SIMONE POR HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO

“Queremos oferecer o que se buscou lá no fundo e o que deixaram vir à tona. Que vocês amem SIMONE, como nós a amamos”
 
“Simone é essa lâmina gotejada, ser dividido entre mulher e anjo”.
(Hermínio Bello de Carvalho, 1975)
 


Release
GOTAS D’ÁGUA (1975)
Por Herminio Bello de Carvalho

 

Simone eu a conheci há menos de três anos. Acho que era uma tarde fria, e a casa onde estávamos ficava em São Bernardo do Campo. Falei em casa, mas era chalé com muita grama em volta. Nós sentamos lá fora, numa dessas mesas de concreto, a “Mescalina” refastelada em meu pé.

Me lembro de seu carinho em servir-me na boca as trouxinhas de arroz-feijão-carne seca que preparava com as mãos, costume que ela, baiana de Capricórnio, e eu, carioca ariano, aprendemos a cultivar. Fomos então prum canto da casa (tinha lareira? – sei que eu estava meio bebinho de uisque) e então lhe forneci uma leitura nova, interiorizada, do “Voltei pro morro”, que a Carmem cantava jogando tudo pelas mãos. Por favor, não é que eu não gostasse; mas eu sentia de outro jeito também. Isso não vem ao caso, afinal.

Mone havia lançado seu primeiro LP há pouco – e coincidiu que andava eu procurando uma cantora para integrar um espetáculo cuja direção me fora confiada. Não alongando a história: escolhi SIMONE ( “Você é louco!” – Uma desconhecida!”) e produzi um LP específico para o mercado Europeu – uma preparação de terreno, enfim. O espetáculo foi para a Bélgica, Alemanha e França ( no místico Olympia) a brasilidade do trabalho foi amplamente assumida, era uma espécie de panorama que englobava manifestações populares com outras aculturadas: maculelê, samba-de-roda, bossa nova, candomblé, chorinhos, capoeira.

O trabalho acabou repercutindo nos Estados Unidos. Voltamos ao Brasil e gravamos outro LP (“Festa Brasil”, que deu nome ao novo espetáculo, um pouco reformulado) que, igual ao “A Bruxelles”, ficou distribuído só no mercado exterior. Foram 3 meses entre Estados Unidos e Canadá, com a crítica falando sempre da figura morena, de temperos tão fortes.

Assim ela foi criando seu nome no exterior – mas e no Brasil? Aqui se começava a falar de SIMONE e o LP “Quatro Paredes” veio colocá-la em evidência junto ao público e à crítica.

Este “Gostas d’água” tem muito a ver com o empoçamento que existe em seu coração. SIMONE é essa lâmina gotejada, ser dividido entre mulher e anjo.

Convidei Milton Nascimento para co-produzir este disco numa busca de soma, num momento em que, tantos se dividem. Porque para nós, Bituca é uma espécie de igreja. Sua admiração por Simone facilitou os trabalhos, e vocês podem observar pela Ficha Técnica a qualidade dos músicos que conseguimos agrupar nesta gravação. De Abel, Dino até o “som imaginário”.

Queremos oferecer o que se buscou lá no fundo e o que deixaram vir à tona. Que vocês amem SIMONE, como nós a amamos”

 

Release
SOU EU (1992)
Por Herminio Bello de Carvalho

 

20 ANOS DEPOIS …
“Não, não saberia viver longe de um palco, sem cantar. Porque cantar é a razão da minha vida.”

A frase é de uma Simone mais introspectiva, preocupada em fazer o balanço de uma carreira que está completando vinte anos agora. Pretexto, aliás, para entrar em estúdio e gravar um disco comemorativo (“Sou Eu”), onde recontempla sua trajetória, desde o tempo em que fazia o velho circuito dos clubes e bares, tão familiares aos iniciadores de uma carreira de cantor.

Ela e o violão de sua amiga Elô. Mais econômico e minimalista impossível. Os cachês eram ridículos, os lugares quase sempre deficientes, a luz precária e o som geralmente de má qualidade. Mas já havia a crepitação do fogo queimando o coração e a garganta doida para soltar a voz. E essa doidice levava Simone Bittencourt de Oliveira a cantar de tudo: do “Bambolêo” ao “Matriz e Filial”, dos repertórios de Carmem Miranda e Jamelão, respectivamente. Mais eclética, impossível. Também, não faltavam Tom Jobim, Ivan Lins, Tayguara. Tudo isso arrematado com um hino de Dalva de Oliveira, o celebrado “Bandeira Branca”.

