rádios MEC e JB. Orlando Silva declarou em várias entrevistas ser ele o responsável pela iniciativa de pedir a Braguinha uma letra para o ‘Carinhoso’. A versão de Orlando, porém, foi desmentida por Pixinguinha e Braguinha, encerrando o assunto.
 
Simone gravou ‘Carinhoso’ no seu álbum ‘Sou Eu’, Sony, 1993
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
CHUVA, SUOR E CERVEJA (Caetano Veloso)
 
Este frevo é a segunda incursão bem sucedida de Caetano Velosos na área da música carnavalesca, praticamente abandonada pelos grandes compositores a exceção dos baianos (como Moraes Moreira e Luis Caldas) e pernambucanos (Alceu Valença, Carlos Fernando). Na esteira de ‘Atrás do Trio Elétrico’, Caetano voltou a utilizar aqui dois expedientes em que é mestre: as atropeladas de letra, ou seja, a aceleração no ritmo de emissão de determinadas palavras para que possam caber na frase musical (como no verso ‘eu acabo de perder a cabeça’) e a capacidade de usar a prosódia para provocar síncopes, que podem confundir ouvintes e até cantores menos atentos: ‘Acho que a chuva ajuda a gente a se ver/ venha, veja, deixa, beija/ seja o que Deus quiser…’. Em ambas as situações o efeito rítmico é instigante e, como foi dito, constitui uma atração a mais na obra de Caetano. ‘Chuva, suor e cerveja’ foi lançada em dezembro de 1971 num compacto duplo intitulado ‘ carnaval de Caetano’. Este disco, de acompanhamento modesto mas competente, inclui ainda ‘Barão beleza’ (de Tuzé de Abreu), ‘Pula-pula’ (de Macalé e Capinan), ‘Qual é baiana?’ e ‘ La barca’, sendo as duas últimas de Caetano em parceria com Moacir Albuquerque.
 
Simone gravou ‘Chuva, suor e cerveja’ nos seus álbuns ‘Quatro paredes’, Odeon, 1973 e ‘Em boa companhia’, Biscoito Fino, 2010
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
CONTO DE AREIA (Romildo S. Bastos/ Antonio Carlos N. Pinto)
 
Clara Nunes gravou muita coisa sem importância até encontrar nos gêneros afro-brasileiros o rumo certo para a sua carreira. Então, cantando principalmente músicas de compositores ligados às raízes do samba, ela se tornaria a primeira cantora brasileira a ultrapassar cem mil discos vendidos quebrando um tabu reverenciado pelas gravadoras. Tal façanha aconteceu com o elepê ‘Alvorecer’, lançado em junho de 1974, que, tendo ‘Conto de Areia’ como faixa de maior sucesso vendeu 312 mil cópias. Um belo ponto de macumba estilizado (‘É água do mar/ é maré cheia, oi…/ na areia, oi/ na areia…’, ‘Conto de areia’ inspirou-lhe novas incursões nessa área, que resultaram em sucessos como ‘O mar serenou’ e ‘A Deusa dos Orixás’. Mas, além dos sambas de raiz, Clara cultivava também em seu repertório canções de autores consagrados como Dorival Caymmi, Tom Jobim e Chico Buarque.
 
Simone gravou ‘Conto de areia’ com a participação virtual de Clara Nunes e acompanhada por Rafael Rabelo no álbum ‘Raio de luz’, Sony, 1991
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
DE FRENTE PRO CRIME (João Bosco/ Aldir Blanc)
 
Um compositor mineiro de Ponte Nova, que não segue o estilo de Milton Nascimento, e um poeta carioca de Vila Isabel, que não imita Noel Rosa, assim são João Bosco e Aldir Blanc que formaram uma das duplas mais importantes de autores de nossa música popular nos anos setenta. Lançados em 1972, como foi dito, com a música ‘Agnus Sei’, seguida de ‘Bala com bala’, Bosco e Blanc viveriam uma fase excepcional em 75, quando quatro de suas canções – ‘O Mestre-Sala dos Mares’, ‘Dois prá lá, dois prá cá’, ‘Kid Cavaquinho’ e ‘De frente pro crime’ -, vindas do ano anterior, alcançaram a consagração popular. ‘De frente pro crime’ trata de um assassinato e da indiferença que a tragédia provoca nas pessoas que a presenciam : ‘Tá lá o corpo estendido no chão/ em vez de rosto uma foto de gol/ em vez de reza uma praga de alguém/ e um silêncio servindo de amém/ (…) veio camelô vender anel, cordão, perfume barato/ e baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato…’. No final, o narrador, também indiferente, fecha a ‘janela de frente pro crime’ e vai tratar de sua vida. Um flagrante do cotidiano da cidade grande, cantado em ritmo de samba bem sincopado, ‘De frente pro crime’ dá prosseguimento em termos modernos de uma vertente que teve em Wilson Batista, na primeira metade do século, um de seus principais cultores.
 
Simone gravou ‘De frente pro crime’ no seu álbum ‘Quatro paredes’, Odeon, 1974
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
DEIXA EU TE AMAR (Agepê/ Vamilo/ Mauro Silva)
 
Chamado de ‘sambão jóia’ pelo ensaísta paulista Gilberto Vasconcelos, desenvolveu-se a partir dos anos setenta uma contrafação do samba, artificial e popularesca, logo integrada ao universo da música brega. Entre os mais bem sucedidos praticantes do rendoso gênero, destaca-se a figura do cantor/ compositor Agepê (Antonio Gilson Porfírio), um técnico-projetista da Telerj, que deixou a telefonia pela vida artística. Em 1984, com dez anos de carreira, Agepê ampliou a sua coleção de sucessos com a composição ‘Deixa eu te amar’ (‘Deixa eu te amor/ faz de conta que sou o primeiro…’), um atrevido samba erótico-romântico, recheado de metáforas como, ‘vou me embrenhar em densa mata, só porque/ existe uma cascata que tem água cristalina/ aí vou te amar com sede/ na relva, na rede, onde você quiser…’ Tudo isso cantado por Agepê, em seu estilo empolgado, fez da gravação de ‘Deixa eu te amar’ recordista, com uma vendagem superior a um milhão de cópias. Capa da edição da revista Veja, de 20.01.1986, que trazia a reportagem ‘O Samba Romântico Explode com Agepê’, o cantor morreria em 30.08.1995, aos 52 anos de idade.
 
Simone gravou ‘Deixa eu te amar’ nos seus álbuns ‘Na veia’, Biscoito Fino, 2009 e ‘Em boa companhia’ (CD e DVD), Biscoito Fino, 2010
 
DIA BRANCO (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha)
 
Pertencente a um grupo que incluía Naná Vasconcelos, Teca Calazans e Alceu Valença( com quem chegou a gravar em dupla em 1972), o compositor/ músico/ cantor Geraldo Azevedo tomou o caminho do Sul em 1968, convidado por Eliana Pittman, que o descobrira na noite de Recife. Daí, então, até gravar o seu primeiro disco solo, passaram-se nove anos em que viveu do trabalho de músico e dos direitos autorais de algumas canções. Mas Geraldinho, eu é tão bom músico quanto compositor, ao mesmo tempo nordestino e universal, lançou no elepê Inclinações Musicais, em 81, a canção ‘Dia branco’, de grande importância para a sua obra. Esta composição revela em sua linha melódica, sequencia harmônica e até no arranjo e inflexões da gravação original uma influência dos Beatles particularmente da fase do álbum branco’, que parece ter inspirado o seu título. Esta influência é mesclada com uma melancolia bem nordestina, que pode ser percebida em versos como: ‘Se você vier/ pro que der e vier comigo/ eu lhe prometo o Sol/ se hoje o Sol sair/ ou a chuva…’. Cantada pelo autor despojadamente com o acompanhamento básico de dois violões, ‘Dia branco’ tornou-se peça frequente em reuniões musicais informais. Outros sucessos de Geraldo Azevedo são ‘Táxi lunar’ (com Zé Ramalho e Alceu Valença), ‘Moça bonita’ (com Capinan), ‘Canção da despedida’ (com Geraldo Vandré) e ‘ Bicho de sete cabeças’.
 
Simone gravou ‘Dia branco’ no seu álbum ‘Simone ao vivo’ (CD/ DVD), EMI, 2005
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
ESTÃO VOLTANDO AS FLORES (Paulo Soledad)
 
Apesar de ser uma marcha-rancho, ‘Estão voltando as flores’ não foi feita para carnaval. Surgiu num momento de euforia de Paulo Soledade, em dezembro de 1960, quando, após ter estado convalescente de uma cirurgia de alto risco, sentiu-se completamente recuperado. Vinte e dois anos depois, em depoimento concedido ao Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, Paulo afirmou: ‘Foi uma composição que fiz em quinze minutos, sem violão, sem nada, e que representa para todos que a ouvem um hino de recuperação’. Daí os versos e a melodia vibrantes, otimistas, que na realidade eram dirigidos à sua mulher: ‘Vê, estão voltando as flores/vê, nesta manhã tão linda/vê, como é bonita a vida/vê, há esperança ainda’. Mas, como já acontecera a outras canções de sucesso, foi difícil encontrar quem quisesse gravá-la. ‘Não é comercial’, disseram diretores de gravadoras e cantores a quem a música foi mostrada. O curioso é que todos eram amigos do compositor. Por fim, já desanimado e disposto a bancar o disco, Paulo procurou mais um amigo, o Valtinho da Tonelux, na época dirigindo a gravadora Mocambo, que aceitou o projeto, desde que o autor providenciasse uma cantora sem contrato com outra empresa. Então, indicada por Marino Pinto, Helena de Lima teve a primazia de lançar ‘ Estão Voltando as Flores’, a melhor canção de Paulo Soledad, segundo ele mesmo.
 
