SHOW AMOR E PAIXÃO (1986)

  Apresentação | Roteiro | MúsicosFicha Técnica | Simone fala | FigurinosLugares | Imprensa | Vídeos | Áudios | Fotos | Programa | Disco   


show AMOR E PAIXÃO1

Com Simone
Estréia: 15 de julho de 1986
Local: Scala II, Rio De Janeiro RJ

 

APRESENTAÇÃO | São duas Simones e esta é a melhor
A cada show fica mais evidente: existem duas Simones. Uma é a cantora de estúdio, a dos discos, seca, dura, presa a marcações rígidas, moldada numa forma-padrão que sugere limitações técnicas, apesar da qualidade do timbre. A outra é a do palco- exuberante, ousada, capaz de moldar a voz de acordo com a vontade, com a intenção que pretende imprimir a interpretação: uma cantora que arrisca divisões perigosas, que não teme o desafio dos agudíssimos, dos graves buscados mais no fundo. Foi a que estreou ontem no Scala II, num espetáculo impecável – do desenho de cena e vestuários ao repertório e à sábia direção de Flávio Rangel, que sabe tudo de palco e tudo de Simone- desta Simone melhor e maior do que a outra.
O roteiro, assinado pela cantora, é inteligente e tratado carinhosamente pela ótima banda que, apesar dos seis teclados – o piano acústico de Cristóvão Bastos e os eletrônicos de Alberto Rozemblit e Ricardo Leão – e mesmo do baixo meio techno de Jorjão, não cai naquele som pasteurizado que a formação sugere e, via de regra, realiza. Os pontos de equilíbrio, aliás, estão no próprio Cristóvão, nos sopros de Paul Lieberman e na guitarra maravilhosa de Natan Marques, homem da banda de Elis Regina.
Palco todo branco, todos vestidos de branco, luz basicamente branca, retroprojeção para alguns cenários antigos e para os slides mostrando cada instrumentista em close (dispensando a velha apresentação formal, tipo, “ao piano, fulano”, e assim por diante), ela própria de branco, elegante, começa já comprando o público. “Sangrando”, de Gonzaguinha, inicia lento e cresce (haja delay) nos versos da segunda parte. Fica a impressão de que não há mais espaço para outras expansões. Engano. O show é mais intenso a cada número.
“Começar de Novo” merece apenas um adjetivo: é extraordinário. Assim como a leitura calypso de “O que Será”. Como a vinheta de “Jura Secreta” ou o delicado arabesco sonoro que Natan desenha para “Yolanda”, de Pablo Milanês, versão de Chico Buarque. A banda não se limita a acompanhar a cantora: executa arranjos. Coisa que há muito não se vê.
Simone vai de façanhas. Faz as vezes de Cazuza (“Exagerado”) ou de Paulo “RPM” Ricardo (“Olhar 43”). Junta “Água na Boca” de Tunai e Abel Silva, com “Mania de Você”, de Rita Lee, um achado. Mas, basicamente, recria seus próprios sucessos, demonstrando perfeito domínio técnico. Usando e abusando das blue notes, utiliza os graves para ceder espaço ao solo de sax de Lieberman, em “Esquinas” , de Djavan, e guarda para o final a surpresa de Carlinhos da Caprichosos de Pilares, que chega com dez ritmistas e acompanha no samba da Escola. Melhor do que tudo, brinca com a divisão melódica de “Aquarela do Brasil”, vinheta, de forma gilbertiniana. Parabéns.
E fica a sugestão: arrisque, CBS, e grave Simone ao vivo.
[Mauro Dias, O Globo, 17 .07.1986]

Foto: Folha de S. Paulo

 


 
Outra vez

Flávio Rangel, responsável pela iluminação e direção do show “Amor e Paixão”

Lógica e emoção: estas duas palavras estão presentes nos artigos anteriores que escrevi para os programas dos espetáculos que dirigi para Simone. Agora que os releio, vejo que esta foi a tônica que sempre existiu, e que procura estar novamente presente.

A direção de um espetáculo – de qualquer espetáculo – é sempre um caminho perigoso, cheio de atalhos ínvios. A tarefa do diretor consiste em alcançar o ponto exato entre emoção e razão, sensibilidade e inteligência. Num show de música popular os problemas se avolumam, pois é preciso equilibrar o elemento de enlevo e abstração que a música provoca com a integridade e a justeza dos versos que são ditos. Além do mais, no teatro a matéria-prima é o texto, e num como como este, a matéria-prima é a própria personalidade da cantora, em torno de quem tudo gira.

