SHOW AMAR (1982)

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show AMAR

Com Simone
Estréia: 19 de março de 1982
Local: Ginásio Do Ibirapuera, São Paulo SP

 

APRESENTAÇÃO | Simone, toda emoção solta no Ibirapuera

Chose de loque, foi o que pensei sábado passando, saindo do ginásio do Ibirapuera, depois de ver e ouvir Simone (…) Flávio Rangel me prevenira: “Você não vai assistir a um show musical. Você vai ver um fenômeno sociológico” (…) A verdade é que vira Simone muitas vezes, encaixada no vídeo: uma voz possante, um rosto belo, um corpo fino, alto, fora dos padrões brasileiros (…)
E agora vinham as enchentes, o furacão de aplausos a identificação do imenso público do Ibirapuera com a moça no palco. Um conjunto branco de calça longa e casaquinho solto, feito numa espécie de malha perolada. Uma nudez desvendada que seria erótica, apelante, arrastante para outra qualquer artista (escolham quem quiserem: Fafá de Belém, Gal, Bethânia). Mesmo deitada no palco, interpretando e martelando o estribilho: Me deixas louca!. A moça não agia num sentido sexy. (…) naquele recinto imenso onde cabiam diversas faixas etárias e sociais, o que vi foi o maior respeito pela artista. Não me chegaram aos ouvidos ditos grosseiros tão comuns quando alguém se deita para ferver o entusiasmo popular. Ninguém, nem o chamado high society que, muitas vezes, não é nada alto, leva um manual de boas maneiras em show de grande extração, ouvindo letras sensuais de canções de amor.
Pode-se dizer que, de um fôlego só, emendando música após música, partindo de Gonzaguinha, encerrando com Gonzaguinha, Simone prendeu o vastíssimo público. Fez dele o que quis. A identificação se fazia maior ou mais atenuada, conforme as músicas. Desesperar Jamais, de Ivan Lins, Começar de Novo a nos projetar o rosto de Regina Malu Duarte, Maria , Maria e Caminhando de Vandré.
Foi o delírio: platéia cantando “Vem vamos embora / que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / não espera acontecer”.
(…) E Simone prosseguiu, quilometrando pelo imenso palco, gestual, branca, longilínea, nudez sem nudez e um carisma que aconteceu como acontecem as boas coisas nacionais. Há um fundo político nessa unânime opção popular? A jovem, em entrevista, mostra-se medrosa ante o fato político. Mas também mostra “saber das coisas”. Viajou pela América Central. Voltou cantando Vandré, violão a tiracolo. Já uma senhora que não foi nenhum acontecimento no vídeo, disse uma coisa certíssima: “Sou de esquerda por uma questão de dignidade, num país como o nosso”.
Não sei nem quero saber das opções políticas de Simone. Sei que ela me emocionou, como emocionou a todos que a viram, no Ibirapuera. (…) com toda sua carga emocional encapsulada num esguio corpo que sabe vestir-se estando nu. (…)
[Helena Silveira, Folha de S. Paulo, 30.03.1982]

Foto: Acervo Hélia Lima

IMPRENSA

(…) Eram para ser apenas três espetáculos (…) mas, como antes da estréia todos os 36 mil ingressos colocados à venda já estavam esgotados, rapidamente foram marcados mais três para o próximo fim de semana. Este fantástico sucesso antes de subir ao palco, no entanto, não empolga essa baiana discretamente dengosa, que há poucas semanas fez o Morumbi lotado cantar Caminhando junto com ela.
(…) Em Simone, mesmo num simples ensaio, a emoção sempre dá o tom, sem deixar a técnica de lado. No meio de um verso, olhos inchados, perdidos no espaço, ela pára tudo, para reclamar que não há retorno de som para o coral de quatro vozes. (…) Agora ela toma o lugar do maestro, abaixa a cabeça, bate palmas, colocando a banda sob seu domínio. Na cena seguinte, ela está completamente imóvel diante da haste do microfone, apalpado delicadamente com o dedo indicador. Mais um pouco o palco vira um Carnaval – e a música ainda não acabou.
Fica difícil dizer quantas Simones estão ensaiando para o show desta noite. (…) Caminha até um praticável colocado diante do palco e agora parece sonhar a poesia que conta, “que principia quando eu páro de pensar”. Uma coisa é certa: todas essas Simones que ensaiaram ontem, noite adentro, valem a pena, mas só para quem já comprou ingresso.
[Ricardo Kotcho,  Folha de S. Paulo, 19.03.1982]