Simone gravou ‘Estão voltando as flores’ no seu álbum ‘Ao vivo no Canecão’, EMI-Odeon, 1980
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
EU SEI QUE VOU TE AMAR (Antonio Carlos Jobim/ Vinicius de Moraes)
 
Lançada no elepê ‘Por toda a minha vida’, da já citada marca Festa, este samba – canção (mais canção do que samba), altamente romântico, era interpretado pela cantora de formação lírica Lenita Bruno, mulher do mastro-arranjador Léo Peracchi. Porém, a melhor das 24 versões de ‘Eu sei que vou te amar’, lançadas só no ano de 1959, seria a de Elza Laranjeira, uma paulista pouco conhecida no resto do país. Companheira de Agostinho dos Santos, Elzinha era dona de uma voz doce, de afinação irretocável. Morta em 1986, foi por muito tempo, com Isaura Garcia, a mais destacada cantora do elenco fixo da rádio e TV Record que, ao lado de Neide Fraga, Dircinha Costa e Alda Perdigão, era escalada nos musicais de rotina das duas emissoras. Mas, voltando à canção, a espantosa quantidade de gravações realizadas no ano de seu lançamento dá uma idéia da reação positiva do meio artístico ao repertório de alto nível composto pela dupla Tom e Vinicius, nos meses seguintes à sua formação. ‘Eu sei que vou te amar’ é uma composição standard (lembra ligeiramente a canção ‘Dancing in the dark’, de Schwartz e Dietz) em duas partes, nas quais os oito primeiros compassos têm melodia idêntica, encaminhada, porém, por meio de uma sutil alteração harmônica, a diferentes arremates. Entretanto, o ponto alto da canção é a letra : ‘Eu sei que vou te amar/ por toda a minha vida eu vou te amar/ em cada despedida eu vou te amar/ desesperadamente, eu sei que vou te amar’. Seu romantismo exacerbado remete a alguns sonetos de Vinicius, que embalaram declarações de amor de toda uma geração. Não foi, assim, por acaso que, na versão de grande êxito criada em 1972 por Maria Creusa, Toquinho e Vinicius, o poeta incorporou em contraponto à voz da cantor uma elevada declamação do ‘Soneto da fidelidade’. Por tudo isso, pode-se concluir que ‘Eu sei que vou te amar’ é mais uma canção de Vinicius do que de Tom Jobim, sem demérito para o maestro.
 
Simone gravou ‘Eu sei que vou te amar’ com a participação de Tom Jobim no seu álbum ‘Vício’, CBS, 1987
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
FICA COMIGO ESTA NOITE (Adelino Moreira/ Nelson Gonçalves)
 
Além de intérprete principal de Adelino Moreira, Nelson Gonçalves é seu parceiro em mais de vinte composições, entre as quais se destacam especialmente ‘Êxtase’ e ‘Fica comigo esta noite’: ‘Fica comigo esta noite/ que não te arrependerás/ lá fora o frio é um açoite/calor aqui tu terás…’. Bem adequada ao estilo do cantor, com as frases iniciais explorando os graves de seu vozeirão, este samba-canção bisou em 61 o mega sucesso de ‘Negue’, do inesgotável Adelino, no ano anterior. Tema musical e título de um filme erótico, estrelado por Helena Ramos e Rosana Ghessa, ‘Fica comigo esta noite’ é geralmente cantado como bolero, adaptando-se melhor a esse ritmo.
 
Simone gravou ‘Fica comigo esta noite’ no seu álbum homônimo, Universal, 2000
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
FULLGÁS (Marina Lima/ Antonio Cícero)
 
Lançada em 1979, numa leva de boas promessas de cantoras, Marina Correia Lima alcançou o seu mais expressivo êxito com a canção ‘Fullgás’, em seu quinto ano de carreira. Nesse período, ela lançaria vários elepês, em todos predominando suas composições em parceria com o irmão, Antonio Cícero. Estabelecendo-se numa área entre o rock e a canção romântica, Marina explora um tipo de música que vem a calhar com a sua voz pequena e sensual. ‘Fullgás’ foi gravada em seu quinto álbum, que alcançaria a marca de 80 mil cópias vendidas, Composta num teclado doméstico Casiotone – cuja programação reproduz ritmos padronizados de bateria eletrônica-, a composição lança um neologismo cunhado para significar ‘a todo vapor’, ao mesmo tempo em que apresenta o mesmo sentido da palavra ‘fugaz’: ‘Meu mundo você é quem faz/ música, letra e dança/ tudo em você é fullgás/ tudo você é quem lança/ lança mais e mais…’ ‘Fullgás’ é uma baladinha em levada dançante, bem representativa do repertório de Marina. Em razão de seu sucesso, deu nome depois, ao selo fonográfico da cantora.
 
Simone gravou ‘Fullgás’ no seu álbum ‘Em boa companhia’ (CD /DVD), Biscoito Fino, 2010
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
GAROTA DE IPANEMA (Vinícius de Moraes/ Tom Jobim)
 
Em depoimento para a revista Manchete, em 1965, Vinicius de Moraes conta como conheceu a garota de Ipanema: ‘Seu nome é Heloísa Eneida Menezes Pais Pinto, mas todos a chamam de Helô (Helô Pinheiro, depois de casada). Há três anos, ela passava no cruzamento de Montenegro e Prudente de Morais, e nós a achávamos demais. De nosso posto de observação, no Veloso, enxugando a nossa cervejinha, Tom e eu emudecíamos à sua vinda maravilhosa. (…) E lá ia ela toda linda, a garota de Ipanema, desenvolvendo no percurso a geometria espacial de seu balanceio quase samba. (…) Para ela fizemos, como todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do mundo inteiro e fez da nossa querida Ipanema uma palavra mágica para os ouvintes estrangeiros’. Naquele 1962 em que a canção foi feita, a bela Heloísa tinha quinze anos e passava realmente todos os dias pelo bar Veloso, situado na mesma rua Montenegro onde ela morava. Naturalmente, sabia-se admirada pelos frequentadores do bar, pois nas vezes em que lá entrava era saudade pelos assovios de praxe. O que não sabia era que tinha sido a inspiradora de ‘Garota de Ipanema’, segredo só revelado pelos autores em 1965. Mas, se a visão da musa aconteceu no Veloso, a criação do samba teve lugar noutros ambientes e em etapas distintas. Inicialmente, em Petrópolis, Vinicius aprontou-lhe a letra, até com certa dificuldade, tendo composto duas versões, para aproveitar a segunda (a primeira chamava-se ‘A menina que passa’). Em seguida, foi a vez de Tom musicar o poema, tarefa também trabalhosa, que ele realizou em sua então nova moradia na rua Barão da Torre. Ao final, o compositor deu a ‘Garota de Ipanema’ uma de suas mais originais melodias, igualmente alegre e triste, bem de acordo com a letra que exalta a beleza radiante da moça que passa, ao mesmo tempo que lamenta a solidão do poeta, condenado a admirá-la à distância. Destinada a uma comédia chamada ‘Blimp’, jamais concluída por Vinicius, ‘Garota de Ipanema’ acabou sendo lançada no show ‘Encontro’, que estreou em 2 de agosto de 62 e permaneceu 45 dias em cartaz na boate Au Bom Gourmet, em Copacabana. Este espetáculo reuniu pela única vez em palco os três grandes da bossa nova – Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto – mais o conjunto Os Cariocas, e lançou, além de ‘Garota de Ipanema’, ‘Só danço samba’ e ‘ Samba do avião’, sendo a primeira e segunda as últimas canções da dupla Tom-Vinicius. Todas essas composições saíram em disco no início de 63, tendo Pery Ribeiro, Os Cariocas e o Tamba Trio a primazia de gravarem ‘Garota de Ipanema’. Em, abril, Tom Jobim a apresentava aos americanos no elepê The composer of Desafinado plays. Ao final do ano, a Verve lançou o single de Astrud Gilberto e Stan Getz, disco que vendeu milhões e estabeleceu o prestígio internacional de ‘The Girl from Ipanema’, título da versão do letrista Normal Gimbel. Amadora até então, Astrud encantou os americanos pela simplicidade e a ausência de afetação das cantoras de experiência formal. Esse single e o álbum Getz/ Gilberto, que contém a gravação integral com a participação de João Gilberto cantando em português, receberam quatro prêmios Grammy: melhor single, melhor álbum, melhor performance de jazz instrumental e melhor gravação. Em meados dos anos noventa, ‘Garota de Ipanema’ ostentava uma discografia de centenas de gravações , com intérpretes das mais variadas tendências, não apenas na área nacional – Astrud, Baden Powell, Os Cariocas, Cauby Peixoto, Dick Farney, Elis Regina, Eumir Deodato, Hermeto Pascoal, João Gilberto, Leny Andrade, Leila Pinheiro, Lucio Alves, Nara Leão, Tim Maia – mas, principalmente, na internacional em que, além dos habituais intérpretes da obra jobiniana – Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Sara Vaughan, Charlie Byrd- ressaltam figuras como Anita O´Day, Al Jarreau, Erroll Garner, Earl Hines, Herbie Mann, Louis Armstrong, Nancy Wilson, Nat King Cole, Oscar Peterson, Peggy Lee, Stephane Grapelli, Vic Damone e muitos outros.
 