Grande e desajeitada, já querendo ser bonita, a jogadora de basquete começava ali uma trajetória que culmina agora com este afirmativo “Sou Eu”, uma compilação do recente e magnífico show que fez sob a direção perfeita de seu amigo Ney Matogrosso.

“Gostaria que se dissesse da dificuldade que foi chegar aqui, como tudo é tão difícil, como fazer sucesso é difícil, como permanecer é difícil!”. Fala agora não como uma lutadora que sempre foi, mas como a mega estrela que se tornou e não consegue dormir sob os louros conquistados. É preciso ir mixar o seu disco em Los Angeles? Ela vai. Como tranqüilamente pega um avião para a Espanha e o Japão, entra num estúdio com Plácido Domingo e com ele reparte uma faixa num disco que irá percorrer o mundo. “Difícil mesmo foi conter a emoção de conhecer o Milton (Nascimento) entrar com ele num estúdio para gravar “Gota d’água” do Chico”, confessa agora. “Meu coração disparava, parecia um relógio com disritmia. Era meu ídolo, cantando ao meu lado”. Lembro desse dia, e de muitos outros: Simone havia gravado em 1973 em LP produzido um tanto às ocultas (o diretor artístico efetivo da Odeon, Milton Miranda, estava de férias) pelo gerente de marketing daquela gravadora, Moacyr Machado, desaparecido recentemente. Ele foi o primeiro homem da indústria do disco a apostar no talento de Simone. Era uma produção de baixo custo: a capa em branco-e-preto, poucos músicos arregimentados pelo orquestrador José Briamonte, disco realizado às pressas em 2 ou 3 sessões diretas (“praticamente não havia verba”, me explicou Moacyr Machado à época).

Sucesso? Nada muito além dos aplausos familiares e de algumas companheiras da equipe de basquete e de corajosos e atentos programadores que ousaram colocar aquela iniciante audaciosa, que arriscava trocar as quadras de esporte pelo competitivo mercado da música.
“Foi muito difícil. Mas valeu a pena”. Foi Moacyr quem me levou até sua chácara em São Bernardo do Campo para conhecer aquela quase menina. Tímida, um tanto arredia, ali mesmo arrisquei uma releitura do “Voltei pro morro”, sucesso da Carmem. Levava jeito. Mas ou menos nessa época eu havia revelado a Clementina (de Jesus), o Paulinho da Viola e o Roberto Ribeiro em produções que alcançaram um razoável sucesso de crítica e público. Moacyr intuía e apostava que eu repetiria a dose com Simone. Eu havia sido contratado pela “Aulus”, do corajoso Walter Santos, para levar um show para a Bélgica passando antes pela França e Alemanha. À última hora Elza Soares preferiu continuar sua carreira de sucesso no Brasil e em seu lugar entrou, adivinhem quem? claro, Simone.

A estréia foi no mítico “Olympia” de Paris. Todos nós trememos na base. A novata, acompanhada pelo violão de João de Aquino e o Tamba Trio de Luizinho Eça, mereceu do “France Soir” uma crítica honrosa: “Grande cantora com sorriso de madona, felina até as unhas, com uma frágil sensualidade em cada uma de suas interpretações”. Léo Brouweir, o mais proeminente compositor da vanguarda cubana, endossou depois esse elogio. O show foi assistido pelo empresário Mel Howard da Madison Square Garden Productions e contratado para uma temporada de 3 meses nos EUA e Canadá. Serviu de pretexto para gravarmos 2 LPS (“A Bruxelles”, para o mercado Europeu e “Festa Brasil” para o norte americano).

Em 1974 produzi o “Quatro Paredes” e convidei Milton Nascimento para repartir comigo a produção, em 75/76, do “Gotas d´água”: a música de Chico (referenciada pluralmente no título do LP), cantada em dueto com Milton, leva a emocionada voz de Simone para todo o Brasil. No rastro, “Matriz e Filial” – o tal sucesso de Jamelão que ela cantava nos bares da vida, Elis Regina, num rasgo de generosidade, me apresenta ao repertório de João Bosco/Aldir Blanc, e o “De frente pro crime” é gravado por um coro formado pelo MPB-4 e um jovem recém chegado de Brasília chamado Oswaldo Montenegro. O “Jura Secreta” e “Face a face” (música que dá título ao seu LP de 1978) revelam a dupla talismã de Simone: Sueli Costa e Abel Silva.

