SHOW CIRCUITO UNIVERSITÁRIO (1976)

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SHOW (PROJETO) CIRCUITO UNIVERSITÁRIO

Com Simone, Toquinho e Vinícius de Moraes 1
Data: 1976
Local de estréia: Argentina

 

APRESENTAÇÃO | Toquinho e Vinicius iam renovando o fôlego da criatividade, incursionando pelos mais diferentes caminhos da expressão musical, precursores que foram dos Circuitos Universitários (…) Em dezembro, com esse show, inauguraram o Teatro Paiol, em Curitiba, a convite do então prefeito eleito pela primeira vez, Jayme Lerner, que iniciava seu plano transformador naquela cidade. Esse show marcava a seqüência de uma jornada de apresentações a estudantes de quase todo o país que se estendeu por 1972. Era o primeiro Circuito Universitário que faziam, passando por capitais e cidades do interior dos estados, impressionando-se com o nível cultural e o interesse da juventude pela música brasileira. Para Toquinho, tudo se dava como mais uma escola da existência humana. Exercer o prazer de tocar e cantar, tanto em teatros modernos e bem montados, quanto em palcos improvisados, com luz insipiente e som precário. (…)
No palco, Toquinho e Vinicius acostumaram-se ao apoio da voz e da figura feminina. (…)
Numa excursão iniciada em fevereiro de 1976, também estavam no grupo a cantora Amélia Colares e o pianista Tenório Jr. Em março chegavam a Buenos Aires, e com uma semana de antecedência não havia mais ingressos para “El gran show de musica brasileña” no Gran Rex, um velho cinema transformado em sala de espetáculos.
A Argentina vivia um momento político delicado. Tumultos e insubordinações exigiam o exército nas ruas numa busca constante a conhecidos terroristas e outros suspeitos. Dois dias antes do golpe militar, o pianista Tenório Jr. saiu do hotel para comprar cigarros no bar da esquina, e sumiu como a fumaça de uma tragada2. Jamais foi encontrado. Todas as explicações para seu desaparecimento levam a imaginar que ele tenha sido confundido com alguém que precisava ser urgentemente “guardado”. Vinicius ainda permaneceu alguns dias na Argentina tentando esclarecer o caso e nada conseguiu. Esse marcante momento da perda de um colega de trabalho ficaria registrado por Toquinho e Mutinho na música “Lembranças”, cuja letra se estende a tantos outros brasileiros, como nesse trecho:

Pedro seguiu seu caminho
Chico pediu pra ficar
Tenório saiu sozinho na noite
Sumiu
Ninguém soube explicar
Outros amigos se foram
Guardando seus ideais
Entre verdade e delírio
Uns semearam saudade no exílio
Outros não voltam jamais

Em contraposição à perda do amigo, deu se a descoberta de uma nova parceria de palco. Simone começava a se destacar no cenário musical brasileiro. Havia gravado três discos e despontava cantando ‘Matriz ou filial’, de Lúcio Cardim e ‘Gota d’água’, de Chico Buarque.

Toquinho e Simone durante a turnê
Foto: Divulgação (Acervo Eustáquio Trindade)