Simone gravou ‘Garota de Ipanema’ nos álbuns ‘Olha que coisa mais linda – Homenagem a Tom Jobim’ (CD/DVD), Som Livre, 2001 e ‘Um barzinho, um violão’ 2 (CD/ DVD), Universal 2002
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
GOTA D’ÁGUA (Chico Buarque)
 
Retomando uma idéia de Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Chico Buarque transportaram a tragédia grega Medéia (de Eurípedes) para um subúrbio do Rio, dando-lhe o nome de ‘ Gota d’Água’. Medéia, que mata os filhos e se suicida ao ser desprezada pelo amante, é na tragédia carioca Joana, companheira de Jasão, um sambista que a abandona por uma mulher rica. Embutido na recriação do drama havia o propósito dos autores de criticar e questionar as implicações sócio-políticas da ditadura militar brasileira. Toda escrita em versos, numa linguagem coloquial, ‘Gota d’água’ apresentava uma dúzia de composições das quais a mais importante era a canção homônima, em que a protagonista, interpretada por Bibi Ferreira, advertia o amante: ‘Deixa em paz meu coração/ que ele é um pote/ até aqui de mágoa/ e qualquer desatenção/ faça não/ pode ser a gota d’ água’. Contemplada com o Prêmio Moliére – que Chico recusou-se a receber, em razão de estarem os concorrentes com suas peças presas na censura- ‘Gota d’água’ esteve em cartaz em dois teatros cariocas, sendo uma das temporadas a preços populares. Já a canção ‘Gota d’água’ foi gravada por Bibi no disco da peça, com orquestração e Dori Caymmi, tendo no entanto maior sucesso a versão de Simone. Eurípedes, o mais moço dos três grandes trágicos atenienses, considerado o poeta do pessimismo, criou terríveis figuras femininas e exerceu forte influência nos trágicos latinos como Ênio e Sêneca.
 
Simone gravou ‘Gota d’água’ com a participação de Milton Nascimento no seu álbum ‘Gotas d’água’, EMI-Odeon, 1975
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
JESUS CRISTO (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
 
A vertente mística de Roberto e Erasmo Carlos começou em 1970 com a canção ‘ Jesus Cristo’. E começou muito bem, pois este rock-hino cantado com respeitoso entusiasmo por Roberto( ‘ Jesus Cristo/ Jesus Cristo/ Jesus Cristo/ eu estou aqui…’), puxou a vendagem de seu elepê anual e ainda ensejou à cantora Cláudia a oportunidade de se consagrar com uma outra gravação. De certa forma inspirada no sucesso ‘ Jesus Christ, Superstar’, de Lloyd Weber e Tim Rice, composição que precedeu em dois anos a ópera-rock homônima, ‘ Jesus Cristo’ é uma das canções de Roberto que permanecem no tempo. Assim, 27 anos depois de seu lançamento, voltaria a ser ouvida em todo o país, quando cantada pelo autor e uma grande multidão, por ocasião da missa celebrada pelo papa João Paulo II no Parque do Flamengo, em sua passagem pelo Rio, em outubro de 97.
 
Simone gravou Jesus Cristo nos seus álbuns 25 de Dezembro, Polygram, 1995 e 25 de Diciembre, Polygram, 1996
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
JOÃO VALENTÃO (Dorival Caymmi)
 
Tipos da via real inspiraram vários personagens que habitam as canções de Dorival Caymmi, como o amigo Zezinho ( ‘ Maracangalha’), a anônima dançarina de frevo( ‘ Dora’) e o pescador Carapeba, modelo de ‘ João Valentão’. Com um prólogo em andamento rápido e duas partes lentas, em ritmo de samba-canção, esta composição retrata a figura de João Valentão, um sujeito rude, brigão, mas que também tem seus momentos de amor e ternura. Uma peça tipicamente caymmiana, ‘ João Valentão’ ostenta versos do mais puro lirismo como os que se encerram a segunda parte: ‘ E assim adormece esse homem/que nunca precisa dormir pra sonhar/porque não há sonho mais lindo/do que sua terra/não há’
 
Simone gravou João Valentão no seu álbum Expo Som 73, Odeon, 1973
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
KALU (Humberto Teixeira)
 
A dupla Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira separou-se no início da década de 1950, em razão da ida de Gonzaga para a SBACEM, enquanto Teixeira permanecia na UBC. Na época, compositores de sociedades diferentes não podiam aturar juntos. Passaram, então, os dois a trabalhar sozinhos, ou com outros parceiros, sendo ‘ Kalu’ o maior sucesso individual de Teixeira.
De estilo romântico-ingênuo, este baião foi feito para atender a um pedido de Dalva de Oliveira, que desejava incluir música nordestina na série que gravaria com a orquestra de Roberto Inglês. Referindo-se a ‘ Kalu’, muitos anos, depois de seu lançamento, Humberto Teixeira confessou: ‘ Na verdade, Kalu existiu. Só que com outro nome, naturalmente’.
 
Simone gravou Kalu no seu álbum Sedução, CBS, 1988
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
LUAR DO SERTÃO (Catulo da Paixão Cearense)
 
A toada ‘Luar do Sertão’ é um dos maiores sucessos de nossa música popular em todos os tempos. Fácil de cantar, está na memória de cada brasileiro, até dos que não se interessam por música. Como a maioria das canções que fazem apologia da vida campestre, encanta principalmente pela ingenuidade dos versos e simplicidade da melodia. Embora tenha defendido com veemência pela vida afora sua condição de autor único de ‘Luar do Sertão’, Catulo da Paixão Cearense deve ser apenas o autor da letra. A melodia seria de João Pernambuco ou, mais provavelmente, de um anônimo, tratando-se assim de um tema folclórico- o côco ‘É do Maitá’ ou ‘Meu Engenho é do Humaitá’-, recolhido e modificado pelo violonista. Este côco integrava ser repertório e teria sido por ele transmitido a Catulo, como tantos outros temas. Pelo menos, isso é o que se deduz dos depoimentos de personalidades como Heitor Villa-Lobos, Mozart de Araújo, Silvio Salema e Benjamim de Oliveira, publicados por Almirante no livro No Tempo de Noel Rosa. Há ainda a favor a versão do aproveitamento de tema popular, uma declaração do próprio Catulo ( em entrevista a Joel Silveira) que diz: ‘Compus o Luar do Sertão ouvindo uma melodia antiga(…) cujo estribilho era assim: ‘’É do Maitá! É do Maitá!’. A propósito , conta o historiador Ary Vasconcelos em Panorama da Música Popular Brasileira na belle époque) que teve a oportunidade de ouvir ‘Luperce Miranda tocar no bandolim duas versões do ‘É do Maitá’: a original e ‘outra do sertão’. Homem humilde, quase analfabeto, sem muita noção do que representavam os direitos de uma música célebre, João Pernambuco teve dois defensores ilustres- Heitor Villa-Lobos e Henrique Foreis Domingues, o Almirante- que, se não conseguiram o reconhecimento judicial de sua condiçao de autor de ‘Luar do Sertão’, pelo menos deram credibilidade à reivindicação. Ainda do mesmo Almirante foi a iniciativa de tornar ‘Luar do Sertão’prefixo musical da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a partir de 1939.
 
Simone gravou Luar do Sertão em ‘Clássicos Sertanejos’ com Chitãozinho e Xororó, Polygram 1996 e em Amigos 2- Especial da Rede Globo ao Vivo(CD/DVD) com Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo e Zezé de Camargo e Luciano, Som Livre 1997
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
LUÍZA (Antonio Carlos Jobim)
 
Uma canção que se repete todas as noites, à mesma hora, numa telenovela de grande audiência, tem , naturalmente, boa possibilidade de se tornar sucesso. Mas se a canção é bem feita e se liga a uma bela personagem, essa possibilidade é total, sem a menor margem de dúvida. Isso ocorreu com ‘ Luiza’, que Tom Jobim criou meio de encomenda- a melodia já estava bem encaminhada- para a personagem homônima, vivida por Vera Fischer na novela ‘ Brilhante’. Chamada pelo autor, juntamente com ‘ Eu Te Amo’, de ‘as minhas francesas’, ‘ Luiza’ é uma valsa sofisticada, laboriosamente construída, nota por nota, verso por verso, e que só foi dada por concluída quando realmente nada mais havia a fazer. Houve até, uma ocasião, uma entrevista de Tom à televisão, em que ele demonstrava sua satisfação com a canção recém- terminada, comentando didaticamente cada acorde de sua harmonia requintada. E se musicalmente a canção é uma beleza, poeticamente o é também, com uma letra apaixonada que lembra momentos de lirismo intenso do parceiro Vinicius de Moraes: ‘ Vem cá Luiza/ me dá tua mão/ o teu desejo é sempre o meu desejo/ vem, me exorcisa/ de dá tua boca/ e a rosa louca vem me dar um beijo…’ Já os versos finais foram sugeridos por Ronaldo Boscoli, a pedido do próprio Tom, inseguro quanto aos que havia feito conforme Sérgio Cabral conta no livro Antonio Carlos Jobim, uma biografia: ‘ Como um brilhante que partindo a luz/ explode em sete cores/ revelando, então, os sete mil amores/ que eu guardei somente para te dar, Luiza…’ Desses, apenas o último é de Tom Jobim. Além da versão para a trilha da novela, Tom regravou ‘ Luiza’ ao piano, com Edu Lobo cantando, num disco dos dois, produzido por Aloísio de Oliveira e realizado em novembro de 81. Seis anos depois ele voltaria a gravá-la para o álbum Passarim.
 
