SIMONE e SUELI COSTA POR TIAGO TORRES DA SILVA


 

Crônicas

 

MUNDO DELIRANTEAs cigarras dão as boas-vindas ao Verão nas claras manhãs de Jundiaí. “Sss, sss, sss, sss”. São barulhentas. Ruidosas. Imitam na perfeição o canto bendito de Simone na canção “Cigarra” que Milton Nascimento escreveu propositadamente para ela. “Sss, sss, sss, sss”.

É engraçado que, habituado que estou às pequenas e comedidas cigarras da minha terra longínqua, sempre achei que a cantora era um bocadinho exagerada na recriação que faz do canto destes insectos. Descubro agora que ela é até muito contida e que, ensaiadas por mais de trinta anos do canto de Simone, as cigarras já conseguem imitar a cantora na perfeição: “Ssss, sss, sss, sss”.

Só ao fim de tantos anos de convívio com a belíssima canção, ao sentir a placidez das minhas manhãs invadida por este som tão poderoso, percebo porque a cantora morena de temperos tão fortes ganhou a alcunha que nunca mais a largou. É que é impecável o seu canto de cigarra que anuncia um Verão todos os dias. É impecável o canto de cigarra que Bituca lhe ofereceu para cantar “como a cigarra rebenta de tanta luz e enche de som o ar”.

Quando, há alguns dias, deixei a grande cidade, São Paulo estava coberta de cartazes da grande cantora. Foi lançado o primeiro dvd ao vivo da sua carreira e isso é um acontecimento quando, ainda por cima, traz as participações luxuosas de Ivan Lins, Milton Nascimento e Zélia Duncan.

Não é o melhor show de Simone e o cenário dificulta a intimidade que o seu canto exige. Mesmo assim, chega perfeitamente para confirmar a alegria com que ela sobe ao palco, a determinação tão carinhosa com que ela enfrenta o público, o tesão que ela arranca de cada canção, a beleza que o passar dos anos não belisca, a entrega que ela mantém apesar dos cinquenta e seis anos que completará no próximo dia 25 de dezembro.

E o timbre! Meu Deus, o timbre! Como falar daquele timbre tão colorido, tão sensual, tão desprotegido, tão livre!

Da importância que ela possa ou não ter na história da Música Popular Brasileira, falarão os críticos, os entendidos, muitos deles presos a conceitos que eu acho perfeitamente dispensáveis. Sobre a importância que a cantora baiana tem na minha vida, falo eu!… E falarei sempre!…

Eu tenho uma relação com a voz muito íntima e preciso de vozes que me emocionem. São muito poucas as que me provocam arrepios na espinha, me põem pele de galinha e me levantam os pêlos dos braços só com uma nota dada no momento certo. Todas essas vozes, à excepção de June Tabor, se encontram no fado ou na MPB. Não devem chegar a dez, contando com as vozes de todas as gerações. Seguramente, Simone tem um lugar de honra nessa pequena lista encabeçada pelo som maravilhoso que saíu da garganta abençoada de Amália Rodrigues.

Quantas vezes assisti a espectáculos dela, não sei. Lembro-me da sua emoção quando, em Março de 86, dez coliseus se ajoelharam aos seus pés e cantaram “Começar de novo” a uma só voz. Lembro-me do seu regresso com “Sedução” onde juntou “O tempo não pára” com a versão mais roqueira que já escutei de “Águas de março” e acabou o espectáculo embrulhada numa bandeira portuguesa. Lembro-me dos espectáculos maravilhosamente dirigidos pelo Ney Matogrosso – primeiro o “Sou eu” no Casino Estoril, depois o “Fica comigo esta noite” em várias noites do Canecão, sempre com figurinos impecáveis e uma iluminação esmerada (nunca vi luz mais bonita do que a que Ney inventou para “A primeira manhã” que a cantora cantava na região mais aguda da sua voz frente a um Canecão repleto). E de muitos regressos aos Coliseus de Lisboa e Porto e de um Carnaval delirante no Estoril e… Mesmo quando os discos eram fracos, as prestações ao vivo foram sempre óptimas… sempre vigorosas, emocionantes, autênticas. Por isso, nunca vi um cantor estrangeiro ser tão aplaudido como ela é no Coliseu de Lisboa onde o seu público fiel bate palmas, bate com os pés no chão, grita, assobia, uiva. Só não bate com a cabeça porque não pode.