Voltei a dirigí-la (“Face a faca”) em teatro, o Clara Nunes, com as sobras financeiras que o Marcos Lázaro catou de uma produção do Roberto Carlos. Ney Matogrosso ficou perplexo quando listei o repertório daquele show: do “Rei” Roberto a Chico Buarque, passando por Milton, Herivelto, Manzanero, Gonzaguinha, Dolores Duran, Wilson Baptista, Simone cantava até o “Cabecinha no ombro”, que o Fagner e Sula Miranda ressuscitaram à pouco. Ensaiávamos 10, 12 horas por dia. O “Face a faca” provou que os teatros começavam a ficar pequenos para Simone. A excursão para o Projeto Pixinguinha, em 1978, acabou provando que nascia a mais nova sensação da música popular brasileira. A revista VEJA abriu espaço para Simone em 2 edições seguidas. A óbvia opção, a partir dali, seria os estádios, os teatros com mais de 1000 lugares. Os discos de ouro o platina começaram a se suceder, as excursões ao exterior se intensificaram. Simone: sinônimo de sucesso, casas super lotadas, megas shows super produzidos, a mídia devassando sua intimidade, ela provocativamente aceitando o jogo. Suas convicções místico-religiosas as expõe no palco: as rosas brancas levadas pelo fiel guru Mário Troncoso.

Garantiu espaço nos comícios pelas “Diretas Já”, achando-se madura para as opções políticas que se apresentavam. “Foram muitos erros e acertos”, contabiliza hoje um tanto amargamente. Não subirá mais em palanques para cantar o “Pra não dizer que não falei de flores”, de Vandré? E as 100 mil vozes que a acompanharam no Morumbi em 82? Elas se multiplicaram formando a legião que continuou seguindo a cantora apesar dos tais erros e acertos que ela expõe com a franqueza habitual. Prova de acerto: a presença de Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento e Gal em alguns de seus discos, reverenciando seu talento. Erros? Alguns deslizes no repertório que a fizeram faturar criticas carrancudas. A qualidade do repertório volta por inteiro neste “Sou eu”.

“É, baixei todos os tons” – concorda com minha observação. Sua voz ficou mais densa, incorporou um sentido jazzístico na exposição dos temas de algumas músicas como o “Jura Secreta”: a melodia é re-exporta com mais liberdade. O registro da voz é de contralto mas com tessitura ampla: desde a direção do grande Flávio Rangel se apaixonou pela sustentação de algumas notas mais agudas: parece receber Callas ou Judy Garland nessas horas. “Quero que você, aqui, nessa hora, pareça uma cantora de ópera!” – imagino escutar Flávio Rangel dirigindo-a naquele memorável show do Canecão (“Quando fui apresentada a ele com aqueles cabelos brancos, disse para mim: PQP, mais um pra infernizar minha vida! Lembrei logo do nosso show!”, relembra com carinho).

“Sou eu” (a música título do CD / K7 / LP é de Eduardo Dusek) guarda o mesmo título do esplendido show que devolveu à Simone o público que sempre a prestigiou enquanto prevalecia a qualidade do seu repertório. Ney Matogrosso foi o responsável por essa reviravolta: elegantíssima num longo branco, sapato altíssimo que a faz ganhar uma dimensão inusitada no palco e uma emoção que ela optou pro levar ao estúdio, na impossibilidade de gravar ao vivo o “Sou eu” – mas como se estivesse no palco (“estou até semitonando, brinca ao telefone”) – opção que o seu produtor Mazzola apoiou.

“Raios de luz”, que enobreceu a recente novela “De corpo e alma”, convive com o “carinhoso” de Pixinguinha / João de Barro e um repertório variado que mistura Caetano Veloso, Isolda, Gonzaguinha, Vinícius de Moraes e outros compositores.