Simone gravou com a participação de Tom Jobim no seu álbum, Simone, CBS, 1989
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
MANIA DE VOCÊ (Rita Lee/ Roberto de Carvalho)
 
A carreira de Rita Lee entrou em ascensão a partir de sua parceria com o músico e compositor Roberto de Carvalho, com quem aliás se casou. Isso já começou a acontecer no primeiro elepê, que trazia seis composições da dupla, melodias de Roberto e letras de Rita, entre as quais ‘ Chega Mais’( que virou nome de telenovela) e ‘ Mania de Você’. ‘ Foi em cinco minutos que a gente fez ‘ Mania de Você’. A gente tinha acabado de transar, ele pegou o violão e eu o caderninho e começamos: ‘ Meu bem, você me dá água na boca…’ afirma a cantora em seu Songbook. ‘ Mania de Você’ é uma balada com uma levada latina, de melodia fácil, sensualizada por algumas imagens picantes e marcadas pelo refrão: ‘ Nada melhor do que não fazer nada/ só prá deitar e rolar com você’. A voz caliente e dobrada de Rita- que também tocou as flautas do refrão- e o arranjo leve e gostosamente dançante, na linha latin de Henry Mancini do filme ‘ Bonequinha de Luxo’ ( ‘ Breakfast at Tiffany´s) foram decisivos para o sucesso rápido da composição. Considerando o seu trabalho anterior, vinculado ao rock, Rita Lee realizou na ocasião praticamente um crossover em sua carreira, ampliando a faixa etária de seus público nas duas extremidades, a das crianças e a dos quarentões. Daí a subida de patamar, à qual Roberto de Carvalho deu base e sustentação indispensáveis ao acabamento sofisticado de seu novo estilo.
 
Simone gravou Maria de Você no seu álbum Amor e Paixão, CBS, 1986
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
MARACANGALHA (Dorival Caymmi)
 
Zezinho, grande amigo de Dorival Caymmi, falava muito em Maracangalha. Quando não tinha um bom pretexto para sair de casa, dizia para a mulher o ‘ Eu vou para Maracangalha’. Maracangalha era um lugarejo onde havia uma usina de açúcar, a Cinco Rio, em que Zezinho fazia negócios. Uma tarde em 1955, Caymmi estava em casa, na rua Cesário Mota Junior, em São Paulo, pintando um auto-retrato quando de repente veio-lhe à lembrança a frase de Zezinho. ‘ Daí’- conta o compositor- ‘ comecei a cantarolar música e letra nascendo ao mesmo tempo: ‘ Eu vou pra Maracangalha, eu vou/eu vou de liforme( uniforme) branco , eu vou/eu vou de chapéu de palha, eu vou…’; estava bom, eu estava gostando. Então continuei e quando cheguei à parte que diz ‘ Eu vou convidar Anália, uma vizinha, dona Cenira, perguntou lá de sua janela para a minha mulher: – ‘ Dona Stela, o que é que seu Dorival tá cantando aí, tão bonitinho? ‘. E Stela: – ‘ Caymmi, dona Cenira quer saber o que é que você está cantando.’. Respondi: ‘ Estou fazendo uma música que fala de um sujeito, que sai de casa feliz para se divertir. Ele vai pra Maracangalha, vai convidar Anália…’ ao que interrompeu a vizinha: – ‘ E por que o senhor não põe Cenira, em lugar de Anália?’. Aí não dava mais pé. – ‘ Fica pra outra vez dona Cenira…’, eu lhe disse, me desculpando’. Assim nasceu ‘ Maracangalha’, sem maiores pretensões, de uma só vez, ao contrário de outras composições de Caymmi em que ele passa meses, às vezes anos, burilando, aperfeiçoando. Nasceu e ficou guardada até o ano seguinte, quando o compositor voltou para o Rio e gravou-a na Odeon, com extraordinário sucesso, que se estendeu ao carnaval, para a sua surpresa.
 
Simone gravou ‘Maracangalha’ no seu álbum ‘Brasil – O Show’, Polygram, 1997
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
MARINA (Dorival Caymmi)
 
Destacam-se na obra de Dorival Caymmi três vertentes: as canções praieira e os sambas de roda, em que predomina a Bahia, e os sambas urbanos de inspiração carioca. É ao terceiro grupo que pertence ‘ Marina’. De melodia e letra muito bem trabalhadas em sua simplicidade aparente, este samba conta a zanga de um homem ciumento, que não gosta de ver sua mulher pintada. Uma curiosidade: Caymmi começou a canção pelo final, repetindo uma frase do filho Dori ( então com três anos) que, ao ser contrariado, reagia dizendo: ‘ Tô de mal com você, tô de mal com você…’. Um dos grandes sucessos caymmianos, ‘ Marina’ já começou sendo gravada por quatro cantores- Dick Farney, Francisco Alves, Nelson Gonçalves e o próprio Caymmi-, derrubando um tabu adotado por nossas gravadoras na época, que não admitiam o lançamento de uma composição por mais de um intérprete. Mas a gravação de maior sucesso foi a de Dick Farney que, pode-se dizer, fez de ‘ Marina’ peça obrigatória dos shows de boates, ambiente em que ele reinou por longos anos.
 
Simone gravou ‘Marina’ no álbum ‘Perdida de Amor’ em dueto com Marília Gabriela, Universal, 2002
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
MATRIZ OU FILIAL (Lucio Cardim)
 
É comum atribui-se a Lupicínio Rodrigues a autoria de ‘ Matriz ou Filial’, um autêntico samba-canção ‘ dor de cotovelo’. Como se não bastasse a linha melódica abolerada, sempre associada ao clima de ‘ inferninho’, e o tratamento dramático do tema paixão-rivalidade-arrependimento, a composição ainda seria, mão por acaso, lançada por Jamelão, o intérprete maior de Lupicínio: ‘ Quem sou eu/pras ter direitos exclusivos sobre ela/se eu não posso sustentar/os sonhos dela/se nada tenho e cada um vale/p que tem…’. Entretanto, o autor desses versos é o santista Lúcio Cardim, personagem da noite, como Lupi, e que integrou em sua época um restrito grupo de compositores paulistas reconhecidos e gravados em outros Estados. As reflexões e tiradas surpreendentes do ambiente de bas fond, dominantes na obra de Cardim podem ser apreciadas em ‘Matriz ou Filial’, que ele chegou a gravar, juntamente com outras composições de sua autoria, num elepê( o único em toda sua carreira) intitulado Obra Prima, em 1978.
 
Simone gravou Matriz ou Filial nos seus álbuns Gotas D´Água, EMI-Odeon, 1975 e Ao Vivo No Canecão, EMI-Odeon, 1980
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
ME CHAMA (Lobão)
 
Recebido com incomum repercussão, o segundo elepê de Lobão( Ronaldo foi pra guerra) teve duas faixas que despertaram a atenção da crítica e se projetaram nas rádios: ‘ Me Chama’( só de Lobão) e ‘ Corações Psicodélicos’( Lobão, Julio Barroso e Bernardo Vilhena) , que procuravam apresentar uma proposta mais radical de que as dos outros grupos. ‘ Me Chama’ possui uma proposta mais radical do que as dos outros grupos… ‘ Me Chama possui uma linha melódica acima da média, superior, inclusive, `a de ‘ Corações Psicodélicos’, a preferida pela gravadora para divulgar o disco. Sua letra focaliza a aflição de quem espera um telefonema ( que nunca vem) da pessoa amada. É a angústia de músicas dos anos cinquenta em tempo de rock, daí, talvez, a citação no primeiro verso de uma canção de fossa da época: ‘ Chove lá fora/ e aqui../tá tanto frio/ me dá vontade de saber/ aonde está você/ me telefona/ me chama/ me chama/ chama…’ Bom músico, ex-baterista do Vimana, da Blitz ( da qual foi fundador), da Gang 90& As Absurdettes e de vários cantores- Luiz Melodia, Lulu Santos, Ritchie e Marina, que também gravaria ‘ Me Chama’-, bem articulado, Lobão ( João Kuis Woedderbarg) é considerado um dos principais responsáveis pelo boom do rock nacional nos anos oitenta ( ao lado dos grupos Paralamas do Sucesso, Titâs e Legão Urbana). ‘ Me Chama’ receberia uma inesperadas interpretação de João Gilberto em um de seus shows.
 