– Naquela época, acho que qualquer cantora que estava começando gostaria de trabalhar junto comigo e com Vinicius – explica Toquinho – (…) E com a Simone foi assim. Ela estava no comecinho da carreira, eu a vi cantar na TV e gostei daquela voz bonita e sua postura física. Eu nem a conhecia, ela fazia um show na Igrejinha, uma boate aqui em São Paulo. Fui lá num dia de ensaio e a convidei para fazer uma temporada comigo. Ela topou e começamos a trabalhar num grande giro pela Argentina, Uruguai, Chile, e no México, no finzinho, Vinicius fez uma parte com a gente. Depois continuamos, eu e ela, percorrendo todo o interior de São Paulo e o sul do Brasil. Quase no fim da temporada, um dia o Chico me telefonou perguntando como é que era a Simone, se ela cantava bem, se ela era legal. Ele estava procurando uma cantora para cantar o tema de Dona Flor… e o Milton Nascimento lhe havia falado a respeito dela. Claro que eu só podia falar bem da Simone, de suas qualidades, pois já a conhecia o suficiente. E tirei a última dúvida que o Chico devia ter para aquela escolha. Ela gravou o tema de Dona Flor … e passou a despontar mais porque talvez tenha sido seu primeiro sucesso interessante, para um público maior. E o Milton passou a colocá-la nos shows dele para cantar duas ou três músicas. Então ela embalou e seguiu sozinha pois sempre foi uma grande cantora.
(…) Toquinho e Simone somavam a coerência musical de cada um e se equilibravam entre lirismo consciente do instrumentista e a vibração da voz e da figura intensa da mulher. Refletiam, em cena, uma espécie de encantamento que pairava do profissional ao humano, feito uma auréola a circundar as emoções dos dois e espalhá-las pelo público. Esse encantamento era tão transparente, que a própria Simone o confirma: “Até hoje sou apaixonada por Toquinho. Foi muito lindo trabalhar com ele, em todos os sentidos. Ele é uma delícia de pessoa, uma doçura. É um sonho, o Toquinho! Um homem que sabe deixar aflorar uma contagiante sensibilidade feminina. Ainda hoje, depois de tantos anos, quando encontro o Toquinho, sinto esse encantamento que me fez tão bem naquela época em que trabalhamos juntos”.
– Ah, mas é que vivemos um clima sempre muito bom, acima de tudo, profissional – esclarece Toquinho. – Foi uma fase ótima, de trabalho gostoso, de viagens e shows. Era uma época tranqüila para se trabalhar, sem problemas de grandes produções e despesas. Tudo era muito viável, até a exigência do público era menor. Íamos Simone, eu, baixo e bateria. E a Simone aparecia com uma força muito grande. Ela já tinha essa luz que ela tem até hoje.
[Site Oficial Toquinho e Trecho do livro ‘Toquinho: 40 anos de música’, João Carlos Pecci, RCS Editora, 2005]


 
SIMONE FALA SOBRE O SHOW
 
“Vinicius, Toquinho e eu fomos primeiro para a Argentina. Há muito tempo que o Toquinho me convidava. Mas sempre havia alguma coisa. Lá, o público de música brasileira é muito grande. Fizemos várias cidades argentinas e depois fomos para o Chile. Apesar das dificuldades, como fazer os shows ás 18h, quando muita gente ainda trabalhava, a aceitação foi incrível. Eles são ávidos por música brasileira. A mesma coisa aconteceu no Uruguai. Mas o que você ainda sente é o reconhecimento do samba e do frevo. Quando a coisa muda, eles não entendem tão fácil, à exceção do México. Lá eles conhecem muito Bossa-Nova. Os espetáculos da Casa de Lãs Artes, por exemplo, tiveram o maior sucesso. Nós fomos realmente muito bem aceitos, mas havia também o peso do nome Vinicius de Moraes.”
[Maria Cecília, MÚSICA, 1976]
 
SIMONE FALA SOBRE TENÓRIO JÚNIOR
 
“Depois, uma turnê pelos Estados Unidos (show Festa Brasil). Quase o mesmo time, desta vez sem o Tamba (Trio), mas com o pianista Tenório Jr., desaparecido há anos na Argentina.”
[CANJA, 27.06.1980]
 

 
Simone e Toquinho
durante temporada do show ‘Circuito Universitário’, 1976
Foto: Divulgação

ROTEIRO 3
(parcial) 


1. Por que será?
(Toquinho/ Vinícius de Moraes/ Carlinhos Vergueiro)
Simone
 
2. Samba de Orly
(Toquinho/ Chico Buarque)
Simone
 
3. Eu sei que vou te amar
(Tom Jobim/ Vinícius de Moraes)
Simone e Toquinho
 
4. Sinal Fechado
(Paulinho da Viola)
Simone e Toquinho
 
7. Pot-pourri de frevos
Simone
 
8. Gota d´água
(Chico Buarque)
Simone

 
9. O ronco da cuíca
(João Bosco/ Aldir Blanc)
Simone

 
MÚSICOS
Toquinho: violão
Mutinho: bateria
Azeitona: contra-baixo


LUGARES  
ALGUNS locais de apresentação: 
ARGENTINA – Buenos Aires, La Plata, Rosario e Córdoba 
BRASIL
– Sudeste (a partir de 16/09/1976): São Paulo (SP), e interior, passando por São José dos Campos, Taubaté, Itajubá, São Bernardo do Campo, Campinas, Bragança Paulista, Piracicaba, Avaré, Ribeirão Preto, Jaboticabal, Limeira / Minas Gerais / Sul: Londrina e Maringá (PR) / Porto Alegre (RS) / Santa Catarina