Simone é uma artista de forte personalidade, dona de grande fascínio e carisma. É também uma profissional competente e exigente, preocupada com os mínimos detalhes que compõem sua carreira. Sendo inteligente e lúcida, não é difícil trabalhar com ela, pois considerações subalternas estão sempre ausentes dos ensaios.

Quanto a mim, sempre achei que todos os elementos do espetáculo – cenários, figurinos, iluminação, adereços – devem ser postos a serviço desse instante único e mágico que é o diálogo exercido entre um artista no palco e seu público na platéia. Esse instante privilegiado, exercido apenas na arte da representação, é que tem tornado o espetáculo ao vivo, há mais de dois mil e quinhentos anos, um exercício insubstituível de comunicação, fantasia, amor.
Mestre Ziembinski disse uma vez que a boa direção é aquela que não parece. É o que tenho tentado fazer.
[Flávio Rangel, Programa do show, 1986]


IMPRENSA

icon-imprensa-1986amorepaixao

A luz de SimoneEm julho do ano passado, Simone estreou seu novo show no Scala II, Rio, programando ficar dois meses. Acabou ficando oito
Simples, usando apenas luz como recurso cênico e com um repertório retrospectivo, o show foi visto por cerca de 200 mil pessoas, que aplaudiam de pé e cantavam em coro.
O mesmo espetáculo, com pequenas modificações, chega finalmente a São Paulo (…)
Apesar de o repertório tender mais para o retrospectivo, há preocupação de evitar simples reapresentações. A cada um dos velhos sucessos, foi dada uma nova roupagem, nova interpretação, novo arranjo. “O que será”, por exemplo, vira um calipso; “Jura secreta”, uma vinheta; “Mania de você” ganha languidez, acompanhada apenas de guitarra e sax. Novidades: “Exagerado”, rock de Cazuza; “Esquenas”, de Djavan; “Olhar 43”, de Paulo Ricardo (…)
Dirigido por Flávio Rangel o espetáculo não tem cenários. Além da luz tomada como recurso cênico, há muito branco na roupa de todos – músicos e cantora.
[Imprensa – sem referência, 1987]
 
Uma parada de sucessosVantagens de uma segura direção e bons arranjos
Flávio rangel, experiente homem de teatro, responsável pela direção de vários espetáculos de Simone, tomou-se de cuidados na feitura do novo show da cantora no Scala II no Rio.
A começar pelas entrevistas, ao contrário dos políticos populistas, Flávio prometeu menos do que aquilo que colocou em cena. Sagazmente escondeu o jogo. E, lógico, saiu ganhando. O que se anunciava como modesto, nas estréia revelou-se um trabalho bem-feito, enxuto, seguro (…)

Bem vestida, toda de branco com sempre, a mesma cor do palco e dos fraques de seus músicos, Simone está cantando melhor. Mais segura em cena, menos descritiva no gestual e passando emoção. Sua interpretação de “Esquinas”, de Djavan, só valoriza a música. E mudando o andamento de “Mania de Você”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, que ela canta lentamente, acho o entrosamento ideal da música com sua voz.
Também assinando o roteiro, Simone só tropeça quando passa bruscamente de “Iolanda”, de Pablo Milanes – versão de Chico Buarque, para “Exagerado”, de Leoni, Cazuza e Ezequiel Neves. Depois, cantando “Olhar 43”, sucesso do RPM, e daí passando, novamente, de maneira imprópria para Roberto Carlos e Erasmo Carlos, “Eu preciso de você”, a sua homenagem ao tão falado rock-Brasil não se encaixa no todo do espetáculo.

O cenógrafo Mário Monteiro, mais uma vez, utiliza as cortinas drapeadas, também brancas, sempre bem exploradas pela boa iluminação de Flávio rangel, e transforma o fundo do palco numa tela, projetando leves imagens, acendendo pequeninas luzes. nada de excessos. Só na homenagem ao rock-Brasil desce uma enorme armação de óculos, em que os olhos são substituídos por refletores. O efeito não é dos melhores.

A luz é um dos pontos altos do show de Simone. os climas criados antecipam e sugerem outros que, por vez, se encaixam com o que está sendo cantado e apresentado no palco. Perfeita harmonia de roteiro e luz.