Simone gravou ‘Me chama’ nos seus álbuns ‘Vício’, CBS, 1987 e ‘Feminino’, Universal, 2002
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
MEU BEM QUERER (Djavan)
 
Djavan compôs num momento de amor ‘ Meu bem querer’, uma das canções mais importantes de sua carreira. A afirmativa, dele próprio, é justificada pelo fato de que, até 1980, embora suas composições fossem reconhecidas, o seu nome como compositor não o era ainda. Mas, a partir de ‘ Meu Bem Querer’, passou a sê-lo, tendo o compositor, considerado por alguns como revelação da década, entrado para o grupo de elite da MPB. ‘ Meu Bem Querer’ foi feita ao violão e tem melodia muito simples, ressaltando com grande poder de síntese o lado lírico, que conquistou o público: ‘ Meu bem querer é segredo é sagrado/ está sacramentado em meu coração/ meu bem querer tem um quê de pecado/ acariciado pela emoção/ meu bem querer, meu encanto/ tô sofrendo tanto, amor/ e o que é o sofrer/ para mim que estou/jurado pra morrer de amor…’. Isso é tudo. Como se vê, são apenas uns poucos versos numa letra sem rodeios ou metáforas, uma declaração de amor que poderia ser o texto de uma simples mensagem de namorados. Gravada no elepê Alumbramento, com um emocionante arranjo de Wagner Tiso, ‘ Meu bem querer’ foi a grande música do álbum, que tinha duas outras obras primas, ‘ Lambada de Serpente’ e ‘ Sim ou Não’. Ainda o mesmo disco revela personalíssimas invenções rítmicas de Djavan, nas faixas ‘ Aquele Um’ e ‘ Sururu de Capote’, que são uma maneira nova de dividir o samba, diferente do que fazem Caymmi e João Gilberto. Chegando a ser citada como a música do ano, esta composição foi o tema musical da personagem vivida por Vera Fischer na telenovela ‘ Coração Alado’, tendo sido regravada por Zizi Possi e Nana Caymmi, entre outros. Em 1998, com uma nova gravação de Djavan, seria tema de abertura e título de outra telenovela da Globo.
 
Simone gravou ‘Meu bem querer’ no seu álbum ‘Sou eu’, Sony, 1993
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
MINHA NAMORADA (Carlos Lira/ Vinicius de Moraes)
 
Ao comporem ‘ Minha namorada’, pouco antes de escrever a peça ‘ Pobre menina rica’, seus autores não faziam muita fé no sucesso desta canção de amor. Mas, a realidade é que a letra de ‘ Minha namorada’- classificada por Elis Regina como ‘ a maior cantada da música brasileira’- é de arrasar as resistências dos mais empedernidos corações femininos: ‘ E se mais do que minha namorada/você quer ser minha amada/minha amada, mais amada pra valer/(…) / você tem que vire comigo em meu caminho/ e talvez o meu caminho seja triste pra você/(…) e você tem que ser estrela derradeira/ minha amiga e companheira/ no infinito de nós dois…’. Isso é Vinicius de Moraes em momento de lirismo supremo, só alcançado em alguns poemas ou canções como ‘ Eu sei que Vou te Amar’. Na melodia de Carlinhos, o acorde menor de si bemol, com a sétima sobre a sílaba ‘ mi’, em ‘ ser mi-nha até morrer’ e o arremate final às frases sequenciais são detalhes que situam ‘ Minha Namorada’ como um primoroso exemplo de equilíbrio na conjunção letras e música. Uma das melhores versões desta canção é a do conjunto Os Cariocas- na ocasião, em sua formação mais duradoura, com o falecido Luis Roberto como solista. Outra boa versão é a de Maria Creuza, Vinicius e Toquinho, gravada em 72, na qual foi restaurado o recitativo original ‘ Meu poeta, eu hoje estou contente/ todo mundo de repente ficou lindo,/ ficou lindo de morrer,/eu hoje estou me rindo,/nem eu mesmo sei por quê…
 
Simone gravou ‘Minha namorada’ no Songbook Carlos Lyra acompanha por Helio Delmiro ao violão, Lumiar Discos, 1994
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza , ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
MUITO ESTRANHO (Dalto/ Claudio Rabelo)
 
A beleza de uma canção, sua divulgação intensa, o prestígio do cantor ou do autor, tudo isso ajuda, mas nem sempre são capazes de torná-la um sucesso. Em julho de 82 e agosto de 83, por exemplo, esteve nas paradas a composição ‘ Muito estranho’, de subtítulo, ‘ Cuida bem de mim’. Durante seis desses treze meses, ‘ Muito estranho’ foi a música mais executada nas emissoras de rádio (AM) do Estado de São Paulo, feito alcançado sem a presença de nomes consagrados assinando a composição ou interpretando-a, e sem que a canção apresentasse nada de excepcional em matéria de letra ou melodia: ‘Hum! Mas se um dia eu chegar muito estranho/ deixa essa água no corpo lembrar nosso banho/ Hum! Mas se um dia eu chegar muito louco/ deixa essa noite saber que um dia foi pouco…’ O principal responsável por essa façanha é o cantor – compositor Dalto (Dalto Roberto Medeiros), ex-integrante do conjunto de rock Os Lobos, de Niterói, e médico anestesista que abandonou as salas de cirurgia para se dedicar à música popular. E teve razão, pois em pouquíssimo tempo lançaria os sucessos ‘Bem-te-vi’ (com Claudio Ferreira) e ‘Leão Ferido’ (com Biafra), além de iniciar uma carreira de cantor com ‘Muito estranho’.
 
Simone gravou ‘Muito estranho’ no seu álbum ‘Seda pura’, Universal, 2001
Severiano, Jairo e Homem de Mello, Zuza, ‘A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
NA CADÊNCIA DO SAMBA (Ataulfo Alves/ Paulo Gesta)
 
Existem dois sambas com o título de ‘ Na Cadência do Samba’. O primeiro , de Luis Bandeira, foi por ele lançado em junho de 56 sem maior sucesso. Tempo depois, adotado como prefixo e fundo musical para cenas de futebol no jornal cinematográfico Canal 100, de Carlos Niemeyer, popularizou-se, tornando-se conhecido pelo verso inicial: ‘Que Bonito É’. Já o segundo, seis anos mais novo, é um dos melhores da última fase de Ataulfo Alves, impressionando pelo curioso estribilho: ‘ Sei que vou morrer não sei o dia/levarei saudades da Maria/ sei que vou morrer não sei a hora/levarei saudades da Autora/ eu quero morrer numa batucada de bamba/na cadência bonita do samba.’. Além da versão de Ataulfo, ‘ Na Cadência do Samba’ fêz sucesso cantado por Elizeth Cardoso, que por coincidência gravou também o samba do Luis Bandeira.
 
Simone gravou ‘Na Cadência do Samba’ no seu álbum ‘Brasil -O Show’, Polygram, 1997
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
NERVOS DE AÇO (Lupicínio Rodrigues)
 
Amores impossíveis, paixões desesperadas, mulheres volúveis, infiéis, tudo isso faz parte do mundo explorado por Lupicínio Rodrigues em sua obra. Ninguém melhor do que ele cantou a dor de cotovelo em nossa música popular. O exemplo maior de seu estilo é o samba ‘ Nervos de Aço’, uma história de traição amorosa e de protesto contra o conformismo de pessoas traídas. Só que o protesto é passivo, pois o protagonista também não age, limitando-se a se queixar: ‘Eu só sinto quer quando a vejo/ me dá um desejo de morte e de dor’. Na realidade, este samba surgiu de uma grande desilusão de Lupicínio, quando a mulata Inah, a paixão de sua vida, abandonou-o após seis anos de romance. Razão do abandono: o poeta prometia mas não se decidia a casar…
 
Simone gravou Nervos de Aço no seu álbum Fica Comigo Esta Noite, Universal, 2000
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
O QUE É O QUE É? (Luiz Gonzaga Junior)
 
Além das canções pungentes, sofridas, que lhe renderam muito sucesso, Gonzaguinha também era capaz de fazer música alegre e otimista. Isso é mostrado no samba ‘ O Que É o Que É?’, uma boa composição, que, depois de justificar com inúmeras razões o direito à felicidade, explode num vibrante refrão que é um verdadeiro hino de amor à vida: ‘ Viver e não ter a vergonha de ser feliz/ cantar (…) a beleza de ser um eterno aprendiz/ eu sei que a vida devia ser bem melhor e será/ mas isto não impede que eu repita/ é bonita, é bonita, e é bonita…’. Muito apropriadamente, Gonzaguinha compôs ‘ O Que É o Que É? ‘ em ritmo de samba enredo, o que sugere um canto coletivo e empolgado, como é de praxe no gênero.
 