 
FOTOS 

 
IMPRENSA 
Durante três meses, a dupla Toquinho e Simone vai se apresentar 50 vezes ao público, em cidades de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio Grande do Sul (…) No repertório, músicas de Milton Nascimento, João Bosco e Aldyr Blanc, Chico Buarque de Hollanda, Luiz Gonzaga Júnior, Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, além de uma, especialmente composta para ela por Hermínio Belo de Carvalho e Vital Lima.
Quando de sua visita ao Brasil, Sarah Vaughn ouviu a fita de seu disco e ficou impressionada. Tanto que acabou pedindo uma gravação especial de Simone, para levar aos Estados Unidos.
[Folha de S.Paulo, 15.09.1976]

 
 

Simone durante temporada do show ‘Circuito Universitário’, 1976
Foto: Mário Luiz Thompson

NOTAS
 

1. Vinícius de Moraes:
Vinícius participou do show no México.

 

2. Caso Tenório Jr:
Preso em SC pode ser argentino envolvido no ‘caso Tenório Jr.’ Polícia precisa confirmar identidade de Vallejos, que teria participado de desaparecimento de músico brasileiro em 76.
Um argentino acusado de participar de sessões de tortura nos anos 1970, durante o regime militar que governou o país, pode estar preso em Xanxerê, no oeste de Santa Catarina. Identificado como Cláudio Vallejos, de 53 anos, ele foi detido no dia 4 de janeiro, acusado de estelionato, e está recolhido provisoriamente no presídio da comarca. Procurado na Argentina, ele estaria no Brasil há vários anos.
O consulado da Argentina em Santa Catarina busca informações sobre o preso para possível pedido de extradição, mas preferiu ainda não se pronunciar. A Polícia Federal em Chapecó diz não ter recebido ainda nenhum comunicado oficial.
Vallejos, que responde a sete processos no Tribunal de Justiça de Santa Catarina – com duas condenações por estelionato – talvez seja o mesmo homem que, em 1986, revelou em uma entrevista à revista Senhor que presenciou torturas então praticadas por militares argentinos e admitiu ter matado cerca de 40 pessoas. Na entrevista, ao repórter Maurício Dias, ele se apresentou como militar e ex-integrante do Serviço Secreto da Marinha argentina.
O argentino tem documento de identidade brasileiro, embora conste que nasceu em Buenos Aires no dia 29 de maio de 1958. A data de nascimento e o mesmo nome são indícios que levam a crer se tratar da pessoa que concedeu a entrevista à revista.
Caso Tenório Jr. Entre as histórias de tortura de que ele teria participado está a do pianista Francisco Tenório Júnior, então com 35 anos, que foi a Buenos Aires em uma turnê com Vinicius de Moraes e Toquinho. Vallejos afirmou, na entrevista, que o músico foi sequestrado no dia 18 de março de 1976, sem motivo aparente, e acabou mantido preso após revelar que fazia parte do grupo de Vinicius. “Nós considerávamos Vinicius um comunista”, disse. Mesmo após informes do Brasil de que Tenório não tinha militância política, ele não foi liberado. “Queriam que o Tenório dissesse algo sobre os artistas brasileiros que tinham participação política”, afirmou.
Tenório teria recebido um tiro na cabeça. “Eu mesmo, com a ajuda de outros dois agentes, coloquei o corpo dele numa bolsa de cor preta”, relatou. Segundo Vallejos, o corpo – que nunca foi encontrado – foi enterrado no Cemitério La Chacarita, com o nome falso de Marcelo Fernandes.

[O ESTADO DE S.PAULO, Evandro Fadel, 25.02.2012]

 

3. Roteiro:
Baseado no livro ‘Toquinho: 40 anos de música’, João Carlos Pecci, RCS Editora Ltda., 2005.