Simone e Zélia Duncan cantam amizade nos palcos portugueses


São amigas, confidentes, «irmãs», duas vozes inconfundíveis da música brasileira. Simone e Zélia Duncan regressam aos palcos portugueses onde estiveram pela última vez em 2009. Na bagagem trazem as músicas do álbum «Amigo É Casa», que gravaram em 2008, muito samba e algumas surpresas. Duas conversas telefónicas com o Atlântico pelo meio, na antecipação dos concertos que as duas amigas vão dar no dia 4 de outubro no Casino Estoril, no dia 6 na Casa da Música, no Porto, e no dia 7 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

ANA PATRÍCIA CARDOSO | NOTÍCIAS MAGAZINE | PORTUGAL | 02.10.2017

ZÉLIA DUNCAN

Com 16 anos, Zélia Cristina já sabia que queria cantar. Virou Zélia Duncan, viveu nos Emirados Árabes Unidos, voltou com a determinação de se afirmar pelo próprio pé. Trinta e cinco anos depois, quase a fazer 53 de vida, tem uma carreira com mais de quinze álbuns, prémios da crítica e o carinho do público. Hoje já não é possível falar de vozes femininas brasileiras sem falar de Zélia. E ainda que o nome comece com «Z», a cantora não está no fim da lista.

A Zélia e a Simone têm quinze anos de diferença. Nota­‑se essa diferença de idades quando estão juntas?
Eu sou de uma geração depois da Simone, nós nos espelhamos muito na geração dela. Quando a Simone apareceu no Brasil, foi um acontecimento grandioso. É muito bom pensar que eu fiz este caminho todo e cheguei até ela, que eu admirava tanto quando comecei. Depois de tantos anos, depois de nos termos tornado amigas, irmãs, de termos gravado um disco, mesmo assim, ainda hoje, quando eu subo no palco e a vejo, sinto­‑me uma privilegiada. Não nos encontramos no palco há algum tempo – desde 2009 – e é uma delícia redobrada reencontrar Simone e voltar a Portugal, onde sempre fomos recebidas com tanto carinho.

Nasceu no Rio mas foi viver para Brasília muito cedo. Sente­‑se carioca?
Fui para Brasília bem pequena, com 6 anos. Lá, comecei a cantar aos 16 anos. Voltei para o Rio já adulta e tenho plena noção de que aqui está a minha raiz. Todos os lugares se tornam um pouco nossos, não é? Não sou uma pessoa de um lugar só. Me considero muito inquieta, fiz um musical em São Paulo neste ano, vou para Portugal, lancei um novo disco… como diria a Simone, «eu ‘tou que ‘tou».

De onde vem essa inquietação?
Eu acho que é a minha natureza. Um artista que não se arrisca está arriscando muito, entende? Essa é a premissa de quem faz música, ir para a frente, dar tudo. Canto desde 1981, tenho 52 anos. São 35 anos, não posso dar­‑me ao luxo de fazer sempre a mesma coisa. Tenho mesmo obrigação de apresentar novidades para as pessoas. Até porque eu não sou a mesma pessoa que era quando comecei. A idade é uma coisa maravilhosa. Os 50 dão­‑te uma valorização própria, um conhecimento profundo de quem és que não tinhas aos 30. E, na verdade, os 40 são a melhor fase da vida, em que tudo passa a fazer sentido.

Eu tenho 30 agora.
[Risos] Ah, aproveite então, é a idade de experimentar tudo. Daqui a vinte anos falamos de novo e você me diz que eu tinha razão.

Em 35 anos, o público também mudou muito. Li entrevistas suas em que a Zélia assume que não gosta nada de telemóveis nos concertos.
É um fenómeno dos nossos tempos. A internet é uma faca de dois gumes. É maravilhosa porque abre muitos caminhos e chega a vários públicos. Mas, ao mesmo tempo, é um outro universo de futilidades e alimenta todo o tipo de discursos. E existe a questão de a pessoa ter a possibilidade de ser uma celebridade porque postou um vídeo «assim ou assado». Isso afetou o público. O que o público tem de mais bonito ou sagrado é o olhar, o ouvido, o apreender aquele momento único. Nós, como público, não podemos esquecer que a nossa função é muito nobre. Os artistas se validam também por essa reação. Se ele está desatento, preocupado em aparecer mais do que viver o show, perdemos todos, perdemos a troca. Quem te fala é alguém de outra geração, vivi outros tempos, eu tento adaptar­‑me à realidade, encontrar um equilíbrio… mas não vejo grande saída.