Simone gravou O Que É o Que É? No seu álbum Brasil- O Show, Polygram, 1997.
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
ORAÇÃO DE MÃE MENININHA (Dorival Caymmi)
 
O cinquentenário de mãe de santo da venerável Mãe Menininha do Gantois foi comemorado numa grande festa que congregou todo o povo baiano. Na ocasião, formou-se uma comissão de notáveis para a promoção dos festejos, dela participando Jorge Amado, Carybé, Pierre Verger e Dorival Caymmi, que marcou o evento compondo esta belíssima ‘ Oração de Mãe Menininha’: ‘ Ai, minha mãe/ minha mãe, Menininha/ ai, minha mãe/Menininha do Gantois/ a estrela mais linda, hein?/ tá no |Gantois/a beleza do mundo, hein?/ tá no Gantois…’ Este ‘ é um canto de amor e amizade que fiz para aquela senhora a quem venero e admiro, há tantos anos’, declara Caymmi, que confirma o título da composição, às vezes publicado de forma incorreta: ‘ é Oração de Mãe Menininha’, mesmo assim como o povo costuma dizer ‘ oração de Santo Antonio’, ‘ oração de São José’…’ Gravada perlo autor e pelo duo Gal-Bethânia, a canção tornou conhecida no país a figura de Mãe Menininha do Gantois. A propósito, Gantois foi um francês que fez fortuna na Bahia no século XIX. Com a Abolição, ele permitiu que ex-escravos seus, entre os quais ancestrais de Menininha, habitassem uma de suas terras em Salvador, lugar que acabou sendo chamado de Alto do Gantois. Foi ali que nasceu e viveu a famosa mãe de santo.
 
Simone gravou oração de Mãe Menininha no seu álbum Festa Brasil, Odeon, 1974
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
OUTRA VEZ (Isolda)
 
Os irmãos Isolda e Milton Carlos faziam backing vocal antes de terem a primeira composição gravada por Roberto Carlos, ‘ Amigo, Amigos’, o que aconteceu em 1973, com a colaboração do amigo comum Eduardo Araújo. Daí então os dois passaram a contribuir regularmente para o repertório do cantor, que chegou a incluir duas de suas canções no disco de 76: ‘ Pelo Avesso’ e ‘ O Jeito Estúpido de Te Amar’. Infelizmente, na noite em que comemoravam este fato, aconteceu na Via Anhanguera o desastre de automóvel que matou Milton Carlos. Arrasada com o desaparecimento do irmão, Isolda sentiu-se comprometida, mesmo sem ele, a continuar enviando composições para Roberto Carlos. Um dia, em 77, estando com amigos num barzinho da avenida Europa, em São Paulo, surgiu de uma conversa sobre ex-namorados a idéia para a melodia e boa parte da letra de ‘ Outra Vez’, que a compositora anotou num guardanapo: ‘ Você foi o maior dos meus casos/ de todos os abraços/ o que eu nunca esqueci/ você foi dos amores que eu tive/ o mais complicado/e o mais simples pra mim’. Naquela noite ao chegar em casa, Isolda, completaria, ao violão, a romântica canção ‘ Outra Vez’. Como não tinha refrão e a letra era muito extensa, ela julgou-a inadequada ao estilo de Roberto sendo realmente surpreendida ao saber que o cantor a incluíra no elepê de 1977. Precedida pelos sucessos de ‘ Amigo’ e ‘ Falando Sério’, faixas do mesmo disco, ‘ Outra Vez’ só despontaria nas paradas a partir de abril de 78 quando receberia vários prêmios e entraria para o repertório de Altemar Dutra, Simone, Emílio Santiago e, no exterior, a orquestra de Ray Conniff (como ‘Once Again’), o cantor Pepino di Capri (como ‘Ancora com Te’) e Armando Manzanero (como ‘Usted Fué’), compositor de quem Isolda tornou-se parceira mais tarde. ‘ Outra Vez’ é uma das raras músicas não compostas por Roberto( e Erasmo) que podem ser consideradas clássicos de seu repertório.
 
Simone gravou Outra Vez nos seus álbuns Pedaços, Emi-Odeon 1979 e Sou Eu ( CD), Sony, 1993
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
PRESSENTIMENTO (Élton Medeiros/ Hermínio Bello de Carvalho)
 
Cantado por Marília Medalha sobre um belo arranjo do violonista Carlos Castilho ( sua introdução incorporou-se à canção), ‘ Pressentimento’ classificou-se em terceiro lugar na 1ª. Bienal do Samba, atrás de ‘ Lapinha’ e ‘ Bom Tempo’. Num estilo que lembra mestre Cartola, a composição possui letra e melodia sofisticadas, elaboradas a partir de uma idéia inicial de Hermínio Bello de Carvalho, tendo Elton Medeiros musicado os versos à medida em que iam surgindo. Com um começo sofrido, queixoso( ‘ Ai, ardido peito/ quem irá entender o teu segredo’), o samba cresce e culmina nos versos finais, ante a expectativa de realização da felicidade desejada: ‘ Vem, que o sol raiou/ os jardins estão florindo/ tudo faz pressentimento/ que este é o tempo ansiado/ de se ter felicidade’. Composto à época do show ‘ Mudando de Conversa’, de Hermínio, quando Os Cinco Crioulos, liderados por Élton, substituíam Ataulfo Alves, ‘ Pressentimento não se destinava à Bienal, alimentando seus autores modestas pretensões, ao inscrevê-lo. A saída de Ataulfo, deixando a peça antes da estréia, ocorreu em razão da doença que o levaria à morte um ano depois.
 
Simone gravou Pressentimento no seu álbum Brasil-O Show, Polygram, 1997
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
PROCISSÃO (Gilberto Gil)
 
‘Procissão’ foi uma das três músicas que Gilberto Gil cantou em suas primeiras apresentações no programa ‘ O Fino da Bossa’, em junho e julho de 66, sendo as outras ‘ Eu Vim da Bahia’ e ‘ Viramundo’. A composição, uma espécie de baião estilizado, descreve uma procissão, tomando por modelo as que Gil assistia em Ituaçu, sua cidade natal no interior da Bahia, e ressalta o contraste de uma vida melhor, prometida por Jesus, com a situação de abandono do homem do sertão : ‘ Olha lá vai passando a procissão/se arrastando que nem cobra pelo chão/ as pessoas que nela vão passando/ acreditam nas coisas lá do céu/(…)/eles vivem, penando aqui na terra/ esperando o que Jesus prometeu’. De acordo com o próprio Gil, no livro ‘ Todas as Letras’, ‘ Procissão’ é uma canção bem ao gosto do CPC, o Centro Popular de Cultura, solidária a uma interpretação marxista da religião, vista como ópio do povo e fator de alienação da realidade, segundo o materialismo dialético’. A plateia do programa adorava a maneira como a interpretava, clara e contagiante, e sobretudo o arremate final, ‘ se existe um Jesus no firmamento/ cá na Terra isso tem que se acabar’. A gravação original, realizada em outubro de 65, foi lançada em um compacto simples da RCA, com ‘ Roda’ no outro lado e a informação de que as canções eram do espetáculo ‘ Arena Canta Bahia’. No início de 67, Gil gravou-a em nova versão, mais elaborada, incluída em seu elepê de estréia na Philips. Essas gravações apresentam, à guisa de introdução, trecho de um cântico católico( ‘ Meu divino São José/ aqui estou em vossos pés/ dai-nos chuva em abundância/ meu Jesus de Nazaré’), muito entoado nas procissões de pedir chuva no interior do Nordeste. Existem ainda mais três versões de ‘ Procissão’ gravadas por Gilberto Gil: a do elepê de 1968, a do Festival de Montreux, em 78, e a do álbum ‘ Gil em Concerto’, em 87, todas elas de muito boa qualidade.
 
Simone gravou Procissão com a participaçao das mulheres ritmistas da Didá Escola de Música de Salvador no seu álbum Simone Bittencourt de Oliveira, Sony, 1995
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
QUE SERÁ (Marino Pinto/ Mário Rossi)
 
A separação do casal Herivelto Martins-Dalva de Oliveira deu motivo a uma polêmica musical, que se estendeu por mais de dois anos. Dela participaram não apenas os protagonistas do caso, mas diversos compositores que abasteciam o repertório de Dalva. Uma peça importante desse repertório é o bolero ‘ Que Será’, sucesso maior que, juntamente com o samba ‘ Tudo Acabado’, marca o início da melhor fase da cantora : ‘Que Será/ da minha vida sem o teu amor/ da minha boca sem os beijos teus/da minha alma sem o teu calor/ que será/da luz difusa do abajur lilás/ se nunca mais vier a iluminar/outras noites iguais…’. E por aí seguem os versos de Mário Rossi ( esse ‘ abajur lilás’ só pode ser dele), terminando com uma confissão de culpa, que se justifica com gesto extremo de ciúme: ‘ Eu errei/ mas se me ouvires me darás razão/ foi o ciúme que se debruçou sobre o meu coração’. Em que pese o sensacionalismo extra-musical despertado pela polêmica, grande parte de seu sucesso se deveu às interpretações de Dalva de Oliveira, que soube imprimir às canções a dose de sentimentalismo que elas exigiam. Provavelmente, esse sucesso não seria tão forte se a contenda tivesse acontecido dez ou quinze anos depois.
 