Fosse gravar uma retrospectiva de seus 20 anos de carreira, talvez tivesse que optar por um CD triplo. Porque os sucessos foram muitos e nada desmente que a trajetória qualitativa de Simone retomada com “Sou eu”, vá ser interrompida a partir de agora. A boa música brasileira volta a brilhar através de sua voz poderosa, que em breve pousará num trabalho conceitual de grande importância.
Certa vez escrevi que “Simone é um animal selvagem, de crina prateada, que ao subir num palco se exerce como sacerdotisa de um culto ecumênico, onde, através da música, exorciza todos os demônios”. É o que sigo pensando.

Pergunto, enfim, : começaria tudo outra vez? “Sem dúvida”, responde “apesar de todas as dificuldades”.

 

Release
BAIANA DA GEMA (2004)
Por Herminio Bello de Carvalho

 

SIMONE, BAIANA DA GEMA
(OU COMEÇAR DE NOVO)
O LP é de 1973, e a moça da capa parece tristíssima, ou talvez aperreada como sempre fica quando tem que posar para uma nova capa de disco. O contraste da foto é gritante com essa de hoje: aquela menina agora é mulherona, mais viçosa e bonita, mas a fidelidade é a mesma : numa das faixas do disco inicial está lá, entre Tayguara e Joyce, aquele moço chamado Ivan Lins. A menina já ousava.

Registro que o Lp foi meio que feito às escondidas, numa travessura ardilada por Moacyr Machado, o Môa, Gerente de Marketing da fábrica de disco. A ousadia foi depois aprovada com louvor pelo Milton Miranda, então diretor da Gravadora, quando voltou das férias.

Deus, graças a Deus, não me tatuou nenhum pigmento de inveja na pele da alma. Mas com esse novo disco de minha Simone tão amada, ah! bem que tentou. É tanta música boa que fico pensando assim: deviam ter me convidado para entrar nesse bloco nem que fosse pra chacoalhar um pandeiro ou bater um tamborim, ainda que correndo o risco de fazer o ritmo atravessar. Mas, pelo menos, pegaria um pouco dessa energia bonita que esse disco esparge em todas as suas faixas.

Nesse percurso de mais de 30 anos (a conheci em São Bernardo do Campo, na casa do já cirtado Môa), essa menina outra coisa não tem feito na vida a não ser desafiar as regras do mercado, a rigidez dos críticos, e até aturdindo seu público. Alguns deles achavam que a capricorniana estava adulando o mercado, para outros se propondo desafios. Lembro do disco com Martinho da Vila: que história era aquela, a de gravar sambas, e logo os do Martinho? Como se as músicas de meu querido parceiro fossem um território onde só ele pudesse pisar.

Uma vez alguém, por certo muito despeitado, me falou que Simone carregava nesse sotaque baiano por pura afetação. E eu me gasto a inteligência explicando como era saudável se manter essas diferenciações, que elas é que mostram com quantos paus se faz uma canoa, com quantos Estados se faz um Brasil. E o gosto de Mone viaja por Chico Buarque, Altemar Dutra, Dalva de Oliveira, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, Manzanero, dores de cotovelo alternadas com músicas pulsantes – ela sempre obediente ao que lhe dita o coração. É feito o cabelo, que o tinha farto. De repente, vapt!, o tosou e continuou linda. Mutante.

Me sinto um pouco em Salvador, 1974, vendo essa baiana de gema carioca descendo a Ladeira do Quebra-Bunda sem muita saia rodada, é verdade, mas com a voz já cheia de plissés, distribuindo acarajés carregados no dendê – e meio desengonçada (também é verdade). Porque nessa época jogava basquete, aprendia um pouco de violão com a amiga Elô (ótima compositora, e primeira ou segunda pessoa a acreditar e apostar nela). Estávamos às vésperas de embarcar para a Europa com a Elsa Soares e o Quiinteto Violado e mais o grupo Viva a Bahia, e ainda tenho que atender, por insistência de Môa, àquela menina altíssima, com beleza alvorescente, que está agora aqui diante de mim mostrando as coisas que sabe cantar.