Caminhamos para um desequilíbrio cada vez maior?
Acho que sim, basta olhar para a nossa política e é fácil de constatar. A cultura é demonizada, a saúde não existe, a educação caiu para última prioridade. Um povo que não é educado é um povo que não sabe escolher. E o que assistimos hoje é que uma opinião vale mais do que um facto. É muito assustador.

«Escrevi a canção Catedral numa noite que passei no deserto [em Abu Dhabi]. Nem era o single do segundo álbum mas acabou por entrar na novela A Próxima Vítima
em 1995 e mudou tudo. Passava em Portugal e, quando fui aí tocar, as pessoas só queriam saber quem era o assassino no final.»

Enquanto artista, essa preocupação reflete­‑se na música? Por exemplo, neste espetáculo com a Simone, vão guardar espaço para refletir sobre o que está a acontecer?
Nós somos duas artistas que, acima de tudo se respeitam muito, nas opiniões e nas posturas. Eu me atiro e me exponho talvez um pouco mais do que a Simone. Cada uma terá um momento sozinha no palco e aí coloca­‑se como achar melhor. Tenho uma música que se chama No Meu País e eu prefiro cantar essa música. O facto de estar no Brasil e viver de música já é uma resistência. Vivemos um momento em que fazer arte, por si só, já é uma transgressão. Do começo ao fim, o facto de subirmos ao palco como seres pensantes, com a nossa música, que é a nossa bandeira, é um ato político.

A Zélia e a Simone são duas cantoras com uma presença feminina muito forte. Consideram­‑se mulheres feministas?
Mais do que isso, sou uma pessoa feminista. Nos últimos dois anos, o Brasil está passando por um momento muito difícil. Infelizmente parece que é um movimento mundial. Temos elementos para nos informarmos e sabermos o que está errado. Não sou uma estudiosa desses movimentos, mas como uma mulher que vive a vida da sociedade brasileira, o feminismo é o sentimento mais humano a que podemos apegar-nos ultimamente, tanto as mulheres como os homens.

Este reencontro passados oito anos foi saudade de cantar juntas?
Também, claro. Surgiu o convite de Portugal. Quando falámos estávamos as duas com muita vontade de dividir o palco de novo. Nós vamos matar essa saudade uma da outra em frente ao público, vai ser muito bom, muito emotivo. Vamos relembrar o álbum Amigo É Casa mas também experimentar outras canções que nunca cantámos juntas. Vai ser bom, pode confiar.

Viveu um tempo fora, em Abu Dha­bi, um ambiente muito diferente daquele a que estava habituada. Queria ter essa experiência de olhar o Brasil do lado de fora?
Encarei mais como um trabalho. Um casal amigo me chamou, precisavam de uma cantora brasileira. Era um momento na carreira sem muitas perspetivas e achei que podia ser uma experiência boa. Cantava num hotel todos os dias e vivia lá. Não foi fácil, foi um encontro comigo mesma. Quando eu voltei já tinha escrito muitas coisas. Escrevi a canção Catedral numa noite que passei no deserto. Fiquei oito meses fora e voltei com muito gás para fazer o que eu queria na música.

Foi precisamente essa música que fez a sua carreira disparar.
Sem dúvida. E nem era o single do segundo álbum mas acabou por entrar na novela A Próxima Vítima em 1995 e mudou tudo. Passava em Portugal e, quando fui aí tocar, as pes­soas só queriam saber quem era o assassino no final.

Não gosta de beber, não fuma… a música é o único vício que tem?
Pareço uma velha, não é? [Risos] Na verdade eu sempre fiz desporto, sempre cuidei muito da saúde, nunca bebi. Os meus colegas brincam comigo «como assim, você não bebe nem fuma, como é que você canta?» Sou viciada em corrida, fiz cinco maratonas. Mas atenção, não tenho moralismo nenhum, que todo mundo seja feliz do jeito que quiser.