Simone gravou Que Será no seu álbum Ao Vivo no Canecão, Emi- Odeon, 1980
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ (Chico Buarque)
 
‘Quem te Viu, Quem te Vê’ foi mostrado ao público pela primeira vez no dia 16 de fevereiro de 67, durante o ‘ Pra Ver a Banda Passar’, um musical comandado por Chico Buarque e Nara Leão e criado pela TV Record em cima do sucesso de ‘ A Banda’. Por causa da timidez dos apresentadores- classificados pelo produtor Manoel Carlos como a ‘ maior dupla de desanimadores de auditório’- o programa não obteve sucesso, ao contrário de ‘ Quem te Viu, Quem te Vê’, que logo estaria nas paradas radiofônicas. Bem ao estilo de Ataulfo Alves, este samba c omenta a sina adversa de uma passista desgarrada de suas origens: ‘ Hoje o samba saiu procurando você/ quem te viu, quem te vê/ quem não a conhece não pode mais ver para crer/ quem jamais a esquece não pode reconhecer’. Gravado por Chico e Nara, foi principalmente um sucesso da cantora, abrindo o seu elepê de 1967.
 
Simone gravou Quem te Viu, Quem te Vê no seu álbum Simone Bittencourt de Oliveira, Sony, 1995.
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
QUI NEM JILÓ (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira)
 
Em 1950, vivia-se o auge do ciclo do baião, com vários compositores ( Klecius Caldas, Armando Cavalcanti, Hervé Cordovil) e intérpretes( Marlene, Emilinha Boba, Ivon Curi) de outras áreas, aderindo ao ritmo nordestino. Incansável na renovação de seu repertório, Luiz Gonzaga chegaria a gravar durante o ano nada menos de vinte composições, sendo oito delas com Humberto Teixeira e sete com o novo parceiro, Zé Dantas. De todas essas músicas, mereceu destaque especial o baião ‘Qui nem Jiló’ um dos melhores da dupla Gonzaga/Teixeira. Refletindo sinais da integração do gênero ao meio urbano, ‘ Qui nem Jiló’ tem melodia mais elaborada do que a maioria dos baiões, em nada lembrando as primitivas canções sertanejas.
 
Simone gravou Qui nem Jiló em Quatro Paredes, Odeon, 1974 e em Festa Brasil, Odeon, 1974
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
SAUDOSA MALOCA (Adoniran Barbosa)
 
O cunho descritivo e a reprodução perfeita dos linguajares caipira e paulistano italianado, próprios dos ambientes em que viveu Adoniram Barbosa, são as características básicas do estilo que tornou o compositor mais popular da cidade de São Paulo. Sem dúvida, essas características já aparecem em seu primeiro sucesso nacional, o samba ‘ Saudosa Maloca’, que narra o episódio da demolição de uma ‘ casa véia’, refúgio de um grupo de desvalidos, para a construção de um ‘arto’ edifício. Espontâneo, espirituosos, personagem ele mesmo de alguns de seus sambas, Adoniran( que foi grande comediante de rádio, destacando-se como o personagem Charutinho, no programa ‘ História das Malocas’) é um dos melhores intérpretes de sua obra, só igualado, talvez, pelos Demônios da Garoa, que popularizaram ‘ Saudosa Maloca’. Aliás, esta composição já havia sigo gravada por Adoniram, com o título de ‘ Saudade da Maloca’, quando o pessoal do conjunto a conheceu nos sets de filmagem de ‘ O Cangaceiro’. Na ocasião, Adoniram fazia uma ponta no filme, enquanto os Demônios formavam o coro dos cangaceiros.
 
Simone gravou Saudosa Maloca no seu álbum Brasil- O Show, Polygram, 1997
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
SAUDADE DE IATAPOÃ (Coqueiro de Itapoã) (Dorival Caymmi)
 
Saudoso de Itapoã, Caymmi canta a praia distante num de seus mais belos postais musicais da Bahia : ‘ Coqueiro de Itapoã..coqueiro/areia de Itapoã…areia/ morena de Itapoã…morena/ saudade de Itapoã…me deixa!’ . E, na segunda parte, propõe ao vento que se torne mensageiro de ‘ Boas notícias daquela terra, toda manhã’ e ‘ Jogue umas flor no colo de uma morena em Itapoã’. ‘Saudade de Itapoã’ foi lançada pelo compositor em abril de 48, num disco em que, contrariando sua vontade, era acompanhado por dois violões em ritmo de samba-canção. Os violonistas eram ótimos, mas, para as canções de Caymmi, o melhor mesmo é ele cantando e se acompanhando, com seu violão inconfundível.
 
Simone gravou Saudade de Itapoã no seu álbum ‘ Expo Som 73’ , Odeon, 1973
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
SE ACASO VOCÊ CHEGASSE (Lupicínio Rodrigues/ Felisberto Martins)
 
Boêmio e conquistador inveterado, Lupicínio Rodrigues várias vezes transformou em samba episódios de sua vida sentimental. Assim, por exemplo, ‘ Se Acaso Você Chegasse’ é uma espécie de mensagem/sondagem que dirige a um amigo, Heitor Barros, de quem havia tomado a namorada. Lupicínio sabia que agira mal e temia perder o amigo, que muito prezava. Para evitar o rompimento, procurava convencê-lo de que a amizade dos dois era mais importante do que a mulher infiel( ‘ Será que tinha coragem/de trocar a nossa amizade/por ela que já lhe abandonou…’), ao mesmo tempo em que lhe comunicava um fato consumado ( ‘ eu falo porque essa dona/já mora no meu barraco…’) e de difícil reversão ( ‘ de dia me lava roupa/ de noite me beija a boca/ e assim nós vamos vivendo de amor’). A verdade é que o poeta queria ficar com a mulher e o amigo, feito que acabou conseguindo, por Heitor gostou do samba e perdoou a traição. Composto em 1936, de improviso, na calçada do Café Colombo, em Porto Alegre, ‘ Se Acaso Você Chegasse’ é um dos melhores sambas de todos os tempos. Possui ainda o mérito de ter projetado nacionalmente Lupicínio e Ciro Monteiro, seu intérprete inicial, em 1938, e Elza Soares, em 1959.
 
Simone gravou Se Acaso Você Chegasse no seu álbum Feminino, Universal, 2002 com a participação de Zeca Pagodinho
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
SE TODOS FOSSEM IGUAIS A VOCÊ (Antonio Carlos Jobim/ Vinicius de Moraes)
 
Em meados de 56, Vinicius de Moraes estava com a peça ‘ Orfeu da Conceição’ pronta, faltando somente conseguir um compositor para musicá-la e, se possível, orquestrá-la. Achava Vinicius que o nome ideal para a tarefa seria o de Vadico ( Osvaldo Gogliano), parceiro de Noel Rosa que, convidado, não aceitou. Atendendo, então, a uma sugestão do crítico musical Lúcio Rangel, o poeta convidou Antonio Carlos Jobim, na época um jovem compositor e arranjador ainda pouco conhecido. Começava assim a parceria Tom-Vinicius, uma das mais importantes da música brasileira, juntando o talento de um grande músico ao de um poeta consagrado e que deu como primeiro fruto ‘ Se Todos Fossem Iguais a Você’. Romântica, requintada, até com uma certa tendência para o monumental, ‘ Se Todos Fossem Iguais a Você’ é a melhor composição do repertório criado para a peça. Lançada por Roberto Paiva no final de 56, chegaria ao sucesso no ano seguinte, quando recebeu várias outras gravações.
 
Simone gravou Se Todos Fossem Iguais a Você no Songbook de Vinicius de Moraes acompanhada ao piano por Wagner Tiso, Lumiar Discos, 1993
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
SEI LÁ, MANGUEIRA (Paulinho da Viola/ Hermínio Bello de Carvalho)
 
Este samba nasceu de uma visita, talvez a primeira, de Hermínio Bello de Carvalho ao ponto mais alto do Morro da Mangueira, ciceroneado por Cartola e Carlos Cachaça. Ao ver lá de cima e em tão ilustre companhia o belo panorama, o poeta emocionou-se e compôs este canto de amor à sua escola: ‘ Vista assim do alto/ mais parece o céu no chão/ sei lá/ em Mangueira a poesia/ feito um mar que se alastrou/ e a beleza do lugar/ pra se entender/ tem que se achar/(…)/ sei lá, não sei/ sei lá, não sei não/ a Mangueira é tão grande/ que nem cabe explicação…’. Mais tarde, em casa, Hermínio concluía o poema, quando chegou Paulinho da Viola, que achou os versos ótimos e fez a melodia na hora. O que Paulinho, portelense ferrenho, não gostou foi da inscrição de ‘ Sei lá, Mangueira’ no IV Festival de MPB da TV Record, feita pelo parceiro em atenção a um pedido do jornalista Flavio Porto, irmão de Sergio Porto. Mas, no final deu tudo certo, pois a música, embora não tenha alcançado boa classificação, acabou indiretamente causando a feitura de outra obra prima, o samba ‘ Foi um Rio que Passou em Minha Via’.
 