Comemos ali mesmo, fazendo fradinho com as mãos, sua voz grave já sendo uma das características que logo me cativou: grave e bonita, ainda a palo seco. Ali mesmo, animado também pelos uísques, faço uma espécie de laboratório com aquele samba gravado pela Carmem Miranda, que falava de um cachorro vira-lata, da cuica e do ganzá, claro! samba do Assis Valente. Pra encurtar a história: Elsa e o Violado não puderam ir, então pegamos o Tamba Trio, mais o João de Aquino e o também emergente Roberto Ribeiro. Agora está lá a baiana pisando o mítico palco que Piaf consagrara: o Olympia. Que esnobismo: pisar pela primeira vez num grande palco, e logo no Olimpiá!, e depois Alemanha e Bélgica.

A temporada ganhou desdobramento, e foram mais três meses entre Estados Unidos e Canadá, sem o Tamba – substituído por Tenório Junior, Chiquito Braga e Paschoal Meirelles. Convoquei o saudoso Luizinho Eça para fazer os arranjos de um disco para o mercado externo, porque ele já havia percebido o potencial da cantora (também percebido por Leo Brouwer, quando mostrei a ele uma prova do disco de Mone).

Produzi quatro discos que se seguiram àquele inicial do Môa, apresentei-a a Milton Nascimento e ei-la gravando magistralmente com, o Bituca o “Gota d’água” do Chico Buarque. E mais Aldir e Bosco (Elis foi generosa em liberar o repertório da dupla por ela revelada), Toninho Horta, Wilson Batista (com arranjo do Wagner Tiso) – e a gente meio que estreando o Teatro Clara Nunes com as sobras de orçamento de uma produção do Roberto Carlos, na época representado pelo Marcos Lázaro – quantas estórias! ( Não foi pra isso que me pediram esse texto?).

Ei-la agora, Porta-Bandeira desse grande Mestre-Sala que é Ivan Lins – e o que se pode querer mais?

Não se faz um bom disco sem um bom diretor de harmonia, cuja responsabilidade é justamente dar a liga da massa, juntar as pontas, cerzir a bainha que possa estar, aqui e ali, fazendo destoar o figurino. Paulinho Albuquerque tem essa missão.

Costurar bem o repertório é tarefa por vezes difícil. Porque é preciso que a dona do disco, a que vai puxar o enredo dessa escola, seja do ramo. Por vezes sambista, por vezes bluseira, minha Simone cumpre bem o signo que a rege, ela nascida em 25 de dezembro, aniversariando junto com Jesus Cristinho, com ele disputando os incensos e mirras e ouros trazidos pelos Reis Magos que se desviaram da rota de Belém para abençoá-la na Bahia. Reis Magos : Baltazar, Gaspar e Belchior. Ou talvez Pixinguinha, Donga e João da Bahiana – não estou bem certo.
Não há muito que falar do disco, porque isso é tarefa para os críticos de música. Posso afirmar apenas que Ivan Lins nunca perdeu o seu espaço como um dos grandes compositores surgidos pós Tom Jobim. Depois de nos legar verdadeiras obras primas com seu parceiro Vitor Martins, saiu em busca de novos letristas – e não há porque duvidar que suas novas escolhas foram perfeitas: de Paulinho César Pinheiro, abrindo o disco com explícita homenagem à Mone, à talentosa Elisa Lucinda, cuja letra minimalista fecha esplendidamente o CD. Mas temos ainda letristas do porte de Celso Viáfora, Flora Figueiredo, Joyce, mestre Aldir Blanc, Martinho da Vila e Francisco Bosco. O quesito fidelidade, vê-se, foi mantido: e Vitor Martins chancela a velha parceria com outra pérola.

Os músicos foram escolhidos a dedo, e cada participação foi anotada com todo cuidado no encarte: Claudio Jorge e Pedro Jóia (violão 6), Carlinhos 7 cordas, Bororó (baixo elétrico), Zeca Assumpção (baixo acústico), Ricardo Silveira (guitarra) Armando Marçal (da grande dinastia) na percussão, onde também apontamos Marcelinho, Ovídio, Zero e Gordinho. Jurim Moreira e Jorge Gomes (bateria).