Quando Simone se apresentou pela primeira vez no Coliseu dos Recreios, houve um técnico que lhe garantiu que ela não voltaria a ouvir aplausos tão calorosos. Cada regresso dela a Portugal funciona como um desmentido cabal às palavras desse técnico. Ao assistir ao dvd ao vivo recentemente lançado, fico com pena de que a cantora não o tenha gravado em Lisboa. É que os aplausos dos lisboetas não se comparam. Ela é, certamente, muito aplaudida no antigo Teatro João Caetano onde as gravações decorreram. Nada que se compare aos aplausos da minha cidade e acho mesmo que os seus fãs brasileiros ficariam surpreendidos com o calor da recepção que em Lisboa a espera de todas as vezes que ela ali se apresenta.

Vestida de branco, Simone apresenta-se no coliseu que eu guardo dentro do peito, todos os dias. Lá, guardo as canções, os gestos, as palavras, os aplausos, as lágrimas, os sorrisos, as rosas. Lá, sou eu que escolho o repertório. Lá, ouve-se “O que será?”, ouve-se “Itamarandiba”, ouve-se “Luiza” como nunca se ouviu. Lá chora-se ao som de “Primeiro de maio”, de “Encontros e despedidas” de “Pedaço de mim”. Lá dança-se no ritmo de “O amanhã” ou de “Pão e poesia”. Lá sorri-se na escuta de “Petúnia resedá” e de “Samba pro João Gilberto”. Lá vive-se a alegria da certeza do seu regresso sempre que ela declara: “Tô voltando”.

Lá, inventei uma gratidão muito íntima, por causa de a ter ouvido cantar ao vivo “Alfonsina y el mar” com um arranjo muito melhor do que em disco. Foi ao escutar essa canção que a semente da poetisa argentina Alfonsina Storni se entranhou dentro de mim e ficou à espera do momento de florir no meu melhor espectáculo, naquele que me deu mais alegrias. Chamou-se “É o mar, Alfonsina, é o mar”.

Lá, no meu coração em forma de coliseu, só se aplaude de pé, porque lá só entram os grandes, os raros, os únicos. Aqueles que, como Simone, fizeram de mim este homem tão cheio de contradições, tão cheio de incertezas, mas sempre à procura das palavras que possam um dia ligar corações, que possam unir inimigos, que possam iluminar os caminhos mais obscuros e que me façam acreditar num mundo melhor, num mundo delirante!

Tiago Torres da Silva
(poeta, escritor e letrista português)

Crônica publicada no livro ‘Timbó – as aventuras de um português no Brasil’,  de Tiago Torres da Silva, Ed. Sete Caminhos, 2006

 
Simone e Tiago Torres da Silva nos bastidores do show ‘Amigo é Casa’, Campo Pequeno, Lisboa, 2009 | Fotos: Fernando Luvizaro
 

 

FACE A FACE COM SUELI COSTAO Teatro Café Pequeno foi grande demais para o pouco público que quis deslocar-se à Avenida Ataulfo de Paiva e aplaudir Sueli Costa na tarde de hoje.

Sueli Costa não é bem uma cantora, é uma enorme compositora que compôs algumas das mais belas canções das últimas três décadas da Música Popular Brasileira e ela canta com a despreocupação de não ser uma cantora. Como somos poucos na assistência, dá a sensação que estamos na sala de estar de Sueli e que ela está apresentando a um grupo de amigos as suas mais recentes composições. A fragilidade da sua voz torna esse encontro mais autêntico e quase podemos sentir a emoção de Elis Regina ao escutar “Vinte anos” pela primeira vez, o pasmo de Maria Bethânia ao rodar no leitor de cassetes o seu “Coração ateu”, a grata surpresa de Simone inclinada sobre o piano de Sueli enquanto ela tocava “Jura secreta” que se viria a tornar o maior sucesso da sua longa carreira.

O que se trata ali não é de virtuosismo no canto, trata-se de grande música. Grande música que embrulha as palavras de grandes poetas ou não fossem seus parceiros nomes como Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Vitor Martins, Cacaso ou Abel Silva.

Sueli sempre procurou letristas de primeira água para seus parceiros e ouso dizer que ela é superlativa nisso que o compositor de música popular é capaz de fazer que consiste em casar música e letra com tal intimidade que parece que uma sem a outra não podem existir… que parece que ambas surgiram no mesmo momento… que nem a letra antecede a música nem a música antecede a letra.
Apesar de todos os parceiros que lhe conheço serem homens, Sueli é gravada quase exclusivamente por mulheres. Grandes mulheres. Mulheres exageradas. Mulheres adoráveis. Ela própria pede, na primeira canção que interpreta na tarde calma do Leblon: “ Eu quero ouvir por toda a minha vida uma mulher cantando para mim”. E assim como, no meu entender, Bethânia é a melhor intérprete de Chico Buarque e Gal a melhor intérprete de Caetano Veloso, Simone é a intérprete que mais se pode confundir com a compositora. Apesar de ter gravado tantas canções como Bethânia (treze cada uma, se não me engano) a carreira de Simone está pontuada pelos grandes sucessos que Sueli fez para ela. Só para falar das canções mais conhecidas, é bom não esquecer que, para além da “Jura secreta” que há pouco citei, Sueli é autora de canções como “Alma”, “Cordilheiras”, “Face a face”, “Corpo”, da minha adorada “Mundo delirante” ou da ousadíssima “Lábios vermelhos” que estarão para sempre entre o que de melhor houve nos trinta e tal anos em que Simone tem oferecido ao mundo um dos timbres mais belos de todo o mundo.