Simone gravou Sei lá, Mangueira, no seu álbum Feminino, Universal 2002.
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
SIMPLES CARINHO (João Donato/ Abel Silva)
 
Ao contrário dos boleros e canções latino-americanas, seus equivalente brasileiros, com exceções, naturalmente, são menos carregados de dramaticidade e auto-comiseração. Um exemplo disso é a composição ‘ Simples Carinho’: ‘ Amar ou sofrer, eu vou te dizer, mas vou duvidar/ querendo ou não, o meu coração já quer se entregar/ não falta lembrança, aviso, cobrança/ você vai por mim/ mas feito criança, lá vou na esperança, eu sou mesmo assim…’ Com uma cativante melodia de João Donato, complementada ao pé do piano por Abel Silva, em uma de suas primeiras experiências de fazer letra ao mesmo tempo em que a música é composta, ‘ Simples Carinho’ reposicionou o repertório de sua intérprete original Ângela Rô Rô. Como foi visto, esta ex-roqueira que fora considerada, precipitadamente, uma sucessora de Maysa, havia se projetado quatro anos antes com uma canção ‘ Amor, Meu grande Amor’. Mas ‘ Simples Carinho’ recolocou o bolero brasileiro, que andava meio esquecido, nas paradas, a exemplo do que ocorrera em 1975 com ‘ Dois prá Lá, Dois prá Cá’. O arranjo de Antonio Adolfo e o solo de gaita de Maurício Einhorn enriqueceram a versão de Ângela, que a regravou sem o mesmo brilho em 93. Outras boas gravações de ‘ Simples Carinho’ foram realizadas por Gal Costa, Simone, Maria Creuza e Emílio Santiago, havendo versões da composição em inglês e espanhol.
 
Simone gravou Simples Carinho no seu álbum Vício, CBS, 1987
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
SINAL FECHADO (Paulinho da Viola)
 
Concorrendo no V Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em novembro de 1969, Paulinho da Viola ganhou o primeiro lugar com ‘ Sinal Fechado’. Na verdade, o resultado surpreendeu muita gente que esperava uma repetição do acontecido no festival anterior, quando ganhou uma composição tropicalista. Mas deu ‘ Sinal Fechado’, o que até provocou uma certa polêmica, com parte da crítica discordando do resultado. Esta canção, bem diferentes de tudo o que Paulinho havia feito até então, seria, segundo ele próprio, uma consequência de contatos que mantivera ‘ com músicos mais recentes como ‘ Caetano, Gil, Chico e Edu’, entre outros. ‘ Fiz uso’, esclarece o compositor, ‘ de melodia simples, de harmonias simples, onde acrescentei a todos os acordes, uma segunda menor, buscando o clima angustiante vivido pelos personagens da música’. Daí a letra meio vanguardista que complementa a melodia: ‘ Olá, como vai?/(…)/ tudo bem, eu vou indo correndo/ pegar meu lugar no futuro. E você/ tudo bem, eu vou indo em busca de um sono/ tranquilo, quem sabe?…’ .Podendo ser classificada como uma discreta canção de protesto, ‘ Sinal Fechado’ foi lançada pelo autor num compacto simples no final de 69, tendo sido incluída e dado título, cinco anos depois, a um elepê de Chico Buarque em, que ele gravou música alheia, em razão da atuação da censura que vetava toda a sua produção.
 
Simone gravou Sinal Fechado no seu álbum Brasil -o Show, Polygram, 1997
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 
SISTEMA NERVOSO (Wilson Batista/ Roberto Roberti/ Arlindo Marques Junior)
 
A reunião de três ótimos compositores numa parceria nem sempre pode assegurar um bom resultado. Este é o caso de ‘ Sistema Nervoso’, um samba assinado por Wilson Batista, Roberto Roberti e Arlindo Marques Junior, sobre as alucinações de um amante rejeitado que canta em desespero: ‘ Ela abalou-ô-ô-ô…meu sistema nervoso!’. Mas, se artisticamente o samba é ruim, comercialmente foi um sucesso, vendendo aos milhares o disco gravado pelo cantor Orlando Correia.
 
Simone gravou Sistema Nervoso no seu álbum Gotas D ´Água, EMI-Odeon, 1975
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
VALE A PENA TENTAR (Simone/ Hermínio Bello de Carvalho)
 
‘Em 1976, no começo da minha carreira, eu estava no Sul (do Brasil) fazendo show com Toquinho (Circuito Universitário) e aí eu ouvi uma música nova do Roberto (Carlos) – ‘Proposta’ (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos). Eu estava sozinha no quarto do hotel, escutando aquela música, que eu achei linda, e me atrevi a fazer uma canção respondendo ao que ele estava propondo.
Cheguei ao Rio e corri para o Hermínio fazer a letra. Ela ficou guardada, até que mostrei ao Rodolfo (Stroeter, produtor de ‘Na Veia’). Ele quis saber por que eu nunca tinha gravado e eu respondi que não tinha coragem. Só consegui gravar depois de trinta anos.’
 
Apesar de gravada por Simone somente em 2009 no álbum “Na Veia” (Biscoito Fino), a música ‘Vale a pena tentar’ já havia sido incluída no show ‘Face a Faca’, de 1977 – intitulada ‘À beira dos lençois’.
(Declaração de SIMONE no show ‘Em Boa Companhia’, Porto Alegre (RS), 05.11.2009 e IstoÉ, 08.11.2010)
 
VINGANÇA (Lupicinio Rodrigues)
 
Realmente não poderia faltar na polêmica Dalva/Herivelto uma composição de Lupicínio Rodrigues, especialista o gênero. Só que esta composição, o samba ‘ Vingança’ , não seria inspirada pelo caso em questão e sim por mais um episódio da vida sentimental do autor. Lupicínio vivia havia alguns anos com uma moça chamada Mercedes, mais conhecida por Carioca, quando ela tentou trai-lo com um rapazola, seu empregado. Denunciada pelo garoto, Carioca foi abandonada pelo compositor que, tempos depois, ao saber de seu desespero, ‘ Chorando e bebendo na mesa de um bar’, fez o samba amaldiçoando em versos candentes o destino da traidora. Em 1963, numa cronica para o jornal gaúcho Ultima Hora, Lupicínio justificou a veemência dos versos : ‘ Nunca se está livre de ter, num momento de rancor, algum desejo de vingança’. O primeiro cantor a tomar conhecimento de ‘ Vingança’ foi Jorge Goulart, que chegou a interpretá-la na noite do Rio. No entanto, Goulart, artista da Continental, não pode gravá-la por estar Lupicínio na ocasião com contrato de exclusividade com a RCA. Em vista disso, o autor ofereceu a canção a Herivelto Martins, que a lançou com o Trio de Ouro, embora achando que a música não se adaptava ao estilo do conjunto. Foi então que Linda Batista, entusiasmada ao ouvi-la na voz de Goulart, gravou ‘ Vingança’ que se tornaria o maior sucesso de sua carreira. Aliás, gravou-a suas vezes: a primeira com o conjunto do violinista Fafá Lemos, que foi a gravação consagrada e a segunda, com uma orquestra de cordas, um fonograma pouco conhecido, que só saiu em elepê.
 
Simone gravou Vingança no seu álbum Ao Vivo no Canecão, EMI-Odeon 1980
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 1: 1901-1957, Editora 34, São Paulo, 1997
 
VOCÊ É LINDA (Caetano Veloso)
 
É o disco que mais gosto. (…) Adoro a canção ‘Uns’, adoro ‘Peter Gast’. E é a melhor capa: eu, Rodrigo e Roberto, meus dois irmãos’. Assim, Caetano comenta o seu elepê ‘Uns’, em entrevista ao Jornal do Brasil em janeiro de 91. Realmente, este álbum, lançado em 83, é um dos melhores e mais diversificados de sua discografia. Além das citadas ‘ Uns’ e ‘ Peter Gast’, de feição concretista, tem o roquinho ‘ Eclipse Oculto’, superior a muita coisa que foi feita nessa área e composições de sabor popular como ‘ Você É Linda’, uma ode apaixonada bem ao estilo de Vinicius de Moraes. Aliás, não por acaso, Caetano inclui no disco uma dessas canções em que o poeta se desmancha em elogios à musa. Faixa de maior sucesso no álbum, ‘ Você é Linda’ é consequência de um episódio acontecido num show que o autor realizou em Salvador. Quando estava cantando ‘ Lua e Estrela’, ele notou uma linda loura à beira do palco, fazendo sinais. No verso ‘ quem é você, qual o seu nome?’, cantado em sua direção, ela respondeu para a sua maior surpresa: ‘ Cristina’. E no seguinte, ‘ conta pra mim, diz como eu te encontro’. Ela completou: ‘ Ondina’, justamente o bairro onde ele morava. Dias depois, Caetano viu a moça do outro lado da rua, chamando-a de longe. Ela atendeu, aproximou-se e rapidamente se afastou, sem olhar para trás. Finalmente, no dia seguinte Cristina veio vê-lo e Caetano, fascinado, compôs: ‘ Fonte de mel/ nuns olhos de gueixa/(…)/ esta canção é só pra dizer/ e diz/ você é linda? Mais que demais? Você é linda, sim…’ Embora um tanto adocicada. ‘ Você É Linda’ é uma bela canção, admirada até no exterior, tendo sido gravada pelo guitarrista Lee Ritenour e o gaitista Toots Thielemans. Roberto e Erasmo Carlos têm uma canção homônima, também de sucesso (‘ Você veio sorrindo/ não sei bem de onde..’), lançada em 1972.
 
Simone gravou Você É Linda com a participação de Milton Nascimento no seu álbum Vício, CBS, 1987
Severiano, Jairo e Homem de Mello , Zuza , ‘A Canção no Tempo- 85 Anos de Músicas Brasileiras’ Vol. 2: 1958-1985, Editora 34, São Paulo, 1998
 


 
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