SIMONE NA BÉLGICA

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O Canto da Cigarra em Bruxellas

Pelo-Mundo-Belgica

A convite de Hermínio Bello de Carvalho, Simone parte para a Europa, em finais de outubro de 1973, ao lado de Roberto Ribeiro, João de Aquino, Tamba Trio e do Odoiá – conjunto folclórico baiano de música e dança. O foco da turnê é a apresentação do espetáculo Panorama Brasileiro na grande Feira Brasil-Export 73, em Bruxelas, na Bélgica. Antes, o espetáculo já havia passado por Paris, França, e Colônia, Alemanha.

 

 
 
‘Há Simone, grande cantora com sorriso de madona, felina até as pontas dos dedos e de uma sensualidade delicada, em cada uma de suas performances, que é só afinação com Roberto Ribeiro’.
 
‘Il y a Simone, grande chanteuse au sourire de madone, féline jusqu’au bout des ongles et d’une sensualité fragile dans chacune de ses interprétations, que vient relayer Roberto Ribeiro’.

(Andre Drossart, Le Soir, Bélgica, 09.11.1973)

 


APRESENTAÇÃO

 

 

BRASIL-EXPORT  ’73

(…) No segundo semestre de 1973, Hermínio Bello de Carvalho foi convidado para comandar os espetáculos da ‘Brasil-Export 73’, uma megafeira organizada em Bruxelas, na Bélgica, com o intuito de promover os produtos brasileiros de exportação no mercado europeu. Montado nos 100 mil metros quadrados do Palais du Centenaire de Bruxelas, o evento envolvia um investimento de 5 milhões de dólares e contava com quatrocentos empresas expondo os mais variados produtos, de roupas e calçados a maquinaria pesada. Era alardeado pelo Ministério da Indústria e Comércio como uma demonstração da capacidade industrial e de exportação do país, além de, paralelamente, oferecer um panorama do nosso potencial turístico e de nossa cultura através de filmes, publicações, exposições, concertos e espetáculos de música.

‘Brasil-Export 73’ refletia a expansão pela qual o país vinha passando, sob a presidência do general Emílio Garrastazu Médici. Com o Produto Interno Bruto crescendo cerca de 12% ao ano e milhões de empregos sendo criados, o período acabou conhecido como Milagre Econômico. O principal objetivo da feira na Bélgica era mostrar isso ao resto do mundo.

Ao mesmo tempo, o país que apresentava aqueles índices vivia sob uma ditadura que censurava, prendia e torturava. Integrar um evento promovido por esse governo podia, de certa forma, sugerir um endosso a tudo o que estava acontecendo por aqui. Hermínio não se preocupou com esse tipo de análise, ele encarou o convite como um outro qualquer. Queria apenas liberdade para montar o espetáculo da maneira que achasse melhor, sem interferências – e isso ele teve.

Inicialmente, o elenco seria encabeçado por Elza Soares e Roberto Ribeiro – artistas que Hermínio produzira em disco, no ano anterior – com o acompanhamento do Quinteto Violado. A cantora e o grupo não puderam ir, porque estavam com compromissos agendados para o mesmo período. No lugar de Elza, entrou uma cantora novata chamada Simone. Nascida em Salvador, ex-jogadora da seleção brasileira de basquete e ex-professora de educação física em Santos (SP), Simone contava 23 anos e, após ser aprovada em um teste na gravadora Odeon, acabava de estrear em disco, com um LP que levava seu nome no título.

Além de Simone e Roberto Ribeiro, faziam parte do elenco do show ‘Panorama Brasileiro’ o violonista João de Aquino, o Tamba Trio e um conjunto folclórico baiano de música e dança chamado Odoiá. Antes de estrear na ‘Brasil-Export 73’, o espetáculo fez uma pela turnê pela França e Alemanha, com sucesso de crítica e de público em todas as cidades por que passou. Quem não gostou muito foi um cônsul brasileiro – do qual Hermínio não se recorda o nome – que avaliou como inoportuno o sotaque demasiado africano do grupo Odoiá, cuja encenação fazia referência ao candomblé. Aquilo, segundo o cônsul, maculava a imagem do Brasil no exterior.

