PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES (CAMINHANDO)

VEJA TAMBÉM  CAMINANDO (REMIX)     CANTA BRASIL


Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

 
Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

 
Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

 
Vem vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

 
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam antigas lições
De morrer pela pátria ou viver sem razão

 
Vem vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

 
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não

 
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na mente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

 
Vem vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

 
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES (1968)
(CAMINHANDO) Música e letra: Geraldo Vandré
Gravada por Simone no álbum SIMONE AO VIVO NO CANECÃO (1980)

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Simone no show PEDAÇOS (1979)
Foto: Fernando de Carvalho

 
 


 

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES (Caminhando), GERALDO VANDRÉ
 

Vandré canta "Pra não dizer que não falei das flores" no III Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, em 1968
Vandré canta PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES no III Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, em 1968
Foto: Alberto de Abreu Sodré 1968

 

O VETO

Após a decretação do AI-5, em 13 de dezembro (1968), Vandré passou a ser procurado pelos setores mais radicais da repressão militar (…) Sua música CAMINHANDO foi encarada nos bolsões do setor repressivo como um desafio à ordem pública. Vandré sentiu necessidade de se ocultar (…) abrigou-se no apartamento da viúva do escritor Guimarães Rosa, dona Araci, na rua Francisco Otaviano, junto ao Forte de Copacabana, de onde podia-se ver, pelas frestas das persianas, os soldados de plantão circulando em suas rondas. No carnaval de 1969 (…) escapuliu sem nunca ter sido preso (…)

Por ter sido proibida por quase 20 anos, ‘CAMINHANDO ou PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES ou ainda SEXTA COLUNA, o subtítulo que foi esquecido, teve uma trajetória em discos relativamente restrita frente à importância que adquiriu como um verdadeiro hino da oposição à ditadura militar. Millôr Fernandes tratou-a como a MARSELHESA brasileira, era cantada nas cerimônias de protesto merecendo apreciações de autores eruditos e de militares, provocando “uma eloquente síntese das contradições dialéticas”, conforme Tárik de Souza. Segundo ele, “a esquerda desdenhava a música, achando-a catártica e desmoralizadora, enquanto a direita representada por militares, dissecava ponto a ponto a composição, pedindo a prisão de Vandré pelos jornais por excesso de eficiência mobilizatória. Foi gravada duas vezes por Vandré, uma ao vivo no Maracanãzinho, e outra em estúdio, com dois violões numa levada de guarânia paraguaia, por Luiz Gonzaga, num compacto recolhido pela Censura, e pela cantora Simone anos mais tarde (…)
Após uma longa estadia no exterior (…) Vandré retornou ao Brasil com a ajuda de um coronel do exército que articulou sua volta. Fez então um pronunciamento renegando qualquer ligação com os adversários da ditadura militar.
No início dos anos 1990, houve um jantar no apartamento da atriz e cantora Vanja Orico (…) Com o violão, Vandré cantou uma bonita canção (…) distante da realidade brasileira. Ao ser perguntado pelo título, respondeu: FABIANA. Por certo dedicada a uma namorada, deduziram. Não, respondeu Vandré: “É uma homenagem à FAB”. É a sigla da Força Aérea Brasileira.
Geraldo Vandré nunca mais foi o mesmo.
(Excerto do livro ‘A Era dos Festivais – Uma parábola’, Zuza Homem de Mello, Editora 34, 2003)
 


Simone no show PEDAÇOS (1979)
Foto: Fernando de Carvalho

 
“Foi preciso coragem para cantar essa música, mas ela é tão linda e Geraldo Vandré tão importante que não vi porque não cantá-la. É necessário cantar gente como Vandré.”
(SIMONE, Folha de S.Paulo, 15.12.1979)
 
“Foi Flávio (Rangel) o responsável por essa gravação. Sugeriu e pediu para eu pensar. Respondi na hora: quero”.
(SIMONE, Pampulha – O Semanário de Belo Horizonte, 28.11.2009)
 

 

A VOLTA

CAMINHANDO (Geraldo Vandré) entrou na vida de Simone. Faltavam dois dias para a estréia no Canecão (show PEDAÇOS, 1979), quando a música foi liberada pela censura. Rangel ficou sabendo, tocou no assunto com Simone e pronto, lá estava o carro-chefe do espetáculo.

Na voz de Simone, os velhos sucessos de Elis e o hino de Vandré ganharam outros significados, um tom evocativo que embala os cantos da vida daqui pra frente. É muita vida e energia que ela transmite, mesmo que não esteja cantando, mesmo num simples abraço. Não será exatamente isso que o público está querendo, depois de tantos anos e trevas e lamentos?
(Ricardo Kotscho, Folha de S. Paulo, 06.04.1982)
 
Com a recriação de CAMINHANDO, Simone aprendeu lições e apurou o estilo da intérprete carismática que apenas ensaiava ser. Hoje, supera uma voz nem sempre afinada, nem sempre bem colocada, com uma impressionante habilidade em recriar letras, mastigá-las, imprimir-lhes entonações e sentidos diferentes de acordo com a ocasião (…) Quando Simone começou a interpretar CAMINHANDO (…) o coro popular abafou cada alto-falante do estádio, para saudar a nova estrela com um balé de braços erguidos e expressões emocionadas. Poucas semanas depois, a própria Gal Costa (…) comentava entusiasmada: Simone desabrochou como cantora quando gravou COMEÇAR DE NOVO. Agora, conquistou um espaço que é só seu.
(Okky de Souza, Veja, 24.03.1982)
 
Hoje Simone é uma das locomotivas de vendagem e prestígio de sua gravadora. Uma figura de mitologia pública, de quem se quer saber os amores, manias, preferências, onde janta, onde mora, que roupa veste. E ela veste um sóbrio summer bem talhado – apenas um toque de brilho na gola, nas costuras das pernas, um cravo vermelho na lapela, sobe no palco do Canecão e, violão Ovation ao pescoço, canta CAMINHANDO, de Geraldo Vandré, com voz embargada.
(Ana Maria Bahiana, Jornal do Brasil, 1980)
 
Um dos cantos de cisne dessa primeira Simone seria a gravação de PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES, de Geraldo Vandré, tirada do exílio por ela com o advento da anistia.
(Pedro Alexandre Sanches,, Carta Capital, 25.03.2009 )
 
O grande destaque do show PEDAÇOS foi a versão de voz-e-violão em que Simone cantava PRA NÃO DIZER QU ENÃO FALEI DE FLORES (Caminhando), o hino de Geraldo Vandré, que convidava à ação política.
(Mauro Ferreira, Notas Musicais, 19.03.2009)
 


VÍDEOS

SIMONE – PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES (Geraldo Vandré)
GRANDES NOMES: SIMONE BITTENCOURT DE OLIVEIRA, Rede Globo, 07.03.1980

 
SIMONE – PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES (Geraldo Vandré)
CANTA BRASIL (Estádio do Morumbi), Rede Globo, 17.02.1982