SIMONE

Começou a cantar por acaso, na década de 1970. Em 44 anos de canções – e 67 de vida – Simone Bittencourt de Oliveira deixou cair os apelidos e tornou­‑se um símbolo da música popular brasileira. Gravou mais de 35 álbuns – até em espanhol – e foi a artista brasileira que mais vendeu na década de 1980. Cantou com Ney Matograsso, Martinho da Vila, Gal Costa, Ivan Lins, Chico Buarque, Cazuza, Júlio Iglesias, José Carreras ou Dulce Pontes, entre tantos outros. Agora vai regressar aos nossos palcos.

Esta parceria entre a Simone e a Zélia nasceu um pouco por acaso, não foi?
Sim, em 2005, já vão doze anos. O tempo passa rápido mesmo. A Zélia estava a produzir um álbum de um grande amigo meu, Hermínio Bello de Carvalho, e nos cruzámos. Começámos a trocar ideias e a afinidade foi crescendo. Surgiu a ideia de gravarmos juntas e acho que o nome do nosso disco diz tudo: Amigo É Casa, em 2008, gravado ao vivo. Já estávamos com saudade dessa partilha em palco.

O que podemos esperar dos concertos em Portugal?
Boa música e muita partilha. Vamos para nos divertir. Não tocamos juntas há muito tempo, vai ser emotivo também e logo em Portugal, onde sempre foram tão carinhosos connosco. Vamos ter músicas novas também.

Existe uma admiração mútua entre vocês, as duas falam muito disso.
Sem dúvida. Já nos respeitávamos enquanto artistas antes. Sempre gostei do trabalho da Zélia e quando a conheci a sintonia foi imediata. Você encontra alguém que tem o mesmo timing, ri das mesmas coisas, tem um ouvido parecido com o seu e sabe muito bem o que está fazendo. No final do dia, o que você leva da vida é essa troca, esse «bate­‑bola» com amigos queridos. Eu vejo as coisas assim, e é sempre bom ver mulheres que se admiram, que se jogam para cima.

Foi a cantora que mais discos vendeu no Brasil, nos anos 1980. Sente que teve um papel transgressor na música?
É sempre difícil assumir assim de cara mas eu acho que tive. Cantei Tom Jobim e Milton Nascimento com bateria de escola de samba, por exemplo, ainda ninguém tinha feito. Gravei com o Plácido Domingo, foi uma honra tremenda. Tenho duas músicas gravadas pela Barbra Streisand. Fiz muita coisa de que agora, olhando para trás, sinto um orgulho tremendo. Mas música é isso mesmo, é ir na lata, ir sem saber e acreditar na qualidade do que se tem para mostrar.

«Cheguei a ir para a praia até às cinco da tarde e depois fazia dois espetáculos no mesmo dia. Hoje não. Faço um show e fico cansada e tenho mais tendência para me recolher. Bebo um copo de vinho tinto antes e talvez leve outro para o palco. Mas me cuido, faço exercício, quando estou cansada, deixo para o dia seguinte.»

Com mais de quarenta anos de carreira ainda tem surpresas?
Claro. Ou nem faria sentido continuar. Cada vez que se grava um álbum é diferente. Considero­‑me uma pessoa tímida, juro. E ainda fico nervosa. Aliás, esse nervosismo é necessário. Não tenho a pretensão de achar que já sei tudo. Esta história de que o domínio do palco fica maior, é mentira. Eu trabalho com a emoção. E emoção não é como um computador que você liga e ela surge.

Não parece tímida.
Não? [Risos] Disfarço bem, então. Comecei por acaso, uma amiga me incentivou a cantar num encontro de amigos, me ouviram e tinha um contrato passado um tempo. Não era um objetivo que eu buscava desde a infância. É engraçado como as coisas acontecem, não é?

No Dia de Natal, 25 de dezembro, faz 68 anos. A idade mudou a forma como encara a música?
Muda sempre. Cheguei a ir para a praia até às cinco da tarde e depois fazia dois espetáculos no mesmo dia. Hoje já não é bem assim. Faço um show e fico cansada e tenho mais tendência para me recolher. Bebo um copo de vinho tinto antes e talvez leve outro para o palco. Mas eu não tenho cabeça de senhora, me cuido, faço exercício, quando estou cansada, deixo para o dia seguinte.

Já disse em entrevistas que o vinho tinto é uma das suas paixões.
Sem dúvida. E o vinho português, então, nem me fala.

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ACERVO XANA MACIEL