Foto: Folha de S. Paulo

Cristóvão Bastos, responsável pelos arranjos e direção musical, renova os antigos sucessos de Simone que, aliás, são a base de todo o show, o que revela o objetivo de atingir direta e imediatamente o público. E consegue. Mas o que poderia parecer um simples revival, graças aos bons arranjos e bons músicos, oferece surpresas. O espetáculo, enfim, tem começo, meio e fim. Apesar do falso bis, agora oficializado em todos os shows.
[Arthur Laranjeiras, Imprensa – sem referência, julho de 1986]
 

(…) A cantora Simone (…) está, desde julho, no Scala II. Vai ficar nesse palco até março de 1987. Com esses oito meses em cartaz, ela sobe ao patamar das longas temporadas somente alcançado por Elis Regina, com um ano do espetáculo “Falso Brilhante”, no Teatro Bandeirantes, em 1976, e Roberto carlos, com seis meses do show de 1978 em que aparecia fantasiado de palhaço.
 
(…) Atrasado no lançamento exatamente por causa da temporada no Scala, AMOR E PAIXÃO, o novo disco de Simone e 14o de sua carreira, foi feito ainda dentro de um esquema – um álbum por ano – que ela não acha ideial. Diz que, se para o compositor-intérprte já é difícial reunir dez a doze múcsicas inéditas, imagine-se o drama do artista que apenas canta.
[Imprensa – sem referência, 1986]
 


 
SIMONE FALA SOBRE O SHOW
 
“Eu estava chateada. Queria viajar. Me preparar para fazer o novo disco com calma, coisa que há muito tempo não acontece. O Chico (Recarey) me convenceu a entrar em julho. Eu preferia o final do ano.

No final de agosto, antes do encerramento do contrato de dois meses, ele pediu renovação por mais dois. Eu então pensei: ‘Se é pra ficar mais dois, fico até o final do ano’. Continuar até o carnaval foi uma consequência lógica.”
[Imprensa, 1987]
 
“Foi uma temporada muito bonita. vai ser uma coisa inesquecível na minha vida. Eu, em meu nome, em nome da minha banda, em nome do pessoal da Caprichosos de Pilares, nos sentimos muito orgulhosos em ficarmos neste espaço, durante 7 meses, nos sentimos com a alma limpa por termos feito um trabalho como todo amor, com todo carinho, com tanta vontade e com tanta fé. Comemos o pão que o diabo amassou para chegar aqui, mas Deus viu que tudo o que agente queria fazer era por puro amor e nos concedeu a graça de ficarmos quase um ano aqui dentro desta casa. Obrigada por tudo, até a próxima oportunidade, se Deus quiser. Obrigada a todos vocês!”
[Agradecimento de Simone ao final do último show da temporada recorde no Sacla II]


FIGURINOS
Criação: Ísis de Oliveira e Eurípedes
 

Fotos: Divulgação/ Acervo Hélia Lima/ Divulgação

VÍDEOS
Alguns momentos de “Amor e Paixão”
 

Foto: Divulgação

 

 

ROTEIRO
[Baseado no programa do show, áudio e imprensa]


1. O que será/Começar de Novo – instrumental
(Chico Buarque/Ivan Lins/Vitor Martins)
2. Sangrando
(Luíz Gonzaga Jr.)
3. O que Será (À Flôr da Terra)
(Chico Buarque)
4. Esquinas
(Djavan)
5. Começar de Novo
(Ivan Lins/Vítor Martins)
6. Água na Boca
(Tunai/Abel Silva)
7. Exagerado
(Leoni/Ezequiel Neves/Cazuza)
8. Mania de Você/ Pega Rapaz
(Rita Lee/Roberto de Carvalho)
9. Princesa
(Flávio Venturini/Ronaldo Bastos)
10. Você é Real
(Fausto Nilo/Francisco Casaverde)
11. Iolanda
(Pablo Milanes/ Chico Buarque)
12. Raras Maneiras
(Tunai/Márcio Borges)
13. Olhar 43
(Paulo Ricardo/ Luís Schiavon)
14. Eu Preciso de Você
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
15. Em Flor
(Sid Lippman/Sylvia Dee/Ronaldo Bastos)
16. Encontros e Despedidas
(Milton Nascimento/Fernando Brant)
17. Maria, Maria
(Milton Nascimento/ Fernando Brant)
18. Desesperar, Jamais
(Ivan Lins/Vítor Martins)
19. Aquarela do Brasil
(Ari Barroso)
20. O Amanhã
(João Sérgio)
21. Rei Por Um Dia
(Almir de Araújo/ Marquinho/ Lessa/ Balinha/ Hércules Corrêa/ Carlinho de Pilares)
 
