SIMONE POR BRAD MEHLDAU

“Descobri Simone no ano passado e foi como conhecer Sarah Vaughan ou Dinah Washington. Ela tem uma identidade forte, canta com muita paixão e graça”
(Brad Mehldau, 2006)
 

Brad Mehldau | Foto: Divulgação

 

 
Mehldau toca Chico e elogia Simone
Pianista surpreendeu ao fazer versão de “O que Será (À Flor da Pele)”, reproduzida quase nota por nota
 
Não faltaram surpresas no concerto do pianista Brad Mehldau no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, na sexta-feira. A maior delas foi uma reverente versão de “O que Será (À Flor da Pele)”, de Chico Buarque, com a melodia reproduzida quase nota por nota – algo raro nas interpretações do jazzista.O mais curioso é que essa nova prova da admiração que Mehldau costuma declarar pela música brasileira não se deve à gravação de Milton Nascimento, artista de grande prestígio nos círculos do jazz, mas à da cantora Simone. Pouco antes de viajar para o Brasil, Mehldau revelou à Folha que aprecia a intérprete. “Descobri Simone no ano passado e foi como conhecer Sarah Vaughan ou Dinah Washington. Ela tem uma identidade forte, canta com muita paixão e graça”, derramou-se.
 
O tributo do norte-americano à música brasileira não parou por aí. Quando voltou ao palco para o bis, Mehldau surpreendeu a platéia com uma sensível interpretação de “Viver de Amor” (Toninho Horta), canção que já havia tocado no Tim Festival, em 2004. O pianista pode ter desapontado fãs dos Beatles, deixando fora do programa suas releituras, mas não frustrou os fanáticos pela banda Radiohead. A quase solene versão de “Knives Out” mostrou que seu trio até ganhou mais vigor com a entrada do baterista Jeff Ballard.Tocando dois standards do jazz, Mehldau exibiu com brilho seu método de desconstrução. Tomou a sofisticada balada “The Very Thought of You” como ponto de partida para longos improvisos. Já na romântica “All the Things You Are”, seguiu o caminho inverso: como se montasse um quebra-cabeça, improvisou pinçando fragmentos da melodia até recompor o tema original. O jazz norte-americano pode não viver hoje uma de suas fases mais inventivas, mas Mehldau é uma estimulante exceção.
 
BRAD MEHLDAU    
 
Jornal FOLHA DE S.PAULO
Carlos Calado | Colaboração para a FOLHA
São Paulo (SP) – 05.06.2006
 
 

 
Brad Mehldau Trio
O QUE SERÁ (Chico Buarque)