Acontece que, para alguns europeus, a imagem do país já não era das melhores – e por outro motivo. Durante a feira em Bruxelas, grupos belgas de esquerda infernizaram a vida dos organizadores do evento, promovendo diversas manifestações contra a ditadura brasileira. Sobrou até para os artistas, que tiveram de interromper uma das sessões do espetáculo e sair correndo do teatro por causa de uma suspeita de bomba no local, que depois não se confirmou.

Depois de dois meses (outubro e novembro) na Europa, Hermínio voltou ao Brasil com a sensação de missão cumprida. Ao menos do ponto de vista musical, a feira parecia ter realizado seu papel de chamar a atenção dos estrangeiros para o Brasil’. 
(Alexandre Pavan, em ‘Timoneiro – Perfil Biográfico de Hermínio Bello de Carvalho’, Casa da Palavra,2006)
 

 

IMPRENSA

 

 

Panorama Brasileiro à l Auditorium 44
Um luxuriant prêt-à porter- pour des musiciens exceptionnels
 
André Drossart, Le Soir, Bruxelles, Belgique, vendredi, 9 novembre 1973
 
Lê spectacle – Panorama brasileiro – lancé mercredi soir par les soins du Comité, organisateur de la Foire brésilienne d’exportation à l’Auditorium 44, pourrait bien se révéler l’evénement musical de cette semaine saturée. Malgré les soupçons légitimes. Malgré l’étiquette “Export”. Malgré les pépins techniques qui ont marqué cette entrée em matiére. Leur carte de visite, les artistes brésiliens l ónt rodée depuis belle lurette. Leur mision officielle, ils la rachètent par une vitalité, une enérgie, une authenticité même confuse. Leur métier, et ce qu’il pourrait asphyxier au niveau des intentions, est balayé par une frénesie décisive qui enlève l ‘adhésion.Il ya a lá le “ Trio Tamba”  conduit par un pianiste de haut vol Luis Eça, disciple de Hans Graf et de Martha Argerich mais qui n ‘hésite jamais à lorgner du côté  d ‘Herbie Hancock pour le phrasé ni de Miles Davis pour les arrangements. Un bassiste, Bebeto et um percussionniste, Helcis (sic) Milito, créateur officiel de la bossa nova avec João Gilberto, complètent ce  “Trio Tamba”  d’um éclectism et d’une vigueur parfaites. Il ya a encore um petit guitarriste extraordinaire de pudeur et de technique, João de Aquinho (sic), propre neveu de Baden Powell auquel il doit sans doute cette finesse de doigté. MACUMBA Il y a Simone, grande chanteuse au sourire de madone, féline jusqu’au bout des ongles et d’une sensualité fragile dans chacune de ses interprétations, que vient relayer Roberto Ribeiro. Puis c’est l’explosion avec le groupe Odoia Bahia. Dans un grouillement de “berimbaus” et de percussions en délire, neuf filles et sept garçons jouent à la transe. La “macumba” démarre. Les hommes semblent sortir d’un “film karaté” produit à HongKong. Les filles, on pourrait les comparer aux petites filles modèles de la comtesse de Ségur. Mais leurs chemisiers de dentelle blanche transparente enlèvent très vite toute illusion… 

Le culte des “orixas” se développe ao millieu des bougies éclairées, du chatoiement de costumes qu´on croirait récupérés d’um Cecil B. de Mille de la grande époque. La grande liturgie africaine est aiguillonnée par ce flot de danseurs, habiles à dramatiser le “maculélé” et la “cappeira” (sic), ces danses rituelles de Bahia que leurs interprètes survoltent em maniant les “grimas” (sic), ces petits bâtons de bois dur au son des “atabaques” et de “apogos” (sic), percussions d´origine africaine. 

De Rio à Bahia, le culte des ancêtres revir, l’espace de deux heures et on ne sait plus qu’admirer le plus: la beauté des danseurs, le rococó des costumes, la fluidité frénétique de la musique ou la mise em scène, très libérée, que signent Hermínio Bello de Carvalho et Marcos Flaksmann.

Du beau travail. Dommage que le Brésil ne se contente pas de n’exporter que ces luxuriants “prêt-à-porter”.