Músicas incluídas no show “Amor e Paixão” apresentado em São Paulo no Palácio de Convenções do Anhembi nos dias 19,20, 16 e 27 de Junho de 1987 e a seguir no Ginásio do Ibirapuera nos dias 3 e 4 de julho de 1987:
Amor e paixão
(Milton Nascimento/Fernando Brant)
Jura secreta – A outra
(Sueli Costa/Abel Silva/Ivan Lins/Vitor Martins)
Paixão
(Kledir Ramil)
Um Desejo só não Basta
(Francisco Casaverde/Fausto Nilo)
Me Chama
(Lobão)
Nosso Amor a Gente Inventa
(Cazuza)
Eu Prometo – Ajoelhou, tem que rezar
Samba Enredo Caprichosos de Pilares
(Evandro Bola, N. do Cavaco, Toninho 70)


MÚSICOS

Banda Amorosa
Direção Musical, Piano Acústico e KorgPoly 800: Cristovão Bastos
Yamaha Dx7 e Roland Jx-8P Voz: Ricardo Leão
Yamaha Dx7-Tx7 e Roland JX-8P: Alberto Rosenblit
Guitarra, Violão, Voz: Natan Marques
Baixo, Voz: Jorjão
Sax, Flauta: Paul Lieberman
Bateria: Picolé
Percussão: Clodoaldo Cannizza Jr.


 
Participação Especial da Bateria da Escola de Samba Caprichosos de Pilares
Mestre da Bateria: Paulinho
Surdo de Marcação: Edílson, Waldir, Luiz Alberto
Repique: Pisca
Tamborins: Geraldo, Isaac, Paulo Renato, Kleber
Caixa de Guerra: Toninho, Edson

 

 
FICHA TÉCNICA

Direção Geral e Iluminação: Flávio Rangel
Roteiro: Simone
Assessoria Técnica de Iluminação: Luiz Paulo (Neném)
Operador de Áudio: Everson Dias
Cenografia: Mario Monteiro
Produção de Cenografia: Kaká Monteiro
Criação de Figurinos: Ísis de Oliveira e Eurípedes
Brincos: Antonio Bernardo
Maquiagem: Gilles
Cabeleireiro: Carlos Armando
Veste Banda Amorosa e Equipe Técnica: Fernando Ramos
Assessoria de Imprensa: Ivone Kassu
STAFF SCALA II
José Carlos Vilella: Coordenação Geral
Don Marco Maguila: Diretor de Cena
Luiz Fernando: Engenharia de Som
Marcelo Melo: Operador de Som
João Sacramento: Assistente de Iluminação
Ubirajara Vasconcelos: Canhão
Luizinho Rangel: Cenotécnico
João Vicente dos Santos: Maquinária
Erisvan Maranhão, Edmilson Correia dos Santos, Luiz Antonio Santos, Luiz Gonçalves de Oliveira: Maquinistas
Irene Correia e Carlos Sarmento: Camareiros
Fernando Almeida: Coordenador de Produção
Agradecimento Especial: Mário Troncoso
Programa: Acacia Gomes
Supervisão: Laura Gallo
Assistente: Heloísa Gomes
Publicidade/Rio: Mariangela S. e Silva
Publicidade/SP: Ligia Freitas e Rosa Brion
Foto: Flávio Rangel – Revista Amiga
Fotos: Cibele Clark
Supervisão Editorial: Art-Técnica Com.Social
Fotocomposição: Prensa
Fotolito: Intercolor
Impressão: Gráfica Borreli


Foto: Divulgação

 

DISCO 

AMOR E PAIXÃO
[CBS, 1986]


PROGRAMA DO SHOW 
ICON-1986-amorpaixao-programa


FOTOS 
1986-ICON-amorepaixao


LUGARES

A mais longa temporada de Simone em um único lugar, o show permaneceu em cartaz por 7 meses seguidos em seu local de estréia, o (extinto) Scala II no Rio de Janeiro – de 15.07.1986 a 15.02.1987.
[Fotos: Internet]

Ingresso para o show “Amor e Paixão” no Scala II no Rio de Janeiro (1986)

Divulgação do show “Amor e Paixão” no Palácio das Convenções do Anhembi em São Paulo (1987)


 
 
NOTA

1. NOME DO SHOW:
O show estreou no Rio de Janeiro apenas com o nome SIMONE. A partir do lançamento do álbum AMOR E PAIXÃO (CBS), em novembro de 1986, o show passou, então, a ter o nome do disco.