Simone ainda não tinha subido ao palco e todos já sabiam que ela venceria. Poucas vezes um interprete teve seu nome tão gritado, antes do início do espetáculo. O velho Ibirapuera, tão acostumado aos delírios da galera nos nocautes de Eder Jofre, nas cestas suadas de Ubiratã, parecia encontrar um novo motivo para sua existência. O enorme coro da geral ecoava em ‘Si-mo-ne, Si-mo-ne’ quando ela entrou em cena, cantando ‘Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda …’. Ocorreu então um espetáculo de explosões, numa saudação apoteótica para a cantora. A vitória estava assegurada.

Simone, estréia do show ‘Amar’, 19.03.1982, Ginásio do Ibirapuera em São Paulo
Foto: Gil Passarrelli/ Folha

A potência da voz de Simone suporta bem estas apresentações em lugares grandes, sem boa acústica, e também permite um bom ajustamento com arranjos de cores mais quentes, como os que o maestro Chico e Moraes escreveu para a banda Amorosa.
Este tipo de arranjo tem a vantagem de preencher os espaços em branco através da construção de uma espessa massa sonora, casando bem com o estilo interpretativo de Simone – quente, emocional, dramatizado. Mas às vezes registram-se gestos excessivos, como, por exemplo, na canção VIDA, de Chico Buarue, quando ela exagera nos gritos de ‘Mais, quero mais’. Em um espetáculo desta natureza, pleno de potencial emocional, com o público participando intensivamente dos sentimentos sugeridos, não é necessário exagerar nestes efeitos.
 
Simone é uma figura forte na MPB de nossos dias e provavelmente, no coração do público, ela deve preencher uma parte do espaço que era de Elis Regina. Mas certamente ela não é a nossa melhor nem a mais significativa cantora. Mas isto não importa: ela conquistou um lugar importantíssimo na música popular brasileira, e ali brilha como uma estrela de poderosa luminosidade. Os queridos ouvintes que o digam.
[Matinas Suzuki Jr., Folha de S.Paulo, 02.03.1982]
 
Simone tem o dom de funcionar como um elemento catártico. O público sai do ginásio com a sensação de estar de alma lavada, com a sensação do dever cumprido.
Simone arranca risos e lágrimas da platéia porque busca as canções exatas para obter estas reações.

Simone vai preparando a emoção da platéia para as lágrimas inevitáveis que viriam … Debaixo de um tênue foco de luz para quase sussurrar O BÊBADO E O EQUILIBRISTA, QUERELAS O BRASIL, NEGA DO CABELO E ÁGUAS DE MARÇO. Todas as luzes se apagam, o público enorme grita o nome de Elis e ilumina o ginásio apenas com as chamas de milhares de isqueiros.

É assim. Um espetáculo eficiente, especialmente para quem precisa deste processo de catarse. Simone é bonita no palco, canta bem e talvez por isso mesmo pudesse dispensar os excessos cênicos. Ela dá ao público exatamente o que ele quer; não ousa e não inventa, como se não quisesse ferir o que foi previamente estabelecido, traçado e definido por um eficiente departamento de marketing que vê, no fim da linha, cifras astronômicas. Mas ela pode romper os cordões, se quiser. Afinal, não foi inventada em laboratório de gravadora.
[Maria Amélia Rocha Lopes, Jornal da Tarde, 26.03.1982]
 
Pode-se dizer que, de um fôlego só, emendando música após música, partindo de Gonzaguinha, encerrando com Gonzaguinha, Simone prendeu o vastíssimo público. Fez dele o que quis. A identificação se fazia maior ou mais atenuada, conforme as músicas.