 

Panorama Brasileiro no Auditório 44
Um luxuoso pronto a vestir para músicos excepcionais
 
André Drossart, Le Soir, Bruxelas, Bélgica, sexta-feira, 09.11.1973 
 

O show – Panorama Brasileiro –  lançado quarta-feira pela comissão organizadora da Feira Brasil Export no Auditório 44, poderia muito bem ser o evento musical desta semana plena de atrações. Apesar das suspeitas legítimas. Apesar do rótulo de “Exportação”. Apesar de problemas técnicos que marcaram a sua estréia. Seu cartão de visita, os artistas brasileiros que com ele já contaram durante algum tempo. Sua missão oficial eles cumpriram com vitalidade, energia e autenticidade, mesmo confuso. 

Seu trabalho, e que poderia asfixiar o nível das intenções, é varrido por um frenesi decisivo que supera as associações. 

Há o “Tamba Trio”  liderado por um pianista de altos vôos, Luis Eça, discípulo de Hans Graf e Martha Argerich, mas que jamais hesita  em olhar para o fraseado de Herbie Hancock ou para Miles Davis nos arranjos. Um baixista, Bebeto,  e um percussionista, Helcis (sic) Milito, criador da bossa nova com João Gilberto,  preenchem o “Tamba Trio” de ecletismo e de um vigor perfeitos. 

Ainda há um pequeno guitarrista extraodinário em modéstia e técnica,  João de Aquinho (sic), sobrinho de Baden Powell a quem ele deve, sem dúvida, habilidade de dedilhar. 

MACUMBA 

Há  Simone, grande cantora com sorriso de madona,  felina até as pontas dos dedos e de uma sensualidade delicada, em cada uma de suas performances, que é que é só afinação com Roberto Ribeiro. 

Então é a explosão com o grupo Odoia Bahia. Em um fervilhar de “berimbaus” e percussões em delírio , nove meninas e sete meninos  tocando quase até o transe. A “Macumba” se inicia. Os homens parecem sair de um “filme de karatê”, produzido em Hong Kong. As meninas, poderíamos compará-las com as meninas modelos  da condessa de Ségur. Mas suas blusas de renda branca transparente removem rapidamente toda a ilusão … 

O culto dos “orixás” desenvolve-se em meio a velas acesas, os trajes brilhantes que nós julgamos terem sido recuperados de Cecil B. de Mille nos seus áureos tempos. A grande liturgia africana  é estimulada pela enchente de dançarinos, hábeis a dramatizar o “maculelê” e “cappeira” (sic), as danças rituais da Bahia com seus intérpretes voando e empunhando “Grimas”, pequenos bastões de madeira ao som de “atabaques” e “apogos” (sic), percussão de origem africana. 

Do Rio a Bahia, o culto ancestral revive no espaço de duas horas e não sabemos o que admirar mais: a beleza das dançarinas, os figurinos em estilo rococó, o fluxo frenético da música ou o cenário, muito livre, assinado por  Hermínio Bello de Carvalho e Marcos Flaksmann.

Bom trabalho. Pena que o Brasil não exporte mais conteúdo do que estes exuberantes “prêt-à-porter”.

Livre tradução


DISCO

 
(…) Simone vai a Bruxelas em fins de outubro para participar de um show da ‘Brasil – Export 73’ que será dirigido por Hermínio Bello de Carvalho. Junto com Simone vão o Tamba Trio, Roberto Ribeiro e João de Aquino.
O disco com as músicas que eles cantarão no show já está pronto e tem o mesmo nome da feira: ‘Brasil-Export 73’. Como o nome indica, é um disco de exportação. Dele foi tirado um compacto para que os brasileiros possam ouvir a Simone mais á vontade descontraída, que se se apresentará em Bruxelas cantando três sambas de roda e um repertório de Carmem Miranda: ‘Voltei pro morro’.
 
(Regina Penteado, Folha de S.Paulo, 21.08.1973)
 

 
 
 
 
Simone e João de Aquino e Roberto Ribeiro
 

LOCAL

 

Palais du Centenaire | Bruxelas, Bélgica
O show ‘Panorama Brasileiro’ foi apresentado no Auditorium 44, na ‘Feira Brasil-Export 73’

Palais Centenaire - Bruxelles