Ivan Lins comparece com seu piano elétrico em 11 faixas, assinando ainda 3 arranjos. Os restantes ficaram por conta da magia desse grande Gilson Peranzzetta. Martinho reparte sua voz com Zeca Pagodinho e Dudu Nobre no samba que compôs com Ivan, “Saravá”! Saravá!“ E ao fazer essa saudação ladeada por tão importantes sambistas, ela nem precisa deitar seca-pimenteira à porta de casa para espantar maus olhados, porque esse disco é um breve contra a luxúria e as invejas, com tantos anjos a guardar seu caminho, benzido pelos Deuses

Sabe-se que Capricórnio é o décimo signo do zodíaco, e Simone é da décima constelação – a que fica entre Sagitário e Aquário. Talvez a chama da fidelidade resida por aí.

 

 
 
PARCERIAS MUSICAIS

Desde 1973 Hermínio faz parte da caminhada de Simone pelo mundo da música. Produtor de fundamentais discos gravados por ela nos anos 1970, diretor de show, incentivador, a parceria vai além, Simone e Hermínio também compuseram algumas músicas:

(música sem nome) FOI MAIS UM CASO (Simone e HBC), 1976 *

 

(música sem nome) ‘SE NÃO VALEU A PENA’ (Simone e HBC), 1976 *

1974 AcervoHBC Poema

* OS DOIS áudios acima foram extraídos de entrevista de Simone concedida a Aramis Millarch, em 1976

 

À BEIRA DOS LENÇÓIS/ VALE A PENA TENTAR (Simone e HBC), 1977
gravada por Simone em 2009 no álbum NA VEIA

 


PRIMEIRA PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Primeira participação de Simone em disco de outro artista, o  álbum ‘Sei lá’ (Odeon, 1974) de Hermínio Bello de Carvalho, que conta também com a participação especial do Tamba Trio (Luizinho Eça, Bebeto Castilho e Hélcio), gravado nos estúdios da Odeon no Rio de Janeiro RJ. Simone canta, com Hermínio, ‘Fora de Hora’ (Eduardo Marques/Hermínio Bello de Carvalho) e, sozinha, ‘Salamargo’ (Eduardo Marques/Hermínio Bello de Carvalho). O álbum ‘Sei lá’ foi lançado em 21.03.1974.

Fora de Hora
(Eduardo Marques / Hermínio Bello de Carvalho)
SIMONE e HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO 

E a saudade foi bater
fora de hora
E o coração outra vez
se machucou
E quem mandou se machucar
fora de hora
Foi a saudade que no coração entrou
Minha saudade

Entrou sem pedir licença
E logo ajeitou o seu lugar
Desacomodou a pessoa dessa casa
E de mansinho resolveu se acomodar

No que entrou
essa pessoa entristeceu
E de um tal jeito
que mal pode aguentar
E o coração
que era fraco baqueou
Deu no que deu
Ninguém pode segurar


 

Salamargo
(Eduardo Marques/Hermínio Bello de Carvalho)
SIMONE 

Pede pelo amor de Deus
É fácil, tão fácil
Pedir o meu perdão
Tão fácil, tão fácil
Difícil é perdoar

O que eu passei
As dores mais cruentas que eu passei
As coisas dolorosas que amarguei
As provações amargas que eu danei

Até aí confesso que é fácil
Porém, a partir daí, lembrar de ti,
Amargo

Meu Deus é tão difícil
O ofício difícil
É, não tenho palavras pra dar
Na boca vai ficar um salamargo
Aí vai azedar todo passado
Aí então vai ser muito difícil
Morrer, morrer


 


FOTOS
Simone e Hermínio Bello de Carvalho
pela estrada, desde 1973 …

 
Simone, Hermínio Bello de Carvalho e Tamba Trio
GRAVAÇÃO DO ÁLBUM SEI LÁ
Estúdio Odeon – Rio de janeiro (RJ) – 1974

Fotos: Irma Ametrano / Acervo Hermínio Bello de Carvalho
 


VÍDEOS
AMIGO É CASA – Música de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, cujo título consagrou a maravilhosa parceria de Simone e Zélia Duncan.
 
Extras do DVD ‘Amigo é Casa’, gravado na casa de Simone no Rio de Janeiro, em 20 de março de 2008, com as participações especiais de Hermínio Bello de Carvalho, Bia Paes Leme e Cristovam Bastos (2 vídeos) 

 
Simone e Zélia Duncan cantam ‘Amigo é Casa’ no Canecão, dia 02 de agosto de 2008, com a presença de Hermínio Bello de Carvalho na platéia, a quem dedicam o show.