Eu sei que é fashion não gostar da Simone, hoje em dia! Por causa de algumas canções que ela gravou nos anos oitenta, de alguns arranjos mais comerciais, de alguns discos menos felizes. Perdoar-me-ão mas eu sou daquele tipo de pessoas que gosta de ver a metade cheia da garrafa e não a metade vazia e por cada canção brega ou com arranjos fracos que descobrirem na sua carreira, eu aponto duas antológicas. E posso dizer-vos que existem gravações antológicas de Simone em todas as décadas, até na de oitenta! Estou-me nas tintas para o que está ou deixa de estar na moda. Tenho uma fibra no peito e só o que a faz vibrar, me interessa. Seguramente, a voz de Simone faz vibrá-la desmesuradamente. Para além disso, bastaria o rol de canções que ela gravou de Sueli Costa para já valer a pena escutá-la.

Mas não é para falar de Simone que eu estou aqui. É para falar de Sueli Costa. Para falar de como ela me levou a um lugar que só nós que fazemos canções, conhecemos! Bom, eu sei que não faço músicas, mas acho que as letras que escrevo já carregam com elas música, por isso, de alguma forma posso dizer que faço canções. Os compositores meus parceiros agradecem sempre a música que as palavras que escrevo transportam, mas estranhamente, ainda tenho pudor de me apelidar letrista. Letristas para mim são estes de que falei há pouco. Letrista é o Chico Buarque e o Caetano Veloso. Letrista é o Linhares Barbosa ou o Carlos Conde. Letrista é o Carlos Tê ou o João Monge, mas tenho de me deixar destas vergonhas!… Ao ultrapassar a marca de duas centenas de letras cantadas por tanta gente, acho que já está na hora de me considerar letrista, sem que isso me cause tanto desconforto…

Esse lugar de que eu estava a falar, lugar onde a Sueli me levou, é o lugar de toda a timidez e de todo o pudor. É o momento em que uma canção fica pronta e temos de a mostrar a um cantor ou a um parceiro. Quantas canções andaram no meu bolso durante dias até eu ganhar coragem de as mostrar?…, quantas ainda não mostrei?…, quantas nunca chegarei a mostrar?… Sei que a Sueli é assim, também. Lembro-me de uma entrevista com ela que vi há muito tempo na televisão em que confessava o quanto sofreu para mostrar “Coração ateu” pra Maria Bethânia e afinal a cantora adorou a canção e deu-lhe uma interpretação inultrapassável que tantas vezes escutámos na banda sonora da longínqua telenovela “Gabriela cravo e canela”.

O espectáculo que Sueli apresentou trata disso mesmo. Do momento em que pela primeira vez uma canção ganha forma. Por isso, as desafinações da intérprete não têm importância nenhuma, nem o facto de não suster as notas agudas o tempo que elas necessitam. Todos nós, e ela também, estamos a viver o espanto da criação, o instante da revelação e isso é muito maior do que todos os rigores técnicos.

A emoção de estar a cantar face àquele grupo de amigos as suas novas canções, fá-la errar na letra de “Face a face”, esquece a cachorra que mete o dente e não late e anda para ali ás voltas com as palavras até se encontrar um pouco mais à frente. Porém não dá o braço a torcer. Está convencida que nós não notamos. Esquece-se que aquela canção que ela acabou de fazer acompanhou os meus tempos de juventude. É incrível mas eu tinha seis anos quando Simone a gravou. Já a ouvi centenas de vezes. Em disco. Ao vivo no Canecão. Na rádio. E já a cantei outras centenas de vezes nos intermináveis duches e nas intermináveis estradas das muitas viagens que faço de automóvel.
Mas Sueli consegue o maior de todos os prodígios. E hoje eu estou a ouvir “Face a face” pela primeira vez.

Tiago Torres da Silva
(poeta, escritor e letrista português)

Crônica publicada no livro ‘Timbó – as aventuras de um português no Brasil’,  de Tiago Torres da Silva, Ed. Sete Caminhos, 2006