Não sei nem quero saber as opções politicas de Simone. Sei que ela me emocionou, como emocionou a todos que a viram, no Ibirapuera.
[Helena Silveira, Folha de S.Paulo, 30.03.1982]
 

Foto: Álvaro Lage/ Acervo Celina Abreu

Os ingressos para os três primeiros e até então únicos espetáculos foram todos vendidos em 48 horas … e o espetáculo não estava marcado para um teatro qualquer, mas para o enorme Ginásio do Ibirapuera.
Mais três espetáculos seriam imediatamente marcados, e outra vez rapidamente vendidos. Já seria um fenômeno nunca visto antes na cidade de São Paulo – cerca de 60 mil ingressos vendidos em uma semana para ouvir uma cantora brasileira – mas ainda não era tudo … Simone ficaria sabendo que outros três espetáculos, desta vez em benefício do Instituto do Câncer, já haviam sido marcados.

As quase 90 mil pessoas que terão visto Simone no Ibirapuera, no prazo de 17 dias, seriam suficientes para encher um estádio como o Morumbi.

Enquanto aguardava o elevador do hotel, também docemente chocada com aquele incrível espetáculo de empatia vivido no Ibirapuera, Simone balançava a cabeça enquanto ouvia a pergunta: ‘Por que tudo isso, Simone? O que você sente, olhando para aquela multidão em delírio?’.

Na ampla suíte do Brasilton Hotel … Simone, esticada no sofá, olhava para algum ponto indefinido … agora ela parecia querer apenas a solidão, curtindo o silencio das horas noturnas.

Simone passou a ser, definitivamente, a cantora das grandes multidões, e a ocupar, mesmo que ela não queira nem se preocupe com isso, o vazio deixado por Elis Regina.

Flávio Rangel, chamado para dirigir seu primeiro show no Canecão e, desde aquela época (1979), mais do que um diretor, uma espécie de ‘alter-ego’ da cantora, uma pessoa mais experiente, que sabe das coisas, e não apenas dos segredos de um palco. Não se trata apenas do encontro de dois profissionais sérios e competentes, a dupla Simone-Flávio é um caso de amor – e é fácil perceber isso no convívio dos dois e no resultado do trabalho.

Marcos Lázaro, empresário e produtor, sabe onde está o ouro da mina e busca, friamente, como qualquer empresário, o maior lucro possível. Naquela noite de sexta-feira, porém, depois do show (de Simone no Ginásio do Ibirapuera), visivelmente emocionado, ele não estava contando o dinheiro das bilheterias. ‘Você me arrancou muitas lágrima’, confessou ele a Simone, ao comentar o momento do espetáculo em que ela homenageia Elis, sem dizer uma única palavra, além da letra das músicas.

CAMINHANDO (Geraldo Vandré) entrou na vida de Simone. Faltavam dois dias para a estréia no Canecão (show PEDAÇOS, 1979), quando a música foi liberada pela censura. Rangel ficou sabendo, tocou no assunto com Simone e pronto, lá estava o carro-chefe do espetáculo.

Na voz de Simone, os velhos sucesso de Elis e o hino de Vandré ganharam outros significados, um tom evocativo que embala os cantos da vida daqui pra frente. É muita vida e energia que ela transmite, mesmo que não esteja cantando, mesmo num simples abraço. Não será exatamente isso que o público está querendo, depois de tantos anos e trevas e lamentos?
[Ricardo Kotscho, Folha de S. Paulo, 06.04.1982]
 
Mais imprensa ‘Amar’


FIGURINO
Criação: Markito
 

Fotos: Paulo Rubens Parlagreco
Foto: Sérgio de Souza
 

ROTEIRO
[Baseado no programa e áudio do show ]


1. Sangrando
(Gonzaga Jr.)
2. Aquarela do Brasil
(Ari Barroso)
3. Novo tempo
(Ivan Lins/Victor Martins)
4. Desesperar jamais
(Ivan Lins/Victor Martins)
5. Tô voltando
(Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro)
6. Rainha Morena
(Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro)
7. Maria, Maria
(Milton Nascimento/Fernando Brant)
8. Pequenino cão
(Caio Sílvio/Fausto Nilo)
9. Naquela noite com Yoko
(Sueli Costa/Abel Silva)
10. Atrevida
(Ivan Lins/Victor Martins)
11. Pra não dizer que não falei de flores
(Geraldo Vandré)
12. Encontros e despedidas
(Milton Nascimento/Fernando Brant)
13. Me deixas louca
(Armando Manzanero – Versão: Paulo Coelho)
14. Pão e poesia
(Moraes Moreira/Fausto Nilo)
15. Canteiros
(Cecília Meireles/Fagner)
16. Vida
(Chico Buarque)
17. Para Lennon e MacCartney
(Lô Borges/Fernando Brant/Márcio Borges)
18. Revelação
(Clésio/Clodô)
19. Começar de novo
(Ivan Lins/Victor Martins)
20. Pout-pourri
Um dia antes da estréia, Simone incluiu no show um pout-pourri em homenagem à Elis Regina:
Nega do cabelo duro
(Rubens Soares/David Nasser)
Aquarela do Brasil
(Ari Barroso)
Querelas do Brasil
(Aldir Blanc/João Bosco)
O bêbado e a equilibrista
(Aldir Blanc/João Bosco)
Águas de março
(Tom Jobim)


