Show revê canções românticas e existenciais que marcaram época


O show de SIMONE e IVAN LINS que começou há pouco uma turnê pelo país e esteve ontem à noite em cartaz no Rio de Janeiro evoca um tempo – entre os anos 1970 e início dos 80 – em que a MPB estava em pé de igualdade com o samba e a música brega, ou seja, caiu na boca do povo. Músicas com melodias lindas, harmonias surpreendentes e letras deslumbrantes, na maioria, assinadas por VITOR MARTINS, um gênio pouco falado, mas que nada deixa a dever a seus contemporâneos Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Gil, Gonzaguinha, Caetano e Chico Buarque.

RODRIGO FAOUR | FACEBOOK | 08.04.2018

Foto Marcelo Castello Branco
Foto: Marcelo Castello Branco

Como historiador e até professor de MPB que me tornei, me veio um filme à cabeça. A época em que a nossa música radiografou com bravura e muita coragem o estrago que a ditadura militar estava fazendo com o país, refletindo até na educação dos filhos (“Somos todos iguais nesta noite”, “Desesperar, jamais”, “Aos nossos filhos”, “Antes que seja tarde”), passando a seguir pela esperança após à queda do AI-5 (“Novo tempo) e o acerto de contas com a consciência de quem soube resistir (“Daquilo que eu sei”, dos versos: “Só não lavei as mãos e é por isso que eu me sinto cada vez mais limpo”).

Outro aspecto que me veio nesse filme mental foi toda a onda da emancipação feminina que hoje voltou novamente à ordem do dia, com novos contornos (“Começar de novo”, “Atrevida”, “Bilhete”), incluindo a busca do próprio prazer, antes um tema quase proibitivo em nossa cultura, e consequentemente em nosso cancioneiro (“Mudança dos ventos”, “Vitoriosa”). SIMONE foi uma das grande porta-vozes de IVAN e VITOR (entre outros autores) e se tornou um símbolo da mulher brasileira avançada e independente daquela época (vide a capa do LP “Pedaços”, de 1979, que refletia bem isso).

Além disso, o show revê canções românticas e existenciais que marcaram época na voz de IVAN, como “O amor é o meu país” (que o lançou em 1970 no V Festival Internacional da Canção), “A noite” e “Vieste”; o nosso mais profundo Brasil das procissões e reisados (“Bandeida do divino”), e seu lado suingado, “meio Rio, meio Havana”, “Ai, ai, ai, ai, ai”, lançada por Simone em 91, e o sambão maravilhoso que exalta o tesão, “É festa”, de Ivan com Paulo César Pinheiro, já de 2004, uma das melhores da nova safra, em que ele rima “festa” com “sugesta”, dando saudade das rimas ricas e inesperadas que a MPB sempre nos trouxe, justo neste momento em que ela está completamente alijada da grande mídia – embora seus fãs nunca a deixem morrer e lotem, como lotaram, ontem o Km de Vantagem Hall, na Barra da Tijuca, no Rio.

O cenário é lindo, a direção da ZÉLIA DUNCAN é precisa, não deixando a peteca cair, e a banda recria os arranjos originais com alguns adendos preciosos. IVAN está cantando melhor que há alguns anos. Me confidenciou no camarim que está tendo progressos com a ajuda de uma fonoaudióloga. Assim sendo, conseguiu alcançar os tons originais (agudos) de suas músicas, o que fez toda a diferença. SIMONE, linda e com seu timbre único, dá o show habitual. É um encontro que merece ser visto. Não sei se a nova geração terá esse alcance afetivo que os maiores de 40 terão, mas se não os tocar por esse viés, vale como uma aula de história recente – comportamental, política e afetiva – do Brasil.