MÚSICOS

Banda Amorosa
Arranjos e Regência: Maestro Chico Moraes
Contrabaixo: Pedrão
Bateria: Luizinho
Sintetizadores e Rhodes: Bruno Cardoso
Guitarra: Elias Almeida
Piano Yamaha: Armandinho
Percussão: Don Bira e Jorge Cebion
Trompetes: Sebastião Gilberto, Mauro Miola, Dorival Aurioni e Walmir A.Gil
Trombones: Severino G. da Silva, Arlindo Bonadio e Iran Fortuna
Saxofones: Isidoro Longano, Eduardo Pecci e Walter Godinho
Trompas: Daniel Havens e Michael Alpert
Teclados: Bruno Cardoso
Baixo: Pedro Ivo Lunardi
Percussão: Elizabeth Del Grande, Ubiraci de Oliveira e Jorge Henrique da Silva
Cópias Musicais: Sérgio A. Porto
Coordenador de Orquestra: Cliceu Romagnoli (Pirituba)
Vocal: Carlinhos, Ralf, Luiz e Paulinho

Simone e o maestro Chiquinho de Moraes, show ‘Amar’, 1982
Foto: Paulo Rubens Parlagreco

 
FICHA TÉCNICA

Arranjos e Regência: Maestro Chico Moraes
Direção: Flávio Rangel
Produção: Marcos Lázaro e José Lázaro
Assistente de Produção: Waldir Nascimento (Pelé)
Administração: Bell Marcondes (Cigarra Produções)
Manager: Toninho Moraes
Divulgação: Maria Inêz Neves Costa
Som: GCB Iluminason
Luz: Interform
Figurinos Simone: Markito
Figurinos Banda: Jeans Pierre Cardin e Camisas Parkland
Segurança: Walter Fonseca
Agradecimentos
São Paulo Hilton
Indústria de Confecções Vila Romana
L´Etichetta
Museu do Disco


Simone, show 'Amar', 1982 Foto: Paulo Rubens Parlagreco
Foto: Paulo Rubens Parlagreco

DISCO 

AMAR
[CBS, 1981]


PROGRAMA DO SHOW 


FOTOS 


LUGARES


A estréia do show “Amar” foi no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo

[Fotos: Internet]


Divulgação do show “Amar”


SIMONE FALA SOBRE O SHOW
 
Vai ser como se fosse meu primeiro show. É sempre assim. Dá dor de barriga, há três dias que não durmo direito, não consigo engolir a comida. Sei que é só até a primeira música. Depois da terceira, relaxo (…) Se não fosse isso, não seria bom. Esse negócio de oba-oba, já ganhou, antes da hora, não é legal. Pô, já pensou essa gente toda comprando ingresso sem saber o que vai ver?
(…) Eu estava preparando este disco com repertório novo e o que fazer? Juntar os pedaços de um show, completar com outro? Não daria certo. Gosto das coisas muito bem feitas. Assim, prefiro criar algo bem legal para mostrar em São Paulo, onde não me apresento há três anos.

[Folha de S. Paulo, 19.03.1982 ]


Simone (ao fundo o maestro Chiquinho de Moraes), ensaio do show ‘Amar’, 19.03.1982, Ginásio do Ibirapuera
Foto: Gil Passarrelli/ Folha
O diretor Flávio Rangel durante ensaio do show “Amar” no Ginásio do Ibirapuera
Foto: Gil Passarrelli/ Folha

VÍDEOS

Alguns momentos de “Amar”
 

 
Show “Amar” no Ginásio do Ibirapuera, São Paulo (gravação amadora)